Ailton Villanova

8 de junho de 2017

Torto, mas elegante! (ou o Alfaiate maravilhoso!)

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      Existiu no bairro do Farol, décadas atrás, um sujeito conhecido como Genésio “Quicé” e, justiça se lhe faça, muito inteligente. Tudo na vida ele sabia fazer. Dominava mil profissões. A última que aprendeu e desenvolveu foi a de alfaiate. À esta dedicou-se de corpo e alma. De posse de uma graninha que havia guardado no banco, ele instalou uma alfaiataria no local mais movimentado do bairro. Logo, a “Alfaiataria Brasil” ganhou um monte de clientes, entre esses o distinto Isaías Gracindo, funcionário do finado Serviço Nacional de Peste, cuja sede  ficava em frente ao mercado público da Levada.

      – Quero que o senhor me faça um terno caprichado! – disse Isaías assim que colocou o solado dos pés na alfaiataria do Genésio.     

      A roupa do funcionário público federal ficou pronta em menos de uma semana. Isaías provou e reclamou:

      – Gostei não! O terno tá todo errado!

      – Como errado? – reagiu o alfaiate.

      – Ôxi, tá vendo não? Repare pra’quí: uma manga curta, outra comprida! Tá reparando na calça? Uma perna mais longa que a outra. A gola tá fora de esquadro! Tudo torto!

      Genésio não gostou das críticas do freguês:

      – Um momento, meu amigo! O senhor está falando com o maior alfaiate da cidade. O terno está perfeito. Sua postura é que está toda errada! Olhaí: o senhor nem sequer sabe ficar de pé. Quer ver? Vamos esticar esse braço aqui, um pouco – e foi esticando o braço do freguês – Assim, isso! Vá esticando. Pare! Agora, olhe o braço de cá. Que coisa! Vamos, dê uma pequena encolhida nele. Ok! Vamos ver esse pescoço. Huuummm… torça ele mais para o lado. Ótimo! E esse peito? Puxa vida, tá todo pra dentro! Peito pra fora, meu amigo. Isso! Tá vendo? Olha ó que beleza de roupa! Que elegância! Agora, o senhor já sabe ficar de pé. Não tire o terno. Pode ir embora vestido nele, que é para acostumar.

      E o coitado do Isaías Gracindo saiu caminhando pela rua, todo torto. Na primeira esquina topou com dois camaradas, que pararam para observá-lo e um deles disse baixinho:

     – Olha só que cara mais troncho! Coitadinho…

     E o outro:

     – É. Ele pode ser troncho, mas vou te contar uma coisa: tem um alfaiate maravilhoso!

 

Uma mãe pra lá de complicada!

      Carola, dessas de viver papando hóstia todo santo dia, dona Rodizonalda era uma coroa complicada ao extremo. Quem a conheceu desde os antigos tempos de Bebedouro, sabe dizer melhor que eu, quem foi a peça. Viúva de Hilário Cunegundes, ela só deu à luz uma única vez na vida, porque não teve mais tempo para isso. O marido morreu muito cedo.

      Rodizonalda criou a filha Tunísia marcando em cima. Na primeira oportunidade que teve, a moça fugiu para casar com o namorado Messias Pacheco. Mas o casamento durou pouco, porque o cara era malandro e mulherengo demais. Por conta disso, deixou Tunísia com um casal de filhos pequenos. Mas ela não se abalou com a separação e se preparou para enfrentar a vida. Antes, precisava festejar bastante a solteirice, esperando, para tanto, contar com o apoio e a compreensão da mãe.

      Num belo final de tarde, Tunísia ligou para a mãe:

      – Alô, maínha? Posso deixar os meninos com você esta noite?

      E Rodizonalda:

      – Vai sair?

      – Vou! – confirmou a filha.  

      –  Com quem?

      – Com um amigo.

      – Com um amigo?! Aaahh, agora estou entendendo porque você se separou do seu marido, um rapaz tão bom…

      – Mãe, eu não me separei dele. Foi ele quem se separou de mim!

      – É… você perde o marido e agora fica saindo por aí com qualquer um…

      – Eu não saio com qualquer um por aí, mãe! Como é, posso deixar os meninos…?

      – Eu nunca deixei você com minha mãe para sair com um homem que não fosse o seu pai!

      – Eu sei, mãe. Tem muita coisa que você fez que eu não faço!

      – O que você está querendo dizer, sua malcriada?

      – Nada!

      – Vai passar a noite com outro, não é? E se seu marido ficar sabendo?

      – Meu ex-marido! Não acho que ele vá ligar muito. Estou sabendo que ele não tem dormido uma noite sozinho, desde a separação!

      – Então você vai dormir com o vagabundo?

      – Mãe, o Gerson não é nenhum vagabundo!

      – Então, é um aproveitador! Um homem que sai com uma mulher divorciada, mãe de filhos, só pode ser um aproveitador!

      – Não vou discutir, mãe. Como é, deixo os meninos aí, ou não?

      – Coitadinhos… Com uma mãe assim…

      -“Assim” como, mãe?

      – Irresponsável, inconsequente! Por isso o seu marido lhe deixou!

      – Chega, mãe!

      – E ainda por cima grita comigo! Aposto que com o vagabundo… esse tal de Gerson, você não grita.

      – Agora está preocupada com ele? Tchau!

      – Espere! Não desligue! A que horas você vai trazer os meninos?

      – Não vou levar, não! Também não vou mais sair, pronto!

     – Não vai sair? Vai ficar em casa? Você tá pensando o quê? Tá pensando que o príncipe encantado vai bater na sua porta? Uma mulher na sua idade, com dois filhos, pensa que é fácil encontrar marido? Se você deixar passar mais dois anos, aí, sim, vai ficar sozinha a vida toda! Depois, não venha me dizer que eu não avisei. Eu acho um absurdo, na sua idade, você ainda precisar que eu a empurre pra sair!