Ailton Villanova

2 de junho de 2017

Empregada mais que modesta

Se neste mundo velho de guerra existe alguém que valorize além da conta uma empregada doméstica, esse alguém e a coleguinha Fátima Vasconcellos. Pertença a indigitada a qualquer tipo ou raça, ela é tratada pela Fatinha com o maior carinho, tal qual uma familiar sua, embora algumas que passaram por sua residência não merecessem. A jornalista é um amor de criatura.

      Certo dia, estando sem uma secretária do lar, Fatinha entendeu de contratar uma certa Apolinária, que ela tratou imediatamente de chama-la de Polinha. A criada era uma mulher curiosa, do tipo, inclusive, que falava sozinha. Quer dizer, não falava sozinha. Falava com os móveis, com as paredes, com os bichos. O gatinho da casa, “Roberto Carlos”, era seu “interlocutor” predileto. E tinha mais: Apolinária ria sozinha como  estivesse escutando uma anedota, contada para ela própria. Tinha ocasiões que ria tanto, que chegava cair para trás.

      Mas Apolinária era boazinha. Tão boazinha que a patroa Fafá fechava os olhos para os seus pequenos deslizes e aturava os seus bizarros monólogos.

      Certo dia, ao voltar do trabalho pra casa, Fatinha Vasconcellos encontrou a Polinha muito abatida. É claro que se preocupou:

      – O que há com você, Polinha?

      – Tô triste, doutora…

      – Mas triste por que, mulher de Deus? Olha, tristeza não leva ninguém a nada. Você é uma criatura que não devia sofrer nunca. Você é jovem…

      – Sei.

      – É simpática…

      – Hum… hum…

      – Tem um corpo atraente…

      – Tô por dentro, doutora.

      – E tem mais…

      – O que é, doutora?

      – Aqui em casa nós gostamos muito de você!

      A criada baixou os olhos muito humildemente e retrucou:

      – Gostam, é? Eu também!

      E quando, bastante emocionada, Fátima Vasconcellos se preparava para agradecer aquela manifestação de estima, a empregada acrescentou:

      – Eu também gosto muito de mim!

 

Bom motivo de preocupação

      Uma madame do corpo roliço e da cara redonda se deitou no sofá da psicoterapeuta Maria do Carmo Oliveira (que também é delegada de polícia civil aposentada) e lascou o pau a falar. Falou, falou, falou. A certa altura, saiu-se com esta:

      – Doutora Carminha, dentre todos os conflitos que estou lhe relatando,  senhora sabe o que mais me preocupa?

      – Não.

      – É uma coisa que me martela a cabeça, que não me sai da mente. Está aí constantemente, infindavelmente. Não consigo pensar noutra coisa. O seu tratamento vai me fazer um grande bem, não há dúvida. Mas uma coisa me deixa angustiada, doutora…

      – E que coisa é essa?

      – Como é que eu vou pagar as suas consultas?

      Nessa noite, doutora Carminha Oliveira foi quem não conseguir dormir, de tanta angústia e preocupação.

Orga sem forga

      Rádio Difusora dos tempos áureos.

      Estava no ar um programa de auditório comandado pelo saudoso radialista Jorge Lamenha Filho, o Marreco. Em meio a atração, entrou a sequência dedicada aos calouros. Entre esses aspirantes a cantor, um empolgado baixinho chamado Manuel Aparício, que foi logo anunciando, sem mais delongas:

      – Boa tarde, seu Marreco! Boa tarde auditóro! Eu vô cantá a musga Orga!

      E o Marreco, corrigindo o cara:

      – Olga, não é isso? Vá, cante, meu filho!

      O calouro abriu o bocão e atacou:

      – Orga, ô Orgaaa…

      Marreco, parou a cantoria do sujeito para corrigi-lo mais uma vez:

      – Meu amigo, não é Orga. É Olga! Olga com “l”, tá entendendo? O-l-g-a!

      O cara reagiu ofendido:

      – Sô burro não, seu Marreco. Eu seio qui é Olga!

      – Então, cante direito, vá!

      O calouro abriu o bocão e lascou lá:

      – Olga… ô… ô Olga/ veja se você/ me dá uma forrrga…

 

Nunca viu um lavador?

      O modesto Blazonaldo, diarista esforçado, cuja atividade laboral é a de lavador de vidraças, encontrava-se, certa feita, trepado num andaime limpando, numa boa, os vidros de um apartamento instalado no oitavo andar de um edifício de bacanas. Naquele momento, do lado de dentro, uma loura gostosa, nua como nasceu, tomava banho muito à vontade. Leviana, safadinha, fazia de tudo para chamar a atenção do Blazonaldo que, ligadão no trabalho, não estava nem aí para ela.

       E ela, fazendo tudo para chamar-lhe a atenção.

       A certa altura, quando ela já tinha esgotado todos os recursos chamativos, Blazonaldo levantou o vidro e perguntou:

      – Que agitação é essa, moça? Por acaso nunca viu um limpador de vidraças?

 

Caso sério de hipocondria

      Cada dia que passa o Limonáldio mais hipocondríaco fica. Recentemente, ele baixou no consultório do médico José Dias com um monte de doenças nas costas. Pacientemente, o doutor foi lhe mostrando que aquilo tudo era fruto de sua imaginação. E ele persistindo:

      – Mas eu estou mesmo doente, doutor! Quer saber? Eu já estou morto!

      Usando o último recurso para tirar a cisma da cabeça do cara, doutor Zé Dias deitou-o na maca e disse:

      – Olhe, seu Limonáldio, o senhor sabe perfeitamente que os mortos não sangram, não é mesmo? Pois vou lhe fazer uma pequena incisão e o senhor vai ver o seu sangue correr.

      O médico, então, pegou o bisturi, deu um pequeno corte no braço do Limonaldo, e este exclamou, maravilhado:

      – Que coisa incrível, doutor! Não é que os mortos sangram mesmo!