Ailton Villanova

26 de Maio de 2017

A velhinha contrabandista

 A vetusta gaúcha Rosa Hortência morava num local bastante longe de Porto Alegre, melhor dizendo, numa região de fronteira não muito movimentada. Todos os dias ela passava pelo posto de fiscalização alfandegária montada numa moto, com uma volumosa mochila nas costas. Um dia, o chefe da alfândega começou a desconfiar dela e passou ordem para os seus subordinados lhe darem um baculejo.

      Num finalzinho de tarde lá ia ela pilotando a sua moto, aquela mochilona nas costas, risinho nos lábios, capacete ajustado na cabeça, toda organizadinha. Aí, um dos fiscais aduaneiros deu com o braço para ela parar. Ela parou e o cara cumprimentou:

      – Como vai a senhora, vovó?

      – Vou bem, meu filho! – respondeu dona Rosinha, sorridente como sempre.

      – Tenho observado que a senhora passa por aqui todos os dias com essa mochila pesada… Que diabo a senhora leva aí dentro?

      – E areia, meu filho…

      – Posso ver essa areia?

      – Pode, meu filho. Pode.

      A velhusca desceu da moto e o cara da aduana verificou a sacola. Só tinha areia dentro. Muito chateado, ele pediu desculpas e disse que ela podia seguir viagem.

      Mas o chefe dos fiscais continuou desconfiado. Talvez não fosse todos os dias que dona Rosinha passava pela aduana com areia. Quem sabe dia sim, dia não?

      Dois dias depois, dona Rosa Hortência foi parada mais uma vez. O fiscal, que era outro, mandou que ela parasse. Areia, novamente.   

      Durante um mês os caras marcaram em cima, por determinação do chefe, que resolveu, finalmente, ele próprio, fiscalizar a anciã.

      O chefe só faltou desarmar a moto toda e não encontrou nenhuma anormalidade. Então, desabafou:

      – Olha, vovó, eu sou fiscal aduaneiro há mais de 30 anos. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça a ideia de que a senhora não é contrabandista.

      – Mas o saco só tem areia, vocês já viram. – insistiu dona Rosinha.

      – Vamos fazer um negócio:  – propôs o chefe – Eu prometo que deixo a senhora passar, não a autuo e nem dou parte à Polícia Federal; não apreendo nada, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai ter que me dizer o que anda contrabandeando:

       – Você jura que não me encana?

       – Juro! Juro pela alma de minha mãe!

       E ela:

       – É moto!

 

As dores dela

      Dona Maria Amália, portuguesa nascida no Algarve e residente há muitos anos no Brasil, resolveu levar sua filha Maria de Fátima ao médico da família, doutor Hepatino Barroso:

      – Doutoire, a coitadinha tem cólicas bestiais quando está para ficaire menstruada.

      O facultatico examinou a garota e concluiu:

      – O problema de sua filha só será resolvido com o coito!

      –  Ié mesmo, doutoire? E o senhor pode cuidar disso?

      O médico tirou o corpo fora:

      – Eu? Não tenho condições de fazer isso… Estou muito velho!

      – Mas o senhoire conhece outro médico que pode fazer, não conhece?

      – Conheço, sim. O doutor Fábio, meu assistente, pode dar um jeito.

      O velho clínico chamou o assistente, inteirou-o do assunto e este foi para detrás do biombo com a portuguesinha.

      De repente, escutaram: 

      – Annhhh… Aaahhhiii… uuuhhh… uuufff… aaahhh…

      E dona Amália:

      – Minha Nossa Senhora de Fátima! Se eu não soubesse o que é coito, iria achar que o gajo está a fudê-la!

 

Morta, bem morta!

      No Farol de antigamente, residiu um português bastante popular, que possuía um estabelecimento comercial onde vendia carne verde, pães, leite e queijo, etc. Era um homem roliço, vermelho, olhos verdes e farto bigode. Sua companhia permanente era dona Maria, a caríssima consorte. Um dia, ele ficou só.

       Ao abrir seu estabelecimento pela manhã, seu primeiro freguês lamentou:

      – Seu Daniel, aceite os meus pêsames. Eu soube que ontem o senhor enterrou sua esposa!

      E ele:

      – Sim, ora  pois! Ela já estava morta!

 

O grande inventor

      Achando que no Brasil se daria muito bem, o português Joaquim Francisco não teve dúvidas: arrumou as malas, montou num avião e, muitas horas depois, pelos ares, estava pisando em solo firme carioca. De lá, pinoteou para Maceió, onde tinha um primo residindo.

      Uma vez instalado na casa do parente, Joaquim Francisco mandou anunciar aos quatro cantos que era inventor internacional. O próprio primo apresentou-se como primeiro cliente:

      Quero que me produzas uma ratoeira radical. Minha loja anda repleta de ratos!

      – Não te azucrines, primo. – retrucou o inteligente inventor luso. – Isso é tarefa besta.

      E meteu mãos à obra.

      Ao cabo de uma semana, a invenção encomendada pelo primo, estava concluída.

      Na ratoeira, o português instalou uma lâmina de barbear, justo na abertura por onde entraria o roedor. Do lado direito, colocou um pedaço de queijo e do esquerdo um pedaço de pão.

      Ao reparar na geringonça, o primo perguntou:

      – Como diabos funciona isso, Jaquim?

      O português explicou:

      – Ora, pois, é muito simples, ó Manel. O rato sai do buraco e deixa o pescoço em cima da gilete. Olha para o pão e para o queiro e pergunta: “Qual o que vou comer primeiro, o pão ou o queijo? O queijo ou o pão?” Aí, corta o pescoço na gilete e morre de hemorragia!

      O primo fez cara de reprovação:

      – Não gostei dessa Jaquim. Invente outra!

      Joaquim tirou o pão e o queijo.

      – Ué, como funciona esta outra? – quis saber Manuel.

      E o inventor, de peito erguido:

– Simples, ó gajo! O rato põe a cabeça pra fora e pergunta: “Cadê o pão? Cadê o queijo?”