Ailton Villanova

23 de maio de 2017

O segredo de estado do coronel

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      Coronel Cândido Tenório Villanova – coronel Candinho -,  meu bisavô pelo lado paterno, foi modelo de honradez. Homem enérgico e de atitudes firmes, jamais faltou com os seus deveres de chefe de família. Candinho se orgulhava do seu cavanhaque e do bigode vistoso; vestia-se com aprumo e elegância, preferindo sempre o linho branco.

      Certa tarde, resolveu sentar-se com alguns amigos no principal bar da cidade de Bom Conselho – onde possuía fazenda e canavial -, para saborear uma de suas bebidas prediletas de finais de semana, o velho e saboroso chope. Horas depois, o grupo já meio biritado, eis que o escrivão Lisymaco Tenório, seu primo, saltou com a bela idéia:

      – Que tal terminarmos a farra na zona do meretrício?

      Todos concordaram e rumaram para a “Pensão da Dita”, o bordel mais famoso do lugar, que era frequentado pelos figurões da elite conselhense –  e coronel Candinho inserido nesse contexto, porque não era de contrariar os amigos.

       O bordel não dispunha de chope, mas a turma não se apertou: entrou de uísque, ademais, estimulada pelas “meninas” da Dita. Quando a noite caiu, os amigos de Candinho Villanova já haviam, quase todos, se mandado pra casa. O coronel continuou firme, abufelado com uma morena carnuda de muitas curvas, chamada Terta. Do bar, eles subiram para um dos quartos do bordel, onde o pau vadiou. Ao cabo de horas e mais horas de estripulias na horizontal com a rapariga, Candinho caiu no sono, tão cansado se achava. Quando acordou, no dia seguinte, o sol já estava no meio do firmamento e a família, desesperada, procurando por ele.

      Coronel Candinho nunca foi de chegar em casa depois das oito da noite, por isso era procedente a preocupação da família, que andou à sua procura nos hospitais, nas delegacias e até no cemitério. As incursões dos Villanova chegaram até a cidade de Águas Belas, onde eles eram numerosos.

      Só não procuram o velho na zona.

      Quando o coronel voltou pra casa cerca das 10 da manhã, encontrou a parentada de olhos vermelhos, em razão da noite indormida. E de tanto chorar, também.

       Naquilo que botaram os olhos em Candinho, a emoção foi total. Pelo menos ele estava vivo! Dono de uma boa presença de espírito, o coronel, que não tinha como falar a verdade, saiu-se com uma bela desculpa quando minha bisavó, Maria, adiantou-se e perguntou, ainda chorosa:

        – Onde diabo você se meteu, Candinho? Quer matar a gente do coração, homem de Deus?

        E ele, todo empertigado:

        – Eu sei das minhas responsabilidades, Maria! Só lhe digo que estava numa missão especial e muito sigilosa. Por favor, não me pergunte que missão foi essa, porque  é segredo de Estado!

        E encerrou o papo.

 

Muito bem apresentado

      Baixinho, cabelinho caindo na testa lisa e brilhante, orelhinha de abano e bigodinho à la Chaplin. Este, é o perfil do José Clitório, popularmente conhecido como Zé Pinguelo. Esse cara tanto tinha de mirrado quanto tinha de enxerido e gozador. Ah, ele também era mitômano, isto é, um grande mentiroso.

      Zé Pinguelo nasceu em Rio Largo, criou-se no Farol e casou-se com Maria Cícera, na paróquia do bairro da Pitanguinha. Apesar de dono de casa, não largava o vício da boemia.

      Um dia, encontrava-se farreando na Pitanguinha, quando estourou uma briga violenta, no bar onde bebia com os amigos de sempre. Socos, tapas, e pontapés pra tudo quanto era lado. De repente, um dos contendores sacou de um revólver e fez alguns disparos. Quando as balas começaram a voar, Zé Pinguelo escondeu-se debaixo de uma mesa e ali permaneceu até que a situação voltou ao normal. Dia seguinte, ele e outros frequentadores do bar, foram chamados a presença do subdelegado de então, baseado no Farol, Pedro Tenório Villanova, não por acaso filho da personagem central do texto anterior, Cândinho Tenório Villanova. O subdelegado também tinha o posto efetivo de oficial da Guarda Civil Estadual.         

      Notório pela sua brabeza, Pedrinho Villanova chamou primeiro o Zé Pinguelo, exibiu uma arma pra ele e indagou:

      – Reconhece este revólver?

      – Não senhor, delegado. Nunca vi esse revólver!

      – Mas você estava presente no momento do tiroteio, não estava?

      – Tava sim, senhor. Ocorre que quando, no meio da confusão, eu vi o homem se coçar, eu sabia que ia voar chumbo. Aí, o que fiz? Eu me escondi debaixo de uma mesa.

      – Tá bom. Pode ir.

      Ocorre que no decorrer da semana, ouvidas todas as testemunhas arroladas no caso, Zé Pinguelo foi chamado novamente à presença do delegado Villanova:

       – Reconhece esta arma?

       – Reconheço sim, senhor. – respondeu, convicto, o Pinguelo.

       O delegado ficou surpreso. Encarou Zé Pinguelo e disparou:

        – Acho que você está querendo brincar comigo, seu cabra!

        – Não senhor…

        – Nesse caso é um grande mentiroso. No depoimento anterior, você disse que não reconhecia a armas. Agora, cinicamente, está confessando que a reconhece? Por que isso?

        E Pinguelo:

        – Tá lembrado não, seu delegado? Semana passada o senhor me apresentou ela pra mim!