Ailton Villanova

20 de Maio de 2017

Lulu, o “santo” enrolado

      O indefectível “Pai Lulu”, guru do colega Álvaro Cleto, é um babalorixá chegado a bossas e modernidades. Seu terreiro, além de possuir uma central de ar-condicionado de última geração, tem bar e restaurante com maître contratado diretamente de Salvador, para gáudio de seus habituês. O galego Álvaro Cleto – nem é preciso dizer -, é dono de cadeira cativa no tal restaurante, onde é servido até faisão a molho pardo.

      Por ocasião das últimas comemorações de Iemanjá, o grande Lulu tentou introduzir mais uma bossa do seu vasto repertório macumbal: a lanterna de pilhas, em substituição a tradicional vela de cera de carnaúba.

      – Além de ser uma peça econômica – justificou Pai Lulu – não tem aquele cheiro chato de cera e ilumina muito melhor o caminho do “santo” até a eternidade.

       Então, estava em plena praia de Cruz das Almas, a grande maioria dos adeptos do terreiro do Pai Lulu, inclusive o galego Álvaro, cantando e dançando ao som de atabaques, na noite escura que nem breu, quando o babalorixá anunciou:

      – Ê, ê, meus zifís, chegô a hora de acendê as lanternas. Vâmo clariá o ambiente! Ê, ê!

      Nesse momento baixou no Álvaro um “santo” ortodoxamente conservador e radical, intitulado Apaga Fogo:

      – Lanterna coisa nenhuma! Vamos clarear o ambiente com vela! Eu quero a minha vela acesa!

      E Pai Lulu, cheio de moral:

      – Na minha jurisdição quem manda sou eu! Vai ser lanterna e fim de papo!

      Dito isto, o babalorixá acendeu a sua lanterna. Enquanto a luz invadia o ambiente, os atabaques voltavam a ribombar com a carga toda.

      – Apague já essa lanterna! – voltou a ordenar o orixá, através do filho de santo chamado Leonardo.

      – Não apago! – teimou Pai Lulu.

      – Apaga!

      – Num já disse que num apago? Num apago!

      Nesse momento um “santo” mais forte e muito do invocado intitulado  Arranca Toco, baixou no Álvaro Cleto, espalhando areia da praia pra todo lado, que pegou o orixá perturbador pelo fundilho, arrastou-o até as ondas do mar e o jogou na água.  O baticum cessou e lanternas e velas foram também atiradas no mar. O babalorixá Lulu sumiu no negrume da noite e a festa acabou a aí.

 

Uma loura muito esperta

      Enfiaram na cachola do brasileiro que toda loura é burra. Eis aí uma grande injustiça. Que diabo tem a ver inteligência com a cor do feixe capilar que ornamenta a caixa craneana ou a tintura do cabelo feminino?

      Maior prova de que loura não é burra eu vou dar agora mesmo:

      Uma amiga muito cara do gordinho Miguel Pierri, chamada Gilmara Sobral viajava de São Paulo ao Recife, num daqueles vôos sem escala, tendo ao seu lado um muito boçal, que se apresentou como  engenheiro de conceituada firma portuguesa. Papo vai, papo, vem, ele propôs a lourinha um joguinho para matar o tempo. Gilmara respondeu que estava bastante cansada e preferia tirar um cochilo. O cara era chato:

           – O jogo é fácil, minha querida. Além do mais, muito engraçado.

           – Quero não.

           – É o seguinte… eu faço uma pergunta e se você não souber a resposta, você me paga e vice-versa. – insistiu o cara.

           Outra vez ela recusou, educadamente. O engenheiro havia concebido que, se sua companheira de viagem era uma loura, facilmente ele ganharia a parada. Aí, jogou a cartada decisiva:

            – E se a gente jogar diferente? Se você não souber a resposta me paga somente 500 reais. Se eu não souber lhe responder, eu pago 5 mil. Topa?

            A proposta despertou a atenção da loura e ele concordou. O cara mandou ver:

            – Qual a distância da Terra até a Lua?

            Sem dizer uma só palavra a loura abriu a bolsa e tirou um pacotinho de notas. Contou 500 reais e deu pro cara.

            – Agora é a minha vez! – ela disse.

            – Pode mandar ver!

            – O que é que sobe um morro com três pernas e desce com quatro?

            O engenheiro avermelhou e olhou espantado para a garota. Em seguida, abriu a pasta, pegou o seu computador portátil e saiu procurando em todas as referências. Nada. Agoniado, quebrou o protocolo internacional de segurança aérea. Ligou o celular e falou com meio mundo de gente. Resposta positiva nenhuma. Insistiu novamente com o computador e apelou para a Internet, que não teve como ajudá-lo. Hora e meia depois, o cara se rendeu e, muito frustrado, acordou a loura que dormia bastante à vontade:

        – Ganhou! Aqui tem os seus 5 mil!

      – Brigadinha…

      A garota tornou a fechar os olhos, mas o cara, intrigado e insatisfeito, voltou a perturbá-la:

       – Qual é a resposta?

       Outra vez, sem dizer palavra algum, Gilmara abriu a bolsa, pegou o dinheiro ali guardado, tirou 500 reais, passou ao engenheiro e ferrou no sono, novamente.