Ailton Villanova

19 de Maio de 2017

Empreguinho “mais ou menos”…

      Esta é do tempo em que nossa moeda era o Cruzeiro, e havia substituído o Réis (finesa não confundir com o Real), havia bem pouco tempo.

      Pois vamos lá.

     Homem simples, trabalhador, decente e honesto, seu Philemon Barreto sempre foi fiel ao chefe político de sua cidade, o deputado Chico Galindo, homão da venta grande e bigode aloprado. Era amigão do avô do saudoso deputado Manuel Lins Pinheiro, o Maninho, que não chegou a conhecê-lo. Na zona da Mata Chico Galindo reinava.

      Um dia, seu Philemon botou o acanhamento de lado e procurou o famoso chefe político, que lhe havia garantido estar sempre ao seu inteiro dispor:

      – Seu deputado Chico Galindo, que vossa incelênça me discurpe a ôzadia…

      – Oxente, Philé! Deixe de cerimônia comigo, rapaz! Sou seu amigo! Pode dizer o que quer!

      – É o seguinte, incelênça… Num sabe aquele fio meu mais véio, o Zequinha? Ele cabô de comprétá o primáro e tá carecendo di trabaiá. Dá pra móde voça incelênça arrumá um empreguinho pra ele?

      E o político alisando a adiposa barriga:

      – Amigo Philé, pra lhe falar a verdade, eu tenho uma vaga de assessor, só que o salário não é muito bom, não sabe?

      – É quanto é?

      – Um pouco mais de 170 milhões de cruzeiros!

      – Cento e setenta milhão, incelença?! Mas isso é munto dinheiro pro meu Zequinha! Ele num vai sabê o qui fazê cum essa dinheirama toda, deputado! Num tem uma vaguinha qui custe mais barato?…

      – Só se for pra trabalhar na Assembléia meio período. Eles estão pagando 150 milhões de cruzeiros…

      – Ainda é munto dimais, incelênça! Isso vai acaba estragando o minino! Sua incelênça num tiria um imprego qui pagasse uns 10 ou 15 milhão…?

      – Ter, eu tenho. Mas aí é só pra quem tem curso superior em engenharia, medicina, direito e que saiba falar fluentemente inglês, francês e espanhol!

 

Candidato persistente

      Político interiorano conhecido pela sua teimosia, mais ainda pelos seus trambiques e enroladas, um certo Perônio Calixto andejava pelo interior do estado à cata de votos, pois ousara sair candidato a deputado federal. Aí, ele achou de bater na porta do velho Ismael Licurgo, cujo bigode media meio metro em cada banda da cara. Malcriado, ele foi atender e o político foi rápido e rasteiro:

      – Bom dia, meu amigo! Estou aqui para lhe pedir o voto…

      O velho não deixou o candidato terminar sua fala:

      – O dotô me discurpe. Eu voto no capeta, mas num voto im vosmicê.

      E o candidato, sem perder o rebolado:

      – Mas, supondo que o amigo não seja candidato, posso contar com o seu voto?

 

Um ladrão tão bonzinho!         

      Simpática, persuasiva e extremamente econômica, madame Mostarda de Jesus – Tatá para os íntimos – , é do tipo que pula a porta de casa para não gastar o ferrolho, que o diga a comandre Aufrinízia Vasconcelos, a Nizinha. Moradora de uma das regiões mais nobres do Recife, belo dia ela recebeu a visita indesejável de um ladrão, justo quando estava se arrumando para ir trabalhar. O malandro batera na sua porta a pretexto de lhe comprar o automóvel, cujo anúncio de venda  estava estampado em tudo quanto era matutino recifense, e numa tabuleta afixada na porta da própria casa.

      O sujeito foi educado:

      – É a senhora que está pretendendo vender o carrinho?

      E dona Tatá, vibrando com a possibilidade de passar adiante o carango, cujas idas e vindas à oficina havia consumido todas as suas economias:

      – Sou eu mesma. Entre, entre!

      O cara entrou  e, sem mais delongas, anunciou seu intento:

      – Eu não quero comprar a sua porcaria de carro, dona. Eu quero é a sua grana. Vá logo passando a bolsa!

      Tremendo de medo, Tatá entregou a bolsa ao bandido, que ordenou:

      – Pegue o carro e vamos dar uma volta por aí!

      – Tá certo, seu ladrão. Fique calmo, viu? Vamos lá!

      Vítima e bandido entraram no carro. Tatá ajeitou-se diante do volante e perguntou:

       – Para onde vamos, senhor ladrão?

       E o meliante, cheio de brabeza:

       – Deixe de papo e vamos em frente!

       Depois de rodarem um tempão pela Recife inteira, o meliante ordenou que Tatá parasse diante de um caixa eletrônico:

       – Vamos lá! Tire toda a grana que você tem aí!

       Mais morta do que viva de medo, Mostarda de Jesus desceu do carro na ponta dos pés, seguida de perto pelo marginal que, disfarçadamente, lhe apontava uma arma. Madame empurrou o cartão na fenda do caixa e a máquina indicou que ela só dispunha de pouco mais de R$ 100 para saque imediato. O gatuno invocou-se:

       – Só isso, dona?!

       – E o que o senhor queria? Eu sou uma mulher pobre, meu senhor. É só o que tenho para passar o restinho do mês…

       E abriu o bocão a chorar.

       O ladrão compadeceu-se dela:

       – Tá bom. Pode deixar aí a sua mixaria. E, outra coisa: da próxima vez, compre um carrinho melhor, porque este aqui é uma porcaria!

       Quando o bandido girava nos calcanhares para ir embora, a mulher o chamou e disse:

       – Seu ladrão, por favor… Não me leve e mal. Será que daria pra me emprestar 5 reais?

       – Pra quê?

       – É pra botar um pouquinho de gasolina no carro. Nós rodamos tanto que o tanque esvaziou!

       O ladrão meteu a mão no bolso, tirou uma nota de R$ 50, deu pra ela e disse:

        – Toma! Vê se não gasta tudo, viu?