Ailton Villanova

17 de Maio de 2017

O jumento extraterrestre

Solteirão e solitário, Jequinaldo Moreno tinha acabado de ver, pela Tv,  um filme impressionante de extraterrestres. Arrastando os pés, dirigiu-se ao quarto de dormir e mergulhou na cama sem reparar de havia trancado as portas da casa. De madrugada, acordou-se assustado com um barulho estranho na cozinha. “Será um ladrão?” – pensou assustado. E ficou de orelha em pé, assuntando o tempo. Daí a pouco, novamente o barulho – “Blurrrf”. Jequinaldo sentou-se na cama mais assustado ainda. “Será uma assombração?”- conjecturou.

      Novamente a coisa:

      – Blurrrf…

      Jequinaldo reuniu o restinho de coragem de que dispunha e, meio acocorado, meio em pé, saiu do quarto devagar, em direção a cozinha, cujas porta e janela encontravam-se abertas, permitindo a entrada de luz exterior.

       – Quem está aí? – indagou, no grito, e tremendo na base.

       – Blurrrf… – foi a resposta.

       Com muita cautela Jequinaldo aproximou-se mais um pouco e aí viu exsurgir da escuridão uma criatura estranha, da cara comprida e orelhuda, encarando sua pessoa.

         – Meu Deus, é um ET!

         Com a descoberta, Jequinaldo girou nos calcanhares, partiu para a porta da rua, abriu-a e correu até o orelhão da esquina. Discou um número e perguntou:

        – Alô? É da polícia?

        Diante da resposta positiva, ele completou:

        – Socorro! Um ET invadiu a minha casa!

       O policial que atendera na delegacia de plantão, tirou uma onda:

       – O pileque foi grande, hein, companheiro?

       – Bebo não, seu policial. Sou evangélico. Estou falando a verdade pro senhor. Tem, sim, um ET na minha casa!

       – Onde o amigo mora?

       – Eu moro em Cruz das Almas, rua 62, número 508. Venha logo, por favor!

       E o policial, tentando tranquiliza-lo:

       – Aguente aí as pontas, que eu vou localizar o delegado Mamão e o   perito Villanova, porque eles são as pessoas da polícia que entendem de Et’s.

       – Será que eles vão demorar muito?

       – Vão não. Fique frio.

       Mobilizados pelo pessoal da Deplan, eu e o meu colega Antônio Rosalvo, o Mamão, chegamos rapidinho ao local. Igualmente rapidinho solucionamos o caso. Naturalmente que a criatura que causara tanto pavor no Jequinaldo não era de um ET. Tratava-se, na realidade, de um jumento muito do folgado.

       É que, conforme já disse linhas acima, o Jequinaldo, morrendo de sono e doido pra cair na horizontal, não teve a preocupação de reparar se todas as portas e janelas de sua casa estavam devidamente trancadas. Pelo menos a porta da cozinha havia ficado escancarada e aí o jegue de um dos vizinhos, que andava solto pelas redondezas, penetrou na casa através dela, depois de ter derrubado a cerca do quintal.

      A retirada do quadrúpede da residência do assustado Jequinaldo  é que foi trabalhosa. Pelo seguinte: enquanto este aguardava do lado de fora nossa chegada, o folgadão do jegue se instalava confortavelmente na cama o dono da casa. Durante a retirada, protestou barbaridade.

 

Camisa muito cara

      Doutor Peritônio Bezerra tem duas paixões na vida, além de sua família, é claro: a medicina e o futebol. Quando rapazinho em Recife, onde estudou medicina, ele foi atleta do Sport. Dava uma de centro-médio e ainda hoje se gaba de ter sido um dos melhores de sua época, em todo o estado de Pernambuco.

       Quando não está atendendo seus pacientes no hospital, ou na sua clínica, doutor Peritônio está correndo atrás de uma pelota em campinhos soçaite do Recife. Sua paixão pelo futebol já lhe rendeu uma bela coleção de camisas de tudo quanto é time nacional e estrangeiro. Um dia, entretanto, um ladrão muito do sacana provocou uma baixa nessa coleção, levando metade das camisas, justo as dos times mais festejados do Brasil, incluindo a sua predileta, que era a do Sport Clube Recife. Doutor Peri quase foi à loucura e partiu para refazer a coleção.

      Na época do afano, o Sport do doutor Peri andava por baixo em Pernambuco. Não ganhava uma. Até para o Ibis, o pior time do mundo, ele perdeu. De modo que todas as camisas do seu amado Sport haviam sumido das lojas especializadas, mas um amigo lhe deu a dica, onde encontrar um exemplar da referida.

      Meio sem jeito, acanhado de pedir o que queria, ele tentou puxar papo com o vendedor:

      – Quanto custa uma camisa do Náutico?

      – Oitenta cruzeiros, senhor. – respondeu o vendedor.

      – E a do Santa Cruz?

      – O mesmo preço.

      – A do Santa também custa oitenta cruzeiros?

      – Exatamente, senhor.

      Aí, ele perdeu o acanhamento e atacou:

      – E a do Sport? Tem do Sport?

      – Temos, senhor. Fica naquela banca de saldos, ali no fundo da loja. Custa só 1,99 reais. Promoção para queima de estoque.

      Satisfeito com a pechincha, doutor Peri tirou uma nota de 2 reais do bolso e pediu para o vendedor embrulhar a camisa do Sport. Aí, ele notou um ar sem jeito do vendedor.

       – Algum problema, rapaz? – indagou.

       E o cara:

       – Não… quer dizer… sim. É que estou sem troco. Que tal o senhor levar duas camisas do CSA de Alagoas, para completar os 2 reais?