Ailton Villanova

12 de maio de 2017

Tortura atroz

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   A negrada da tortura voltou a procurar o seviciador emérito Agripino Suplício, que não é outro senão o notório Inspetor Ling-Ling, que voltou às Alagoas mais terrível que nunca, a pedido – com o adendo de “urgência-urgentíssima” – daquele grupo sórdido, cavernoso, intitulado “Tortura Sempre Mais”.

       Encontrava-se, o indigitado Ling-Ling, repousando nos braços de sua amada Eponina, quando o telefone tocou na sua milionária mansão. A contragosto, ele atendeu:

        – Alô!

        Do outro lado da linha uma voz invocada apelou:

        – Inspetor Ling-Ling estamos precisando de sua ajuda. É caso de urgência urgentíssima. Pode ser?

        – Mas será que eu não posso mais viver sossegado no recesso do meu lar? Eu já estou aposentado, rapaz! Mas que caso da gota serena é esse para requerer tanta urgência?

        – O caso é o seguinte, inspetor… Prendemos um tal de Zezinho Morcegão, bandido até umas horas…!

        – Sim, e daí?

        – E daí que a gente sabe que ela já matou pra mais de duzentas pessoas, inclusive um vereador do interior do estado, e ele…

        – Ele quem? O vereador?

        – Não, inspetor. O bandido.

        – Ah, bom. Prossiga!

        – Pois bem, o bandido não quer abrir o jogo de jeito nenhum. Já tentamos tudo: “pau-de-arara”, “corrida-de-jégue”, “corredor polonês”…

      – Vocês já tentaram a torturazinha do Datena? Essa é quente!

      – Pois pro Morcegão essa é fria! Botamos ele pra ficar escutando o Datena durante mais de duas horas…

      – E ele?

      – Ficou só se abrindo!

      – Danou-se! Precisamos arrumar uma tortura mais pesada! Algo muito atroz! Xovê… Hummmm…

      Dito isto, Ling-Ling apertou os olhos, coçou o cavanhaque, alisou o cucuruto, soltou uma risadinha satânica, respirou fundo e mandou:

      – Encontrei a solução!

      – Encontrou mesmo, inspetor? Graças a Deus!

      – Calma lá! Se com essa ele não abrir a boca e confessar tudo, o remédio será matá-lo. Tragam o infeliz pra cá!

      Ao cabo de meia hora o bandidão estava frente-a-frente com o torturador-mor, que tinha em cima de uma mesinha, ao lado, um aparelho de videocassete acoplado a um televisor, com a narração e imagens de um dos jogos do Brasil na última copa do mundo. A fita estava pronta para rodar.

       – Sabe o que tem aqui nesta fita, seu cabra? – perguntou Ling-Ling ao  Morcegão.

       E o bandido, cheio de ousadia:

       – Não sei e nem quero saber. Se é alguma armação pra cima de mim, não vai colar, tá sabendo?

       – É mesmo?

       – É, coroa. Tô nem aí…

       Ling-Ling só fez empurrar o dedo no botão de “ligar” do videocassete  aí e a imagem e o som invadiram a sala. A narração era do locutor Galvão Bueno. Pra quê suplício maior?

      O bandido deu um pinote no meio da sala e, de olhos arregalados, gritou, desesperado:

      – Parem! Parem, por favor! Eu confesso! Eu confesso tudo!

 

Um pais que é um cocô

      Ele era um mulato dos seus mais de 2 metros de tamanho, conforme dizia sua carteira de reservista; calçava sapatos do número 47 e pesava 102 quilos. Seu nome: Ciclotímio, também conhecido como Nêgo do Galo. O apelido resultou de um enorme calombo que ele tinha na quina direita da testa.

      Nêgo do Galo era brabo feito o cão. Residia na divisa do Bom Parto com o Farol, pedaço de chão intitulado Alto da Conceição.

      Na região onde pontificava Nêgo do Galo, existia um amarelinho chamado Coriolano, mais conhecido como Pirrita, que trabalhava como apontador na Prefeitura de Maceió. Era um baixinho pacato, que se transformava num galo fogoso quando tomava umas biritas. Belo dia, mais embriagado que nos demais dias, lá estava ele na calçada da bodega do velho José Marinho (Seu Zezé), discursando a plenos pulmões:

      – O Brasil é um cocô de louro! O Brasil é o maior cocô de louro!

      Passou um transeunte e aconselhou: 

      – Cala essa boca, Pirrita! Tu vai preso, rapaz!

      Veio outro e completou:

      – É melhor tu ir pra casa, rapaz!

      E ele, nem aí!

      – Nosso governo é num tá com nada! Também é um cocô de louro!

      Nisso, vai passando o Nêgo do Galo, que rebateu, cheio de patriotismo:

      – Epa! Epa, baixinho! Que esculhambação é essa aí? Por que tá falando  desse jeito do nosso governo?

      Diante do negrão, o Pirrita afinou:

      – E eu tô falando mal do nosso governo, tô? Acho que você entendeu mal, amigão. Eu num tava esculhambando com o Brasil. Eu tava era esculhambando com a Argentina, que é um cocô de louro!  

      E o negão:                                                                                             

      – Peraí! A Argentina não é cocô de louro coisa nenhuma! Cocô de louro é o Brasil, que é verde, amarelo e branco, igual à bosta do papagaio!