Ailton Villanova

8 de maio de 2017

Telefone grampeado

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 Tinovérsio Xavier, o Tino, sempre foi um sujeito correto. Era que nem trem-de-ferro: só andava na linha. Consideravam-no o mais absoluto exemplo de decência e honestidade. Trabalhou durante mais de 30 anos na prefeitura de Maceió, sem faltar um dia, sequer. Solteirão, Tinovérsio não possuía vício algum. Ou melhor, possuía. Era o de não perder uma só partida de futebol do seu querido Clube de Regatas Brasil.

     Um dia, o grande Tino mereceu a justa aposentadoria do serviço público. Como reconhecimento pelos seus “relevantes serviços prestados ao município, com esmero, dedicação e honestidade” ganhou de presente uma linha telefônica, devidamente instalada e funcionando.

       Feliz da vida com o presente, Tino havia terminado de almoçar, escovava os dentes, quando o telefone recém-implantado, tocou pela primeira vez. Ele correu para atender:

       – Alô!

       – Bigode? – cochichou uma voz rouca do outro lado da linha.

       – O quê?! – assustou-se Tinovérsio.

       – Não fala nada, Bigode. Aqui é o Cachorrão!

       – Cachorrão?! Ôxi! Quê…?

       – Fica calado, porra! Olha, o negócio sujou!

       – Que negó…? Quê que foi que sujou?

       – Fica frio, Bigode. Olha, cautela porque a polícia tá na maior “butuca” pra cima de você! Acho melhor você se arrancar!

       – Me arrancar?

       – Vou desligar, Bigode. Boa sorte! Tchau!

        Sem entender nada do que estava se passando, Tino colocou o fone no gancho. No que colocou, a policia derrubou a porta do apartamento e o invadiu, quebrando tudo.

        – Ahrrááá! – berrou o chefe dos policiais, que eram civis. – Pegamos você com a boca na botija, Bigode! Vamos!

        – Eu não sou Bigode coisa nenhuma! Vocês estão enganados!

        – Cala a boca, Bigode! Vamos embora!

        – Embora pra onde?

        – Você está preso, cara! A casa caiu!

        Tinovérsio chegou a delegacia de polícia moído de pau, mal podendo  caminhar. Dia seguinte, sua cara estava estampada em todos os jornais e na televisão. Desmoralização total. O noticiário dava conta de que ele era um bandido terrível, procurado no Brasil inteiro.

         Um mês depois, ficou esclarecido que o infeliz era inocente de todas as acusações que lhe eram imputadas, mas já era tarde demais. Seu coração não havia resistido a tanta decepção e humilhação.

          A verdade é que a linha telefônica que havia sido dada de presente ao Tinovérsio, estava grampeada e tinha pertencido ao tal bandido Bigode, até a véspera da invasão policial à casa do inditoso.

 

Com justificativa, tudo bem!

      A madame entrou pisando firme na farmácia de um certo Polidoro Correia, encostou no balcão e pediu:

      – Quero um vidro de arsênico. Tem?

      E o farmacista:

      – Posso saber por que a senhora está pretendendo comprar esse veneno?

      Ela respondeu em tom seco:

      – É pra matar o meu marido!

      – Infelizmente não posso vender o veneno para esse fim.

      Então, a madame abriu a bolsa e tirou uma fotografia do marido fazendo sexo com a mulher do farmacista Polidoro, no que ele concordou:

      – Ah, bom! Agora, sim! Já que a senhora apresentou a receita, eu posso lhe vender o veneno!

 

Cuco maluco

      Anavernaldo de Holanda, natural do estado de Pernambuco, é chegado a uma farrazinha nos fins de semana. De segunda a sexta-feira ele é um responsabilíssimo chefe de almoxarifado, em determinada repartição federal. Morador, durante anos, do bairro do Farol, é casado com dona Blenáuria, madame um pouco braba e do raciocínio lento. Num daqueles finais de semana, o amigão aí exagerou um pouco na boemia e passou da hora de voltar pra casa.

      De retorno da farra, Anavernaldo ingressou no “doce lar” cerca das quatro e meia da manhã, pra lá de bêbado.  Mesmo assim, pisando macio, pé ante pé, ruminando uma bela desculpa para apresentar à dona Blenáuria que, certa feita, o havia ameaçado de morte, caso tornasse a chegar tarde demais em casa.

      Sorrateiramente, ele entrou na sala. Esbarrou numa cadeira e tropeçou no centro. Nesse momento, o relógio cuco, herança da família, começou a cantar. Cantou quatro vezes. Aí, Anavernaldo se deu conta de que a cara-metade poderia estar escutando. Então, bolou a grande sacada:

      – Cuco! Cuco! Cuco! Cuco…! – cantou mais oito vezes, pra que dona Blenáuria pensasse ser meia-noite. Respirou fundo, orgulhoso pela rapidez de raciocínio, murmurando para si próprio: “Eu sou demais! Sou um gênio!”

      Na manhã seguinte, na hora do café, dona Blenáuria o interrogou:

      – Chegou muito tarde, ontem, Naldinho?

      – Ao contrário, meu amor… Eu cheguei até cedo!

      – Que horas, mais ou menos?

      E ele, na cara de pau:

      – Meia-noite, como lhe prometi.

      Dito isto, o malandrão soltou um suspiro e alívio, porque notou que a , mulher não havia desconfiado que ele mentira. Aí, ela observou:

      – Precisamos mandar consertar aquele cuco da sala, Naldinho.

      – Por que, amor?

      – Esta noite ele fez “cuco” quatro vezes e tossiu. Em seguida, arrotou e cantou mais oito vezes. Depois, gritou: “Putaquipariu!”