Ailton Villanova

4 de maio de 2017

Camisinhas incômodas

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Na fazenda do velho Justino Januário, situada na zona poeirenta e seca do Sertão, a vida prosseguia modorrenta. Calorzão danado, mesmo sendo fim de tarde, com o sol sumindo na linha do horizonte. Um pouco mais pra lá da porteira da propriedade de seu Justino, na estradinha acidentada, uma loura aprumadíssima lutava para botar em funcionamento o seu carango, que havia pifado inexplicavelmente.

      A noite chegou e, então, a garota procurou abrigar-se na fazenda sobredita. Bateu palmas na porteira e o velho atendeu:

      – Uquié qui deseja, dona moça?

      E ela, toda empoeirada e transpirando bastante:

      – O meu carro quebrou ali adiante e não consegui consertá-lo. Estou morta de cansada, sabe? Será que o senhor poderia me deixar dormir aqui esta noite?

      O fazendeiro olhou desconfiado para a atraente visitante e respondeu:

      – Pode. Contanto qui vosmicê num se meta cum os meu fío Biu e Tião.

      A moça reparou nos dois rapagões fortes, bonitões e muito tímidos, e respondeu:

      – Pode ficar sossegado, senhor.

      Seu Justino ajeitou um quarto para a visitante, que tentou dormir, mas não conseguiu, de tanto pensar nos rapazes. No meio da noite, ela perdeu a paciência e foi até o quarto deles:

      – Meninos, vocês querem que eu lhes ensine as coisas boas da vida?

      Eles se aninaram e o mais velho respondeu:

      – Nóis qué, né?

      – Mas tem uma coisa: eu não quero ficar grávida. Então, vocês vão ter que usar essas camisinhas…

      A gostosura passou as ditas para os garotões e os três passaram a noite e a madrugada no maior bacanal. De manhã, a loura conseguiu que consertassem seu carro e foi embora.

      Meses depois, Biu e Tião estavam sentados no alpendre de casa, pitando seus cigarrinhos de palha, quando um deles falou:

      – Tião?

      – Quié, Biu?

      – Tu tá alembrado daquela galegona qui apariceu puraqui uma noite?

      – Craro, qui me alembro. Eita mulé gostosa!

      – Tu s’importa se ela pegá um bucho?

      – M’importo nem um tiquinho!

      – Eu tomem, não. Entonce vamo tirá essas porcaria de camisinha da bilunga?  

 

Aprontando a lista negra

      Priscinildo Barbacena havia sido mordido por um cachorro, mas não estava muito preocupado com o fato que a ferida demorava a sarar.

      Por fim, ele procurou um médico que o examinou e, depois, pediu que levasse o cachorro ao seu consultório.

      Como o doutor suspeitara, o cão estava raivoso. Desde que não faria mais sentido aplicar a vacina anti-rábica, o médico achou-se no direito de preparar o paciente para o pior.

      Enquanto aguardava a palavra final do facultativo, Priscinildo sentou-se à mesa, deu garra de uma caneta e uma folha de papel, e começou a escrever, febrilmente.

      – Talvez não seja tão grave assim. – disse o médico. – Você não precisa começar a escrever o seu testamento agora.

      E o cara:

      – Quem falou em testamento, doutor? Estou preparando a lista das pessoas que vou morder!

 

 Os indicativos de proximidade

      Depois de uma bruta farra, Disnoaldo e Alcolaldo voltavam pra casa, biritadões. Tinham saído do interior de carro, com um deles ao volante e pé topado o acelerador. A certa altura, um deles indagou cheio de impaciência e com a vista embaralhada:

      – Ô Naldão, tá faltando muito para e gente chegar?

      E ele:

      – Estamos bem perto da cidade. Já estou atropelando mais gente!

 

Muito macho!

      Peritonaldo Rodrigues, o Rodrigão, caboco muito macho, entretanto um pouco tímido, foi encaminhado pelo doutor Insulino Azevêdo ao colega Prudêncio Leitão, porque estava sentindo uns comichões lá por dentro do pé do pente, quer dizer, na região pentelhal.

      Então, Rodrigão foi lá. Vacilante, mas foi. A sala de espera do médico Prudêncio estava lotada de machões como ele, todos condenados à humilhação de receber uma dedada no rabo.

       Assim que Rodrigão entrou na sala do doutor, foi logo reparando nos dedos do dito cujo. Os dedos do delegado Antônio Monteiro, o Monteirinho, perto dos deles são considerados dedos de anjo. Rodrigão tremeu na base, mas sentou naquela cadeira estranha e, orientado pelo facultativo, assumiu posição ginecológica.

      O doutor calçou a luva, passou vaselina no “dedo fatal”, e… tchum!

      – Ai!

      O dedão do doutor foi lá dentro.

      – Está doendo? – perguntou ele.

      – Eu não estou aguentando, doutor! Eu vou gritar!

      – Calma, rapaz! Já está acabando!

      – Está acabando e eu não estou aguentando! Eu vou gritaaar!  

      – Então, grita, porra! Grita!

      E o Rodrigão, a plenos pulmões:

      – Aaaaiiii! Mas que coisa deliciooosa!