Ailton Villanova

29 de abril de 2017

O célebre e invulgar Astromar

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      Em retribuição à visita que o então presidente Fernando Collor de Mello havia feito aos Estados Unidos, o mandatário norte-americano da época, George Bush, o pai, veio passear no Brasil. Recepcionado no Palácio do Planalto, ele manifestou o desejo de conhecer o ABC paulista, porque tinha um amigo por lá. Então, Bush foi. No território paulista, foi recebido por um certo doutor Nurbaldo Lobão, presidente de uma das industrias instaladas no ABC.

      – Cadê o Astromar, doutor Nurbaldo? Ele não está aqui com o senhor?! – indagou George Bush.

      Doutor Nurbaldo ficou embatucado. Ele não sabia quem era o Astromar, um alagoano nascido no bairro proletário do Bom Parto, em Maceió, que ganhara o mundo para viver a vida melhormente. O  grandola, no entanto, determinou a sua eficiente secretária Rosicleide que verificasse se havia na sua empresa algum funcionário com aquele nome. Pouco tempo depois, a secretária voltou acompanhada de um amarelinho baixinho e risonho. Naquilo que bateu o olho no presidente dos Estados Unidos, ele abriu os braços e gritou:   

      – George, meu chapa! Você por aqui?!

      – Astromar, amigão! Eu vim lhe ver!

      E se abraçaram efusivamente.

      Alguns dias depois, a primeira-ministra inglesa Margareth Tatcher foi também visitar a fábrica paulista e, da mesma forma que Bush, também perguntou se podia ver o seu amigo Astromar. O presidente da empresa ficou pasmo e novamente mandou chamar o baixinho. Tatcher e Astromar trocaram cumprimentos calorosos e gastaram mais de duas horas num papo animadíssimo. Logo que a famosa “Dama de Ferro” deixou a indústria, o chefão Nurbaldo agarrou Astromar pelo braço:

      – Me diz uma coisa, rapaz… quem mais você conhece? Só não venha me dizer eu conhece o papa, também!

      – Quem, o Paulinho?

      – Que Paulinho?

      – Ora, o João Paulo II. Conheço ele desde quando era arcebispo…

      – Essa eu pago pra ver!

     Doutor Nurbaldo pagou. Pegou um jatinho da empresa, botou dentro o Astromar e os dois se mandaram, ares afora, com destino a Roma.  Chegaram lá, se dirigiram imediatamente ao Vaticano.

      Astromar foi muito claro com o patrão, assim que chegaram ao átrio do palácio papal:

      – O senhor vai ter que ficar aqui fora esperando, enquanto vou lá em cima pedir para chamar o Paulinho…

      – E você insiste nessa liberdade toda com o papa, rapaz?

      – Claro! O cara é meu chapa! Vou pedir a ele uma autorização para o senhor entrar. Fique reparando naquela janela do canto, ali no terceiro andar,  que eu vou aparecer nela com o papa.

      Não demorou muito, Astromar surgiu na janela abraçado com João Paulo II. Aí, todo ancho, acenou para o chefe. Nesse momento, então, ele viu o doutor Nurbaldo estatelar-se no meio da praça. Mais que depressa, desvencilhou-se do santo padre e disparou para o local onde o patrão havia caído. Preocupado, perguntou a um cidadão que se achava perto do corpo inanimado de Nurbaldo, e este respondeu:

      – Bom… eu não sei direito. Só sei que passou um japonês por aqui e  perguntou pra ele quem era aquele senhor de cabeça branca ao lado de um tal de Astromar… na janela do Vaticano!

 

“Sem milagre, meu rei!”

      No barzinho de sempre, encontrava-se a mesmíssima patota de biriteiros contumazes. Em dado momento, entrou um cabeludo, que logo foi notado por um dos sobreditos amantes do copo:

      – Olha, galera! Esse cara que entrou agora é igualzinho a Jesus Cristo!

      – Qualé, cara? – rebateu outro da turma.

      – Tô te falando, meu irmão! Olha a barba dele! Repara na túnica…

      Para eliminar qualquer dúvida, o biriteiro que duvidara da opinião do colega, foi até o cabeludo:

      – Ô meu, dá licença… tu é o Jesus?

      – Eu? Que ideia! Por que tu queres saber se eu sou o Jesus?

      – É que o meu amigo ali tá achando que você é o Jesus. Quer saber de uma coisa? Reparando direitinho eu acho que ele tá certo! Você é mesmo o Jesus Cristo!

       – Já disse que não. Mas fala mais baixo!

       – Ahrrááá! Agora eu sei que você é mesmo Jesus Cristo!

       O barbudo se rendeu:

        – Sou! Efetivamente, sou o Jesus. Mas fala baixo e não conta pra ninguém, senão isto aqui vai virar um pandemônio!

        – Tá legal, Jesus. Mas, me faz um favor… Cura essa ferida que eu tenho aqui na canela!

        – Milagre, não! Tu vais sair daqui correndo para contar aos teus amigos e eu, aí, vou passar a noite todinha operando milagres.

        – Palavra que eu não vou lhe dedurar, cara. Pode crer!

        Jesus pôs a mão na perna do pinguço e a ferida sarou a hora!

       – Brigadão, Jesus! Olha, vou ficar eternamente grato a você!

       – Sim, sim. Mas, fala baixo!

      Mal chegou à mesa o pinguço contou a novidade para os companheiros de copo. Aí, levantou-se outro deles e foi até onde se achava o cabeludo:

      – E aí, meu? O meu amigão Astério me falou que você é mesmo Jesus Cristo e que o curou de uma ferida braba. Olhe pra mim. Eu tenho um olho de vidro e sou quase cego do outro… Me cura, Jesus!

      – Eu curo. Mas fala baixo!

      Jesus fez um gesto e o biriteiro ficou curado na hora, enxergando tudo com os dois olhos. Então, ele disse:

      – Agora, vá embora e guarde segredo.

      Acontece que esse outro curado, cujo nome era Antiógenes, tinha a língua mais solta que a do colega que o antecedeu. Mal sentou, disparou:

      – O cara é o Jesus, mesmo! Curou o meu olho cego e ainda deu um grau no outro, que estava quase pifado!

      Entre os parceiros do Astério e do Antiógenes encontrava-se um baiano, o negrão chamado Eunápio da Conceição, que não deu a menor bola para o Jesus que, por sua vez, não gostou da indiferença do negrão. Aí, foi até ele:

       – E tu, não queres que…

       Muito do boçal, o baiano pulou de lado e não deixou que Jesus prosseguisse:

        – Epa, meu rei! Tire as mãos de mim, que eu estou dispensado pelo médico por seis meses!