Ailton Villanova

28 de abril de 2017

Muito bem recompensado!

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      Os pais do Otávio Augusto Messias, o “Tatáu Cabeção”, sonharam muito ver o rebento correndo atrás de uma pelota num campo de futebol, mas morreram frustrados porque o Tatáu era ruim demais, no bate bola.

      Já que não caiu bem no futebol, ele tentou ser atleta do voleibol. Também não deu. Era mal nos arremessos, nos cortes e pior ainda nos saques. No basquete, passou por longe. Terminou vencendo como camelô e, depois, como comerciante.

      Tatáu Cabeção começou com uma banquinha de bugigangas na Moreira Lima. Pouco tempo depois, ele já possuía uma loja de tecidos no mercado público da Levada e mantinha, sob seu controle, uma rede de bancas de jogo-de-bicho espalhadas pelo subúrbio da capital. Vivia, então, uma vida tranquila. Somente nas quatro festas do ano, se dava ao estrago de tomar uma cervejinha com os amigos mais chegados. Um dia, casou-se com dona Marinete, uma antiga colega de escola, que nunca punha fé na sua fidelidade.

      – Os homens são todos iguais e o meu marido não é nenhuma exceção! – discursou ela, certa feita, numa reunião de mulheres, no centro social do bairro onde residia.

      Um dia, Cabeção entendeu de sair com os amigos de sempre para uma farra mais esticada, no Pontal da Barra, e voltou pra casa, de madrugada, mais bêbado do que gambá (será que gambá bebe?). Aliás, ele jamais soube explicar como chegou ao lar, tão apagado ficou em razão dos incontáveis grogues alcoolíferos que bebeu.

      De manhã, ele acordou com uma bruta ressaca. Abriu os olhos com dificuldade, virou-se de lado e reparou que, sobre o tampo do criado mudo, havia um copo d’água e duas aspirinas. Utilizou-se deles, olhou em redor e viu sua roupa passada e pendurada no espaldar de uma cadeira. O quarto estava na mais perfeita ordem. Então, ele pensou com seus botões: “Será que deitei na cama errada? Será que estou mesmo na minha casa?!”

      Estava. Marreta sentou-se na cama e viu na penteadeira um bilhete, deixado por sua mulher, nos seguintes termos:

      “Amor, deixei o seu café pronto na copa. Fui ao supermercado. Beijos”.

      Tatáu Marreta encontrou um lauto desjejum esperando por ele. Como não estava entendendo nada daquele tratamento especialíssimo, perguntou ao filho:

       – O que foi que aconteceu ontem, Juninho?

       O garoto explicou:

       – Bem, painho, você chegou às três da madrugada completamente bêbado, vomitou no tapete da sala, quebrou móveis e machucou o olho, ao bater na porta do quatro…

        – E por que está tudo arrumado, café preparado, roupa passada, aspirinas para ressaca e um bilhete amoroso da sua mãe?

        – É que a maínha lhe arrastou até a cama e quando estava tirando as suas calças, você disse: “Epa! Não faça isso, moça! Eu sou um homem casado!”

 

Façanha genética

      Professor Hepatino Penha, jovem zoólogo competentíssimo em pesquisas, vivia a vida ligado nesse barato. Nas horas vagas, sempre noturnas, que eram raras, apreciava tomar uns birinaites, preferencialmentre no bar do amigo Mirandolino, localizado no subúrbio tabuleirense, um pouco mais pra lá da universidade.

      Numa dessas noites, depois de um dia estafante de trabalho, eis que esse ilustre mestre adentrou ao seu local predileto de biritagem, dirigiu-se ao garçom Jurinaldo e pediu:

      – Pra começar, eu hoje quero um martine triplo, falei?

      – Só se for agora, professor! – rebateu o garçom. – O senhor parece feliz!

      – É que hoje eu estou comemorando minha primeira grande façanha no campo da genética. – explicou.      

     Nesse momento, ingressou no ambiente uma garota  curvilínea e rebolativa, que acusou haver escutado o que o jovem mestre acabara de revelar.

       – Eu também estou comemorando uma grande proeza! – intrometeu-se na conversa.

       – Ótimo! – cumprimentou o zoólogo.

       E Hepatino contou à moça o sucesso que havia alcançado na reprodução de uma espécie muito rara de ave por estas bandas, e que fora por ele capturada pela primeira vez.

        – E você o que fez? – completou Hepatino.

        A moça respondeu:

        – Nada de importante. Depois de dez anos de casada, estou grávida pela primeira vez! Mas o que foi mesmo o que você fez para conseguir a reprodução da ave?

         E o professor:

         – Muito simples: tudo o que fiz foi trocar os machos, até encontrar a combinação biológica correta.

         – Verdade? – exclamou a garota. – Mas que coincidência!

 

Um corno muito feliz!

      Gamadão na Margarida, aquele monumento de mulher, Correínha é o tipo do corno que faz questão de demonstrá-lo. A mulher sai de casa para o trabalho, ou para qualquer outra atividade, principalmente a de chifrança, ele vai atrás,  dando uma de espião, escondendo-se por trás de muros, árvores, postes e veículos. Quando ocorre de flagrá-la com algum bacana, ele começa a remoer: “Será que ela está mesmo me traindo? Ou será que não?”

      Ele é como certo tipo de petista: o único cego que não quer ver.

      Certo fim de tarde, ele entrou no Bar do Duda, filial de Mangabeiras, ocupou uma mesa, chamou o garçom Deraldo e pediu:

       – Me veja aí uma cerveja geladinha. Hoje eu quero comemorar!

       – Seu aniversário, Correínha? – perguntou o garçom.

       E ele, todo orgulhoso:

        – É que hoje tive a prova de que sou o cara mais feliz do mundo! Imagine que eu nunca tinha percebido o quanto a minha mulher me ama!

        – Não diga, Correínha!

        – Se digo? Olha, minha mulher me ama tanto, que morre de felicidade quando estou em casa, não importa o motivo!

         – É mesmo?

         – Tirei a prova hoje de manhã, quando tive de ficar em casa, por causa de uma violenta disenteria… que me atacou! Fiz tanto cocô, que quase desmaiei!

         – Lamentável…

         – Mas a Margarida ficou tão feliz por eu estar de cama, que toda vez que o carteiro, o entregador de pães, o jardineiro e alguns dos meus amigos tocavam a campanhia lá de casa, ela gritava:

          – Meu marido está em casa! Meu marido está em casa! Meu marido está em casa!