Ailton Villanova

21 de Abril de 2017

Eita remédio do “cabrunco”!

      Ingressei na faixa dos 50, coisa que não teria ocorrido se a competentíssima equipe de cirurgia do coração da Santa Casa, comandada pelo craque José Wanderley Neto, não tivesse entrado em campo a tempo. Baixei naquele nosocômio infartado, mais pra lá do que pra cá, pronto para encarar São Pedro. Saí zerado, com um monte de pontes de safena e com meia dúzia de distintos amigos, todos cardiologistas, felizes e satisfeitos com a minha rápida recuperação.

       Voltei lá tempos depois, aos 65 anos, para me submeter a novo procedimento cirúrgico, no mesmíssimo coração, dado o fato de que cada uma das artérias que irrigam este órgão muscular estavam entupidas. Hoje em dia possuo nove safenas. É mole ou quer mais?

        Eu pensava que me achava livre de novo encontro com cirurgiões numa mesa de operações, mas eis que, há cerca de dois anos (e depois de submetido a exames de rotina) descobriram  competentes esculápios do Hospital do Açucar e da Santa Casa, que eu tinha câncer num dos meus rins e a vesícula estourada. Encarei numa boa os bisturis dos doutores Ricardo Soares da Costa e Antônio de Pádua Carvalho e hoje, segundo esses amigos, vai demorar um pouco mais para me deparar com Papai do Céu.

         As cicatrizes que se distinguem no meu corpo, me servem como admoestação para continuar respeitando e preservando a Vida. Ademais, representam a suprema ordem no sentido de que devo continuar mais e mais pobre. Explico: o que eu invisto em remédios não está no gibi. Hoje em dia, quase todos os meus vencimentos são comprometidos com a aquisição de medicamentos, sempre mais caros. Não existe, no mundo, negócio mais rentável e lucrativo do que produzir e comercializar remédios.

       Embora não precise comprovar o que estou dizendo, aqui vai um exemplo do que, por mais eu ganhe dinheiro trabalhando decente e honestamente, menos terei para fazer jus a sua obtenção.

        Há coisa de três dias voltei ao consultório médico, para exame de rotina e um dos meus clínicos, me encarou com um sorriso que ia de orelha a orelha:

       – Você vai entrar numa medicação moderna e bastante eficiente, para melhorar o seu desempenho…

       E disse maravilhas do medicamento.

       Dessa vez quem riu fui eu:

       – Manda brasa, doutor. Remédio é comigo mesmo! 

       E ele, cheio de cautela:

       – Olha, esse remédio é um pouquinho caro!

       – Ah, deixa comigo, rapaz! Nenhum remédio é caro quando se quer cuidar da saúde, é ou não é? – rebati cheio de entusiasmo.

       – É isso aí!

       Sai da clínica direto para a farmácia. Exibi a receita pro balconista e sapequei:

        – Me vê esse remedinho aí, meu jovem…

        O balconista pegou o medicamento, botou numa cestinha, passou-a às minhas mãos e me dirigi ao caixa. E haja a mocinha do caixa a digitar números e mais números. Terminou, olhou pra mim com a cara de piedade e disse:

          – São R$ 4 mil e 400 reais!

          Achei que não tinha ouvido direito e pedi a garota para repetir. Ela repetiu:

          – São 4 mil e 400 reais!

          Gelei! Naquela hora não tive outro infarto – dessa vez fulminante -, porque doutor Wanderley Neto e sua equipe capricharam nas minhas NOVE pontes de safena. Mas, caí estatelado no chão, desmaiado. O susto foi grande demais!

 

 

Marido crucificado

      Dada a sua magreza, o agrônomo Bercildo Machado era conhecido pelo apelido de Macarrão. Também não fazia questão de atender pelos vulgos de Magrão, Fiapo, Lombriga ou Arame Vestido. O rapaz era simpático, estudioso, mas tinha um complexo infeliz da sua raquitice. Bermuda ele não vestia para não exibir os cambitos. Também não andava sem camisa, porque só tinha a pele e o osso. Dona Bercelina, sua extremosa mãe, gastou tudo o que tinha comprando remédios e mais remédios pro filho querido “pegar um corpinho”. Nada.

      Um dia, Bercildo deixou o acanhamento de lado e partiu para conquistar a bonita donzela Maria Alice, filha da viúva Astrofásia, uma velhota cheia de moral. Conquistada a garota, Magrão avançou resoluto para o casório, que se realizou com muitos cânticos religiosos e orações mil.

      Faltou dizer que, além de bonita, Maria Alice tinha um corpo sensacional. Pois bem, logo após a cerimônia religiosa, o noivo lembrou-se da sua magreza e ficou preocupado. Chamou num canto o amigo mais chegado e desabafou:

      – Pô, Ascânio, eu sou magro demais! Como é que eu vou fazer para ficar nu na frente da Alicinha, sem que ela repare no monte de ossos que eu sou?

      O amigo coçou a cabeça, deu uma temperada na goela e aconselhou:

       – Faz o seguinte, Macarrão… antes de começarem a transar, você apaga a luz, faz charminho e vai ao banheiro. Em seguida, volta peladão e cai em cima dela, na ferocidade, entende? Mulher gosta disso, rapaz!

       – Será que vai dar certo, Ascânio?

       – Pode apostar, meu irmão. É tiro e queda!

       – Tá legal! – concordou o noivo dentro do terno folgadão.

       A festa do casório foi bonita e muito animada. Na hora em que os nubentes foram para o quarto conjugal, Bercildo pôs em prática o conselho do amigo. Começou alisando a moça, disfarçou, apagou a luz, fez o tal charminho e entrou no banheiro, avisando:

      – Me aguarde aí, meu amor!

      E ela, ansiosa, piscando os olhinhos:

      – Não demore muito, ouviu, meu amor?

      Bercildo não demorou nadinha no banheiro. Só fez tirar a roupa e voltar correndo, peladão, para os braços da amada. Da porta do quarto, ele pulou para a cama. No que pulou, Alicinha assustou-se e deu o maior berro:

       – Socorro, Bercildinho! Caiu um crucifixo em cima de mim!