Ailton Villanova

6 de abril de 2017

Santa feiura!

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      Nos quintos sertanejos de outrora, aqui nas Alagoas habitou um cidadão intitulado Leocádio Canavieira, cuja diversão era beber cachaça em tudo quanto era birosca e feira livre da região. Leocádio só dormia biritado. Um dia, ele bebeu um grogue a mais, perdeu as estribeiras e danificou a donzelice de uma moça chamada Irinéia, que apesar do corpo bonito, possuía uma cara de dar medo. Era mais feia do que um trem virado.

      Como castigo, Leocádio teve de casar com a infelicitada, porque seu pai, o “major” Jucundino Prado, brabo virado no cão, o ameaçou com um bacamarte na cara:

       – Óiaquí, seu fiadaputa, se vosmicê num casá cum a minha fia, eu lhe arranco a cabeça na base do tiro!

       – Eu caso, major! Eu caso!

       Casou. Mas, foi acabando de casar e comentando arrependido da besteira que havia feito: “Se eu não tivesse bebido tanto naquela noite, não teria me metido com esse estrupício. Cachaça é armada do cão. Nunca mais voltarei a beber. Olhaquí o castigo!”

       Promessa feita, promessa cumprida. Nunca mais Leocádio pôs um pingo de aguardente na boca, mas passou a ser um homem amargurado, taciturno. À mulher, não dirigia uma só palavra, um olhar, sequer.

       Todas as vezes que Irinéia tentava uma aproximação, ele pulava de lado e dizia:

        – Sai pra lá, mulher feia!

        – Mas Leocádio… – ela insistia.

        – Sai, peste!

        O marido sempre achava um motivo para manifestar a sua ojeriza pela esposa. O negócio piorou quando o sogro morreu e não lhe deixou um só centavo de herança.

         Um dia, madame feiosa chegou pro marido e arriscou:

         – Hoje tem festa da padroeira… Acho que vou à missa…

         – Vai, é?

         – Vou. Nunca saio de casa…

         – Acho bom você baixar esse fogo. Se você sair por aí com essa cara de hipopótamo, vai aparecer um monte de gente correndo com medo, ou lhe xingando!

          – Vai nada! – ela duvidou, cheia de otimismo.

          Irinéia foi à festa, sim. Horas mais tarde, quando voltou pra casa, o marido, cheio de curiosidade, perguntou:

          – Como é que foi, mulher? Juntou muita gente pra lhe xingar?

          E ela, toda ancha:

          – Xingar coisa nenhuma! O povo chegou até a me confundir com a mãe de Jesus. Por todo lugar que eu passava, o povo dizia: “Minha Nossa Senhora!” “Virgem Maria!”

 

Eita “caboco” bom!

      Baixinho, canelinhas zambetas, buchinho de candunda, bigodinho de rato e orelhas de abano, Apúlcaro Rodrigues foi um latifundiário de muitas terras no agreste alagoano. Meio careca, em cada quina da testa deixava evidenciar uns pitocos bastante parecidos com chifrinhos. Sua mulher, Florisbela, era uma morena dessas de fechar comércio. Alta, dona de curvas perigosas, traseiro redondo e pernas maravilhosas, ela era insaciável, contavam as más linguas. O coitado do marido só vivia no fortificante. Diariamente, comia dez dúzias de ovos de codorna e entornava cinco litros e meio de catuaba. Mesmo assim, não satisfazia a mulher que, na verdade, era ninfomaníaca.

       Florisbela casara com Apúlcaro por causa da grana dele. Os dois formavam um casal incomum e os desejos dela eram sempre atendidos pelo apaixonadíssimo marido. Menos os sexuais, pelo motivo já exposto acima.

       Num certo cair de noite, um viajante bonitão, com toda pinta de atleta de alcova, teve o seu carro avariado bem pertinho da residência do casal. De modo que ele correu até lá para pedir ajuda e encontrou um Apúlcaro solidário, muito prestativo:

        – Primeiro, meu amigo, o senhor senta com a gente e toma um cafezinho. Depois, vamos ver o que se pode fazer pelo seu carro. Tá bom assim?

        O cara concordou na hora, assim que bateu o olho na gostosura ao lado do anfitrião:

         – Está ótimo. Obrigado. Diante de uma gentileza dessa não posso recusar.

         Tomaram o café, que, aliás, não foi um café. Foi um lauto jantar, onde teve de tudo. Até olhares convidativos da dona da casa.

          Terminaram de comer, foram ver o carro. Não houve como consertá-lo alí na escuridão da noite, ademais com o tempo ameaçador. Então, Apúlcaro foi mais além na gentileza: 

           – O senhor dormirá esta noite lá em casa e amanhã providenciaremos o conserto do carro, tá bom assim?

           – Ora, mas o que é isso? Eu não quero incomodar…

           – Besteira. Nossa cama é grande, o senhor dorme junto com a gente, porque os outros quartos da casa estão todos cheios de produtos da nossa fazenda…  

           Deitaram os três na cama do casal. Florisbela no canto, o visitante no meio e o marido na ponta, já caindo no chão.

           De manhã, quando o viajante saiu para providenciar o conserto do carro, o marido perguntou à mulher:

           – Ô Belinha, que xamêgo da gota serena foi aquele de vocês, a madrugada inteira, hein? Parece até que ouvi uns gemidos. Ou terá sido engano meu?

           E ela, toda dengosa:

           – Foi engano não. É que me deu uma agonia no coração e ele ficou me dando massagem por tudo quanto foi canto do corpo. Por dentro e por fora. Foi maravilhoso! Não lhe acordei pra não atrapalhar o seu sono.

           – Fez bem. Eu logo vi que aquele caboco é uma pessoa muito fina e de grande propósito.

           – Enorme, meu amor. Enorme!