Ailton Villanova

4 de abril de 2017

Uma vingança cruelmente sacana

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A opinião é quase geral: o doutor Lupércio estaria se dando melhor houvesse abraçado a profissão de humorista. Não que ele seja um médico medíocre, muito pelo contrário. Ele chega até ser motivo de orgulho dos Villanova do clã do coronel Candinho, em razão de sua competência cultural e profissional. Mas o cara está sempre aprontando uma molecagenzinha e ai do infeliz que cair nas suas garras.

      Lupércio e o irmão Latércio, também médico e não menos sacana, passaram por um momento difícil quando estudavam na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco: um colega deles, filhinho de papai, acusara os dois de haverem escondido a peruca de uma professora do curso (a de antropologia), que era careca zerada – sua cabeça era mais lisa do que uma bola de bilhar. Diante de tão grave deduração, os irmãos Villanova foram suspensos das aulas pelo período de um mês um mês, sem direito a defesa.

 

      Anos mais tarde, médico formado, Lupércio foi à forra.

 

      Ele estava saindo de um restaurante, no Recife, quando avistou um guarda multando um automóvel, que logo identificou como sendo o de seu antigo desafeto, aquele que o dedurara na faculdade. Dito automóvel encontrava-se estacionado irregularmente. Lupércio aproximou-se do guarda e falou grosso:

 

       – Por que está multando o meu carro, seu merda?

 

       O guarda o ignorou e continuou escrevendo a multa. E o Lupércio insistindo no desacato:

 

        – Pode multar, seu meganha. Pensa que é o quê?

 

        Impassível, o guarda chamava a caneta pra frente. Achou pouco, deu uma volta em redor do carro, inspecionou os pneus e prosseguiu acionando a caneta com gosto de gás.

 

        E o Lupércio:

 

        – O que é agora, seu porra? O que foi que viu aí? Pode multar mais! Multe! Sou rico! Tenho dinheiro pra pagar todas as multas que você está anotando aí. Tenho dinheiro até pra comprar você, seu pobre de merda!

 

        O guarda virou a folha do talão uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes… E continuou chamando na grande.

 

        – Multe mais, seu puto! Quer o carro pra você? Fique com ele!

 

        Quanto mais doutor Lupércio xingava, mais o guarda multava. Nessa brincadeira, ele gastou dois talões e meio de multas, caprichando nas mais graves do código de trânsito. Quando terminou, não se deu por satisfeito e chamou o guincho. Quando o guincho chegou, Lupércio tirou a chinfra final:

 

         – Ô seu guardinha de merda, pode levar essa porcaria de carro pra casa. É seu!

 

         Enquanto o guincho rebocava o carro do seu desafeto, doutor Lupércio caminhava até a esquina, entrava no seu verdadeiro  automóvel, acionava a ignição, engatava uma primeira e saía do local gargalhando feito um louco.  

 

Atacou o saco errado!

      Bêbado pra mais da conta, um certo Milton Bezerra resolveu desafiar todo mundo, num barzinho da periferia:

      – Sou muito macho! Quem quer correr dentro?

      Num canto do  bar encontrava-se um sujeito chamado Zequinha Pé de Prancha, muito parecido com um guardarroupa, que se levantou e aceitou o desafio do bebão. Eles se encararam no centro do salão e, num gesto rápido, Pé de Prancha aplicou uma chave-de-braço no tal Bezerra. Em seguida, deu um nó na perna dele. Estavam os dois naquele rolo quando o grandalhão soltou um berro e deu um pulo, caindo no chão a três metros de distância, contorcendo-se em dores. Todos aqueles que alí se encontravam cercaram o bêbado, comemorando a inesperada vitória.

        – Você ganhou, cara! O que você fez para derrubar o grandalhão? – perguntou alguém.

        E ele:

        – Bem, assim que ele me pegou naquela chave-de-braço e deu um nó na minha perna, eu achei que ia morrer. Aí, vi um saco bem na minha frente e não vacilei: lasquei uma mordida nele!

        – E aí o cara urrou de dor, não foi?

        – Não. Não era o saco dele. Era o meu! Você não sabe a força que tem um homem quando morde o próprio saco!

 

O padre e o velório do Varela

      Oscar Varela era um sujeito bom e trabalhador. No meio da cara tinha um bolo de carne com dois buracos na ponta, que ousava intitular de nariz. Por esse motivo a turma costumava chama-lo de “Venta de Bolota”, ou simplesmente “Bolota”, mas ele nem ligava.

      Além do nariz imoral, Varela empurrava uma barriga imoralmente adiposa, consequência de desregradas alimentações de manhã, de tarde e de noite.

       O cara era um comilão de marca maior. Adorava cuscuz com leite de bode e para comer um cozido andava léguas. Foi por causa disso que bateu as botas numa tarde calorenta de sábado. A viúva, dona Estrevaliana, arrumou uma desculpa para o falecimento do infeliz:

        – A culpa da morte do meu velho foi o peste de um angu de milho. Se ele não tivesse misturado angu de milho com cozido, esta hora ele estaria vivinho da silva.

         Então, achava-se o corpo do inditoso estirado no esquife da sala, o velório naquele marasmo, meio insosso. Entrava um, saía outro, caras muito tristes, alguns fungados, assoar de ventas e por aí. Varela parecia feliz naquela posição horizontalina, mãos repousadas sobre a barriga volumosa.

          De repente, salta o negrão Zé Audísio, amigão do peito do finado, que cismou de agitar o ambiente:

           – O velório tá muito devagar, minha gente! Velório sem uma cachacinha não presta! É ou não é, turma?

           – É isso aí, parceiro! – concordou o Carolino, outro amigo chegado do finado.

           – Então vamos alí no Bar do Osório, tomar uns grogues com tira-gosto de salame! – sugeriu Audísio.

           Nesse momento foi chegando o padre Eurico, que fora convidado pela viúva, para puxar as rezas. Mal foi chegando, foi logo perguntando:

           – Alguém aí falou em salame?

           – Eu falei, padre! – confirmou Audísio.

            – Adoro salame! – revelou o sacerdote.

            – Então, nos acompanhe, padre!

            O religioso acompanhou os caras até o bar e apesar da resistência, terminou ingerindo reiterados goles de cachaça. Quando voltou ao velório para ministrar as rezas, mal se aguentava em pé.

             Padre Eurico encostou-se na parede, pendurou a estola no pescoço, temperou a goela e, com voz pastosa, discursou ao lado do caixão:

              – Se alguém aqui presente souber de algum fato que possa impedir esse matrimônio, que fale agora ou se cale para sempre!

              E caiu emborcado, acometido de “leve coma alcoólico”.