Ailton Villanova

1 de Abril de 2017

Os sapatos da sogra já eram!

      Antigo gerente do Hotel Manaíra, em João Pessoa, José Humberto da Nóbrega é presepeiro de marca maior. Farrista e mulherengo desde que se entende de gente, esse amigo sempre teve bons álibis para justificar suas boemias com o mulherio. Um dia, ao chegar em casa mais cedo que de costume, eis que sua dileta esposa, dona Helóida, abordou-o toda contente:

      – Betinho, advinha quem vem passar o fim de semana com a gente?

      José Humberto gelou, ante a perspectiva de uma má notícia:

      – Não me diga que é a sua mãe…

      – Ela mesmíssima! Não é uma felicidade?

      – Felicidade o cacete! Felicidade pra você! Pra mim será um desastre!

      – Não diga isso da mãinha, Betinho!

      – Digo! Sua mãe é um tremendo pé no saco!

      Nessa noite, Humberto teve pesadêlos mas, bom católico, rezou para Nossa Senhora da Penha e acordou mais tranquilo. Na manhã seguinte, que era de um sábado, a sogra pisou no solo “humbertino” cheia de bagagens e, mal olhou para o genro, atacou:

       – Escute aqui, seu Humberto. Esta noite eu quero assistir ao  espetáculo do Chico Anysio, no teatro! Vim exclusivamente pra isso! Não me venha com desculpas pra não me levar lá!        

       – Hoje à noite???!!! Logo hoje à noite???!!! – assustou-se o genro.

       E a sogra:

       – E por que não hoje à noite?!

       – Porque eu tenho um compromisso inadiável, dona Hepatina!

       – Pois desmanche! Quero ver o Chico Anysio!

       – Não posso!

       – Pode!

       O compromisso do José Humberto era com uma morena sensacional de Cabedelo. Mas, muito jeitoso e inteligente, o amigão conseguiu antecipá-lo para metade da manhã e uma parte da tarde, contanto que às 7 da noite, estivesse livre para levar a fera ao teatro.

        Depois de metade da manhã e a tarde inteira na maior orgia, entre praia e motel, eis que, a muito custo, ele conseguiu se desvencilhar da morena, com promessa de novos encontros. Montou no seu Chevette zerado e disparou pra casa, já boquinha da noite. Mal parou na porta, encontrou sua esposa e sua sogra, as duas todas emperequetadas e ansiosas. Cheia de ironia, a sogra ainda tirou uma onda:

         – Pensei que “sua excelência” não viria!

         De cara feia, Humberto ajeitou as mulheres no carro e pisou fundo rumo ao teatro. E lá ia ele todo concentrado ao volante, quando, num cruzamento, levou a “fechada” de um ônibus, forçando-o a dar uma freada brusca. No que freou, um pé de sapato feminino deslizou por baixo do banco do motorista. Humberto gelou, imaginando que o tal sapato pertencia à morena, que teria esquecido no carro. Mas, portador de boa presença de espírito, conseguiu disfarçar:

          – Eita! Olha só aquela fumaça preta no céu!

          – Onde? Onde? – perguntaram, em coro, a mulher e a sogra, curiosas.

          Humberto aproveitou o momento para atirar o sapato pela janela. Aliviado, aprumou a direção e continuou dirigindo. Aí, sentiu alguma coisa roçando no calcanhar. Olhou pra baixo e viu outro pé de sapato igualzinho ao que acabara de jogar fora. Novamente, pensou rápido:

          – Olha aquele homem querendo pular da janela daquele prédio!

          – Cadê? Cadê? – eram as duas mulheres.

         Zé Humberto aproveitou a cena jogando o outro sapato fora. Finalmente, chegaram todos ao teatro. Ele abriu a porta do carro para as duas madames. A esposa desceu, mas a velha continuou sentada lá dentro, com uma cara esquisita.

          – O que foi que houve, dona Hepatina? A senhora não está se sentindo bem? – perguntou o genro.

          E ela, bem aborrecida:

          – É que não estou encontrando os meus sapatos! Tirei os dois dos pés, para aliviá-los, assim que entrei no carro. Estou achando muito estranho eles não se encontrarem mais aqui!

          Descalça, dona Hepatina não teve como entrar no teatro. E perdeu o espetáculo do Chico Anysio, o único de sua temporada no Nordeste, programado para João Pessoa.

 

Um casal muito azarado

      Apaixonadíssimo pela donzela Amaralina Pereira, o mancebo Aderildo Lindoso terminou conduzindo-a ao altar. Feito isso, os dois, muito felizes, se mandaram para a lua-de-mel lá pras bandas de Foz do Iguaçu. Sairam de Maceió, de avião, numa manhã e chegaram lá um dia e meio depois. Mal se instalaram na cidade, os coitados resultaram vítimas de um acidente. Bastante contundidos, foram recolhidos a um hospital público e o Aderildo começou a se lamentar com o médico:

       – A gente tinha acabado de admirar as cataratas e já estava no hotel. Aí, minha esposa teve a ideia de tirar mais uma foto da sacada. Então, ajustei a câmara para o automático, corri pra junto da minha mulherzinha e ficamos aguardando a máquina clicar. De repente, a sacada se desprendeu e caímos!

        – Oh, meu Deus! Que azar! – lamentou o médico.

        – Isso não foi nada, doutor. – continuou o jovem e apaixonado marido. – Nós tentamos nos segurar num caramanchão na parede, mas ele veio soltando o reboco do prédio e caiu uma dezena de tijolos em cima da gente:

        E o doutor:

        – Mas que azar danado!

        – Calma que isso não é o pior, doutor!

        – Não é não? Tem mais?

        – Tem, doutor!

        – Caramba! Continue!

        – Bem, como estávamos no terceiro andar, tentamos nos segurar na sacada do segundo, mas o cara do apartamento vizinho estava dando um churrasco e a churrasqueira virou em cima da gente… Imagine aquele monte de carvão em brasa chovendo do céu na nossa cara!

        – Terrível!

        – Ainda piora no final.

        – Piora?! Eu não aguento! Mas… conta, conta.

        – Então, a gente caiu em cima de um latão de lixo cheio de ratos e de vidro quebrado… Um horror!

         – Espere aí! Essa história não pode ficar pior do que está!

         – Pois fica, doutor. No final desse sofrimento todo, acabamos descobrindo que a maquina estava sem filme!

 umbertoHum