Ailton Villanova

31 de Março de 2017

… E ficou tudo na mesma!

Pense num sujeito gomeiro. José Ancilênio é desse tipo. Só ele é o bacana e na ponta da língua tem sempre uma história de gabolice para expelir.

      Nas horas vagas Ancilênio aprecia tomar uma cervejinha, preferencialmente num bar chamado “Canela de Siri”, na companhia do amigo Osvaldo Cardoso. Outro dia, boquinha da noite, ele chegou sozinho ao sobredito bar, para cumprir o compromisso de sempre. Puxou uma cadeira, sentou-se diante da mesa que costumeiramente ocupa e abriu o papo, pra ninguém, especificamente:

       – Eu hoje tô invocado!

       No que o garçom Chico “Quartinha” interviu:

       – Tá invocado por quê, rapaz? Qual foi o bicho que lhe mordeu?

       – O meu patrão! Hoje mostrei a verdade pra ele! Bota uma cerveja aí, Quartinha!

       O garçom entregou-lhe uma “loura suada” e ele prosseguiu basofiando:

        – Cheguei pro patrão e berrei: “Tá pensando o quê, doutor Bezerra? Só porque é o dono da firma todo mundo tem que ficar tremendo as canelas na sua frente? Qualé? Comigo não tem disso, não, tá sacando?

         – E por que essa alteração toda com o patrão? Não estou entendendo nada! – manifestou Chico Quartinha.

        E ele:

        – O problema, meu amigo, é que eu estava precisando de um aumento salarial, tá me compreendendo?

        – Mais ou menos.

        – Aí, fui direto pro escritório dele, já pra ganhar no abafa. Estratégia, meu. Estratégia!

        – E então?

        – Então, cheguei pra ele e disse, na maior: “Ou o senhor dobra o meu  salário ou eu peço demissão!”. Assim, na tábua da venta!

       – Que coragem, bicho! E como foi que ficou a coisa?

       – Bem… sabe como é… Nesses assuntos o que conta são os princípios. É preciso chegar a um acordo. Cada um deve ceder um pouco, é ou não é?

       – É isso aí!

       – Foi o que fizemos: ele não dobrou o meu salário e eu não pedi demissão!

 

Os amendoins da vovó

         Magnaldo Castelo convidou o amigo Crisélido Batista para uma visita à sua avó, dona Beduína. Foram. Ao ver o neto e o amigo, a velhusca alegrou-se.

         – Que bom que vocês chegaram! Estou precisando de ajuda pra consertar o telhado da cozinha. Com essa chuvarada toda, estou com pingueiras por todos os lados…

         O neto se propôs consertar o telhado e, enquanto se empenhava nessa tarefa, o amigo era levado à sala, pela avó, para tomar uma bebida. Junto com o copo de cerveja, um pratinho cheio de amendoins que o Crisélido comeu sem parar. De repente, ele viu que havia comido todos os grãos. Na hora de ir embora, agradeceu calorosamente à dona Beduína:

          – Muito obrigado pelos amendoins, viu dona Bedu? Acho que abusei. Comi tudo sem deixar sobrar nenhum!

          Amavelmente, a vovó respondeu:

          – Tem problema não, meu filho. De qualquer jeito eu não poderia comê-los. Depois que perdi os meus dentes, só faço lamber o chocolate que vem em volta.

 

Ânus inconfiáveis

      Quando ele era garotão, a vida que levava, nas horas de folga, era sair à procura de boiolas. Não tinha um pederasta, em toda Maceió, que não conhecesse o Algafeu Neto, tipo do cara que jamais escondeu a sua preferência pelo sexo anal. Era fissurado nesse barato. 

      Algafeu virou rapaz, formou-se em Agrimensura em Pernambuco, voltou pra Maceió e tentou viver uma vida normal. Arrumou uma bonita namorada, que levou ao altar numa tarde festiva de junho.  Depois da cerimônia casamentífera, ele deu uma grande festa, regada a quentões,  muita pamonha, muita canjica, muito milho verde… e foguetório pra mais da conta. Foi uma festa inesquecível.

       No primeiro mês de casório Algafeu viveu tranquilo com a amada esposa, mas a tara pelo sexo anal voltou a martelar-lhe o juízo. Só que a esposa jamais topou essa parada. “Eu num sou viada, ouviu, seu Fefêu?” – advertiu-lhe, certa vez, a mulher, com certo ar de indignação. Mas era só papo, porquê…

       Certo dia, Algafeu Neto chegou em casa mais cedo e flagrou a “santa” esposa na maior transa de marcha-à-ré justo com o seu melhor amigo, um certo Marcão “Lavanca”, tido e havia como o mais bem dotado de toda a parte alta da cidade e “além fronteiras”. O cara era um tremendo poste!

        Depois do flagra, Algafeu foi amargar sua decepção e frustração no primeiro boteco que encontrou. Lá, deu de cara com um outro amigo com quem desabafou, entre lágrimas e soluços.

        O amigo tentou consolá-lo:

        – Essas coisas acontecem na vida da gente, rapaz. Você não é o primeiro e nem será o último! Levanta a cabeça!

          – Mas eu não posso me conformar com uma coisa dessas!

          – Olha, vou lhe contar uma coisa… Um dia, eu estava numa viagem de trem, lá em São Paulo, quando, de repente, me deu uma tremenda vontade de fazer cocô. Corri pro ao banheiro e só consegui soltar um punzinho mixuruca! Voltei pro meu lugar e aí voltou a vontade de “despejar o barro”, mas baseado no que acontecera anteriormente, achei que ela passaria com outro pum. De modo que levantei a perna, de leve, disfarcei e me preparei para soltar o “ventinho”… Soltei. Só que acabei me cagando todo!

           – Foi mesmo?

           – Uma cagada homérica, meu irmão!

           – Mas que merda! Eu tentei contar com a sua ajuda, me abrindo com você, pensando que ouviria um conselho que verdadeiramente me confortasse, e você me vem com essa história fuleira de soltar pum e defecar! Qualé, rapaz?

           E o amigo, cheio de filosofia:

             – Eu só estou lhe mostrando como é a vida, meu irmão: a gente não deve confirmar nem no próprio cu, quanto mais no dos outros!