Ailton Villanova

30 de Março de 2017

O cão… peão!

      Comecinho de tarde de um sábado tranquilo, eis que adentra ao Bar Primavera, localizado na periferia de Arapiraca, um sujeito fortão, todo gomeiro, que acabara de descer de uma caminhoneta mais lustrosa do que catarro em parede. Puxava pela corrente um cachorro que não tinha mais tamanho. O cara parou diante do balcão e determinou ao rapazinho que atendia a freguesia:

      – Ô menino, me dê aí “uma” guaraná, e vê se não demora!

      Ao lado, um freguês observou, admirado:

      – Mas que cachorrão!

      – Campeão mundial! – respondeu o boçal.

      – Campeão de quê? – quis saber o freguês.

      – De luta de cachorro! Não perde pra nenhum. Ganhou todas as medalhas. Ele é imbatível!

      Nisso, ouviu-se uma vozinha lá do fundo:

      – Acho qui ele num é imbative, não!

      Ao escutar isso, o fortão arretou-se:

      – Quem foi o infeliz que falou aí?

      Do seu cantinho levantou-se um velhinho amarelinho, humildezinho, que se identificou:

      – Quem falô foi eu, Mané Apolonho. Aposto déis milhão de cruzêro qui esse cachorro aí num ganha do cachorro do meu cumpade Barnabé Bizerra.

      – Pois tá apostado! Vá buscar o seu compadre e o cachorro dele!

      Manuel Apolônio fez meia volta, caiu na rua e disparou para a casa do compadre. Minutos depois, estava de volta trazendo o amigo e o respectivo cachorro, que só tinha a pele e o osso. No que reparou no animal, o fortão caiu na gaitada:

        – Quá, quá, quááá… É essa porcaria aí que vai vencer o meu Hércules? Quá, quá, quá…

        – É esse mermo! – falou o velhote.

        – Olha, eu não me responsabilizo pelo que acontecer com ele, viu? O meu cão é terrível! Estraçalha mesmo! Quer desistir da aposta?

        – Quero não!

        Fizeram uma roda no terreiro do bar. O dono do cão campeão mal podia segurá-lo, enquanto o cachorro do compadre Barnabé não estava nem aí. Casaram a aposta, os animais foram soltos, o campeão partiu firme, dentões arreganhados, pra cima do adversário. Este abriu um olho, fechou o outro, levantou uma pata e – vapt! – deu uma porrada violentíssima no campeão, que caiu mortinho, na hora.

          – Oooohhh!!! – fez todo mundo.

         Cabisbaixo, arrazadão e humilhado, o gomeiro passou a grana ao velhinho, que teve a dignidade de não gozar com a cara do perdedor. Quando ele ia se retirando com o compadre Barnabé e o cão vencedor, o dono do vencido correu atrás dele e falou:

          – Pergunte aí ao seu compadre se ele quer vender o cachorro.

          O próprio Barnabé fez questão de responder:

          – Vendo não, moço. É de istimação.

          – Então me diga como o senhor conseguiu essa potência. Qual é a sua raça?

          – Sei não sinhô. Já tô com o bichinho fáis uns cinco ano. Peguei-lho im Dermiro Govêia. Tinha lá um cíuco qui ia fechá e o dono do animá deu ele pra eu. O danado só me dá um trabaínho de vêis im quando…

          – Que trabalhinho?

           – É o de cortá aquela cabilêra qui cresce todo mêis…

           – Cabeleira?!

           – É aquela qui os pessuá chama de juba!

 

Camisinha desnecessária

      Assim que acabou de graduar-se em Medicina na Universidade Federal de Pernambuco, juntamente com o irmão Lupércio, o distinto Latércio Bezerra Villanova foi clinicar no interior do estado. Um dia, num final de tarde, encontrava-se praticamente ocioso quando entrou no seu consultório um matuto magrinho do bigodinho de rato, que disse chamar-se Manuel Vicente. Estava aperreado:

      – Eu num aguento mais, dotô! Todo ano minha mulé pega bucho! Já pissuímo treze fío e ela tá buchuda novamente! Vim aqui pra mode vosmicê me ajudá!

      Doutor Láu achou graça na ingenuidade do sertanejo e lhe recomendou usar preservativos.

      – Ôxi! E qui danado é isso, dotô? – espantou-se o matuto.

      Laércio assumiu ar professoral e explicou:

      – Preservativo é um saquinho de plástico, que vem todo enroladinho da farmácia. A gente pega ele e enfia no pênis…

      – Pênis?!

      – Pênis é a bilunga, entendeu?

      – Ah, agora intendi. Puracauso, dotô, num é aquela coisa qui chamam “camisa de vento”?

      O médico confirmou, deu garra de uma caixinha de “amostra grátis” do preservativo e deu para o matuto. Em seguida, demorou-se em instruções a respeito. Terminou, aduziu:

      – Olha, seu Manuel Vicente, o senhor tem que usá-las sempre, ouviu bem?

      – Uví. Possa dêxá!

      Com a caixinha de camisinhas no bolso e um sorriso nos lábios, o matuto se mandou pra casa e passou um tempão sem dar notícias. Completados seis meses, eis que ele retornou ao consultório o doutor Láu:

       – Num deu certo dotô! A dizinfiliz da camisinha num vingô! A mulé inxertô novamente!

      – Mas não é possível! O senhor a usou conforme lhe recomendei?

      – Cráro, dotô! Eu uso essa mardita o dia intêro e só tiro ela pra mode tumá banho e trepá!