Ailton Villanova

29 de Março de 2017

Comeu na marra!

      O penedense Manuel Reis de Siqueira era um rapaz bom, educado ao extremo e bastante tímido. Mal abria a boca para falar. Para todas essas qualificações, existia um motivo plausível: ele era gago. Tão gago que só se fazia entender quando dizia as coisas cantando. Um dia, aqui em Maceió, ele passou por um aperto danado.

       Siqueira veio à Capital para apresentar-se ao Exército, porque já havia ingressado na condição de “submisso”. Completara 28 anos e nunca tinha se alistado para servir à pátria amada. Ele desembarcou na rodoviária, que à época funcionava no bairro do Poço, e tratou logo de arrumar um lugarzinho para se aboletar. Chegou num daqueles pensionatos da Praça Senhor do Bonfim, pegou uma cama, estirou o esqueleto nela e danou-se a roncar. A viagem de Penedo a Maceió, numa carroceria de caminhão, tinha sido por demais cansativa.

         Dia seguinte acordou bem cedinho e correu para a mesa de refeições, seco para tirar a barriga da miséria. Sentou-se lá e ficou aguardando o desjejum. O prato já vinha pronto, não permitindo ao freguês o direito de escolher o que queria comer. Comia o que lhe fosse imposto pela dona da pensão, uma gorda chamada Otelina, de cuja cara salientava-se um bigode capaz de fazer inveja até ao sargento Garcia, aquele inimigo figadal do lendário Zorro.

          O café da manhã naquele dia seria ilustrado com um tal de arroz doce, que de doce não tinha nada. Era salobro.

          A mocinha que servia aos hóspedes pegou uma enorme colher de pau cheia do grudento e malcheiroso arroz e sapecou no prato do Siqueira, que reagiu na hora:

           – Ma-mas…

           A garçonete não contou conversa. Lascou outra colherada no prato do Siqueira. E ele:

            – Ma-mas…

            Aí, a garota caprichou. Triplicou a dose.

            – Ma-mas…

            E assim foi, até o ponto de não caber nem ais um grão de arroz no prato do infeliz. O arroz fazia aquela montanha e o gaguinho agoniado:

            – Ma… Ma-mas…

            Então, a garçonete perdeu a paciência:

            – Mas que goludice, rapaz! Vá comendo esse prato que depois eu trago mais!

            Num esforço tremendo, Manuel Siqueira conseguiu falar:

            – Ma-mas… ma-mas eu num go-gosto de ar-rroz do-doce!

 

 

Grande demais!

      Finalmente o Grinàurio conseguiu levar Catarina Angélica a um motel. O leitor não imagina com que felicidade ele realizou a proeza. A bela Cate sempre foi a garota dos seus sonhos.

      Depois da primeira transada, o Grináurio espichou-se na cama redonda, acendeu um cigarro, soltou grossas fumaçadas pelos buracos da venta e, em seguida, partiu para o segundo tempo. Talqualmente a primeira, a segunda chavascada foi joiada.

      Grináurio acendeu novo cigarro e tome papo furado no juízo da garota:

      – Sabe, meu amor, eu bem que gostaria de ter uma… uma… como diria? Bem, gostaria de ter uma genitaliazinha feminina!

      – Ah, eu também! – respondeu a garota.

      Grináurio assustou-se:

       – Ôxi! Você?

        – É que a minha é tão grande, né?!

 

Mas que neto relaxado!

      Clitonaldo sempre foi um cabra magro. Sua avó materna, dona Orfília, que o criou, morria de preocupação por causa disso.

      – Você precisa engordar, menino! Vai tomar uma vitamina, Clitozinho!

      E o cara tentando. Tudo quanto era de fortificante Clitonaldo traçava numa boa. E continuava fininho, igual a uma vara de virar tripa!

      Um certo dia, ele invocou-se com a insistência da avó e pegou um ônibus com destino a Maceió. Do estribo do coletivo ele anunciou que só voltaria para Piaçabuçu quando tivesse engordado nem que fosse ao menos meio quilo. Dona Orfília chorou à beça!

      Uma vez instalado na capital, Clitonaldo procurou especialistas da medicina e encontrou um doutor que lhe prescreveu um remédio porreta. E não é que o cara engordou dois quilos! Que felicidade!

      Eufórico, cheio de orgulho e vaidade, o rapaz preparou-se para mandar uma foto à avó e pediu a uma empregada da pensão onde se achava hospedado, que o ajudasse, dando uma de fotógrafo. Cheia de más intenções, a moça topou e ainda deu a brilhante ideia:

       – Que tal tirar o retrato nu?     

       Depois de pensar um pouco, o cara aceitou tirar o retrato em trajes de Adão. Feita a fotografia, Clitonaldo tratou de remetê-la imediatamente à avó. Só que o envelope de que dispunha era pequeno e ele teve de cortar o retrato ao meio. Na pressa, ao invés de colocar no envelope a parte que ficava da cintura para cima, ele botou a parte de baixo.

        Uma semana depois, dona Orfília recebeu a correspondência pelo correio. Ruim da vista, ela abriu o envelope e chamou a vizinha para exibir com orgulho a chapa fotográfica do neto:

        – Veja aqui como o Clitozinho está gordo, dona Ariobalda! Agora, tem uma coisa…

        – Que coisa, dona Orfília?

        – O menino continua relaxado! Veja: o cabelo despenteado e a gravata toda torta!