Ailton Villanova

25 de Março de 2017

Ele começou muito cedo!

      Seu lado mais cruel o Martírio Castelo começou a exercitar quando ainda era criança, na Paraíba.

      O mês de dezembro ainda nem tinha pintado na parada, mas o Martírio já começava a azucrinar a paciência de dona Juscelina:

      – Mãe, compra uma bicicleta pra mim, compra!

      E ela bem paciente:

      – Olha Martirinho, o Natal está longe nós não temos dinheiro para sair comprando qualquer coisa que você queira. Por que não escreve uma carta a Jesus, pedindo a bicicleta?

       Com essa ideia no juízo, Martírio recolheu-se ao quarto e resolveu escrever a missiva:

        “Querido Jesus: Fui um menino bonzinho e este ano eu gostaria de ganhar uma bicicleta. Seu amigo, Martírio”.

        Mas o garoto se mancou que, na verdade, Jesus sabia qual era o seu comportamento. Então, rasgou a cartinha e tentou escrever outra:

         “Querido Jesus: Tendo sido um menino legal durante este ano, gostaria de ganhar uma bicicleta. Um abraço, Martírio”.

          O fedelho era inteligente e sabia que não estava sendo autêntico. Mais uma vez rasgou o escritado e partiu para a terceira missiva:

           “Ôi, Jesus! Tudo bem? Acho que, como toda criança, mereço ganhar uma bicicleta. Você me arruma uma? Martírio”.

            Não deu. O danado reduziu esta última epístola a pedacinhos, porque não a achou legal. Aí, decidiu que faria o pedido diretamente ao Filho de Deus. Em assim sendo, correu até a igreja mais próxima de casa, ajoelhou-se diante do altar e começou a meditar no que fazer.        Subitamente, bateu o olho numa pequena imagem de Nossa Senhora. Pegou-a e correu pra casa. Assim que chegou lá, escondeu a santinha embaixo da cama e em seguida escreveu a seguinte missiva:

             “Jesus, tenho sua mãe em meu poder. Se você quiser vê-la novamente, me mande uma bicicleta. Assinado: Você já sabe”.    

 

Um sujeito de muita fé    

      O templo era um daqueles evangélicos que normalmente estão entupidos de fiéis. A Igreja do Amor Divino ficava naquele pedaço do Tabuleiro do Martins, onde o vento faz a curva e encosta o cisco.

      Pois bem. O pastor Advíncula Protásio, deitava falação para a galera quando embocou no ambiente o tal de Canalício, mais conhecido como Boca de Bagre, absolutamente embriagado. Ele parou no meio do salão, levantou a mão e pediu ao orador:

      – Posso falar, pastor?

      Mesmo encabulado, com a interrupção, o líder evangélico acedeu:

      – Pode. Mas seja breve!

      – É o seguinte… é o senhor quem separa as mulheres do mal?

      Pastor Advíncula entusiasmou-se:

      – Sou eu, irmão! Aleluia!

      Então, Boca de Bagre sapecou:

      – Então, me faça o seguinte, pastor: separe uma pra mim, no sábado, valeu?      

 

Uma questão de sabedoria

      Um certo Abrólio Trancoso, que se dizia professor e pesquisador, era muito metido a sebo. Apreciava humilhar as pessoas, mas, um dia, embarcou numa canoa furada, literalmente, e se lascou.

      A pretexto de fazer umas pesquisas nos nossos manguezais, ele alugou uma canoa, se meteu dentro e se danou a encher o saco do remador:

      – Você já leu Aristóteles?

      – Li não, moço.

      – Pois perdeu um quarto de sua vida. E Sócrates, já leu?

      – Também num li, não.

      – Que pena! Perdeu outro quarto de sua vida.

      Em dado momento, a canoa bateu num tronco que boiava no meio da lagoa e o canoeiro perguntou ao chato:

      – O senhor sabe nadar?

      – Não!

      – Nesse caso, perdeu a vida inteira!

 

Um cunhado de respeito!

      Esta é do tempo em que a Santa Casa de Misericórdia era administrada por irmãs de caridade. Tem um montão de anos.

      No bairro de Ponta Grossa morava um camarada chamado Joel, cujo apelido era Boi Deitado. Ex-marinheiro, ele saiu de uma família conservadora e extremamente religiosa. Entretanto, desvirtuou-se.

       Um dia, esse ilustre teve uma crise de apendicite em plena Praça Deodoro, no centro da cidade, e caiu gemendo de fazer dó. Pessoas solidárias e de bom coração, pegaram o infeliz e levaram pro Hospital de Pronto Socorro, que funcionava pegado a Santa Casa. Seu caso era seríissimo e, em assim sendo, foi submetido a uma cirurgia de emergência. Ao sair da sala de operações, ele foi levado para o setor de recuperação. Passado o efeito da anestesia, ele abriu os olhos e viu uma freira ao seu lado:

        – A cirurgia foi um sucesso, seu Joel! Logo o senhor terá alta! – ela anunciou.

        – Brigadinho, irmã…

        – O senhor tem seguro-saúde? – indagou a religiosa.

        – Infelizmente não.

        – Dinheiro para pagar a conta?

        – Nem um tostão, irmã.

        – Algum parente seu que possa pagar?

         – Acredito que só minha irmã. Mas ela é uma pobre freira, solteirona…

         – Alto lá! – replicou a religiosa. – Freiras não são solteiras, senhor. Nós somos esposas de Cristo!

         – Ah, é? Nesse caso pode mandar a conta pro meu cunhado!