Ailton Villanova

24 de Março de 2017

O velho só queria soltar um punzinho!

      Seu Agripino Pereira, “Seu Pino”, sempre foi um homem austero. Guarda-livros aposentado, ele costumava reunir a família em volta da mesa todos os finais de semana, na espaçosa casa que possuía no bairro do Farol, mais precisamente no distrito do Alto da Conceição, que faz conexão com o Bom Parto. Esse ritual varou anos, até quando Seu Pino partiu desta para melhor.

      Certo dia, na véspera de completar 90 anos, ele presidia um jantar, aboletado na cabeceira da mesa. De repente, começou a tombar para a direita. Muito atenciosos, alguns parentes o seguraram pelos ombros e o colocaram na posição certa. Novamente, olha ele tombando para a esquerda! Dona Eulália, sua filha mais velha, cochichou para o filho Arnaldo:

       – Segura o papai, que ele vai cair, coitadinho!

       Mais que depressa, o neto o garrou e o pôs na devida posição. Sem dizer uma só palavra, o ancião olhou para o rapaz com cara de poucos amigos.

        E o jantar de vento em popa. Mais alguns minutos, lá vai o velhinho tombando novamente para a direita. Dessa vez, todos correram para ampará-lo. Aí, ele emputeceu:

         – Mas que peste! Será que não se pode mais peidar sossegado nesta casa?!

 

O caramelo e a “chapa”

      Seu Rubens Adrenalino era um velhote que morava no bairro do Pinheiro e adorava uma fita de cinema, na base do bangue-bangue. Noite sim, noite não, ele descia o morro e se metia no Ideal, de saudosa memória, cinema de sua preferência, que ficava no bairro da Levada.

        Uma noite, seu Adrenalino foi flagrado de gatinhas no escuro, procurando alguma coisa. Uma madame incomodada, reclamou:

        – Tá procurando o quê, seu velho safado?

        E ele:

        – Um caramelo!

        – E o senhor fica aí se arrastando pelo chão, só por causa da merda de um caramelo perdido?

        – É que a minha chapa está grudada nele, dona!

 

Buzina e freio

      O camarada parou o carro à porta da oficina do Dinho, na Ponta da Terra, desceu do dito cujo e dirigiu-se ao mecânico:

      – Tô com um probleminha no meu carango…

      E o Dinho:

      – Vamos ver isso…  Qual é o galho dele?

      – Eu queria que você consertasse a buzina…

      – Tudo bem.

      – … porque o freio não está muito bom!

 

Ficou apenas careca!

      Dona Mastrúzia foi às compras de fim de mês na Rua do comércio e, toda lampeira, entrou numa loja de artigos masculinos, por sinal uma loja do Abdias Tavares, àquelas alturas entupida de fregueses. Então, lá estava ela reparando numa camisa, com a intenção de adquirí-la para dar de presente ao marido Agenor, quando foi abordada por uma madame muito distinta:

       – A senhora me permitiria fazer-lhe uma observação?

       – Pois não. Fique à vontade.

       – Que bela medalha está usando!

       E dona Mastrúzia:

       – Obrigada. Ela contém uma mecha de cabelos do meu pobre marido…

       – Oh, compreendo! E quando foi que ele morreu?

       – Ele não morreu. Ficou careca!

 

O ouvinte bem velhinho  

       O rádio de antigamente era bem mais autêntico. Primava pelos eventos históricos e o respeito pelo ouvinte era ponto fundamental. As grandes datas não passavam em branco. O Dia do Ancião, por exemplo…

       Certa ocasião, quando o saudoso Edécio Lopes era diretor de programação da Rádio Gazeta, ele bolou um dia inteiro de homenagens ao velho, na data que lhe é dedicada. Numa das audições, o também saudoso Luiz Tojal foi à rua entrevistar velhinhos. Na Praça dos Martírios, encontrou o primeiro avaliado na faixa etária dos noventa pra cem anos.

        De microfone em punho, Tojal aproximou-se do macróbio:

        – A que o senhor atribui a sua longevidade?

        E o velhusco:

        – Bom, meu menino, em primeiro lugar, ao fato de eu ter nascido em 1800…

 

Um passageiro muito chato

      Antigo locutor de rádio, discotecário, e, por último, taxista, o finado Arnaldo Oliveira cochilava no seu confortável automóvel, enquanto aguardava passageiro. Encontrava-se, então, estacionado na Praça D. Pedro II quando, de repente, foi despertado com a batida violenta da porta do veículo. Abriu os olhos e viu um cara sentado no banco do passageiro. Aí, reclamou:

      – Que susto você me deu, cara! Por acaso você não sabe fechar direito a porta de um carro, principalmente um carro novo como este?

      O passageiro não respondeu nada e o Arnaldo arrancou com o carro. Logo adiante, perguntou:

       – Pra onde você quer ir?

       E o sujeito, muito chato, cheio de ironia:

       – Ora, se não sei fechar uma porta, como é que eu posso saber pra onde vou? Vai indo aí…

       Arnaldo foi indo. Parou na ponte do Salgadinho, pegou o sujeito pelo fundilho e o jogou dentro do riacho.