Ailton Villanova

23 de março de 2017

Mas que cabelinho, hein?

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      Finalmente, o Rosauro Aruba Filho, o Arubinha, conseguiu realizar o grande sonho de sua vida, que foi o de conhecer a eterna Roma com seus ricos, históricos e seculares monumentos.

      Depois de ter juntado grana suficiente para concretizá-lo, Arubinha comprou passagens de ida e volta. Outras despesas mais, seriam pagas em suaves prestações mensais. Pagou a primeira e se preparou para pegar o “asa dura”. Antes, porém, precisava cuidar da aparência e, uma de suas  providências nesse sentido, foi procurar o salão do baixinho João Bernardo, mais conhecido como João Barbeirinho, tremendo espírito de porco. Arubinha entrou lá na maior euforia:

      – Tô excitadão, meu irmão!

      E o Barbeirinho, cheio de menosprezo:

      – E por que essa frescura toda, posso saber?

      – Claro que pode! Vou à Itália!

      – Hummm… Itália, é? Com tanto lugar no mundo, você acha logo de ir pra Itália! Vai de quê?

      – De avião, claro! Vou pela Alitália!

      – Grande merda! Essa tal de Alitália é a pior companhia de aviação do mundo. Vai pra que cidade?

      Os olhos do Arubinha brilharam:

      – Roma!

      – Roma?! Pelamordedeus, cara! Roma, aquela cidadezinha cheia de velharias… E o hotel? Vai ficar em que hotel?

      – No Livorno!

      – Iiihhh… Tá lascado!

      – Lascado por quê?

      – Ora, todo  mundo tá cansado de saber que esse tal de Hotel Livorno é o maior cocô de louro! Vai ver o papa, naturalmente…

      – Mas é lógico! Ir à Roma e não ver o papa…

      – Programinha de índio. Milhões de pessoas se acotovelando só pra ver o papa e no fim das contas não conseguem vê-lo!

      Arubinha saiu do barbeiro injuriado. No dia seguinte, viajou. Curtiu a viagem na maior. Passou quinze dias em território italiano e, logo que voltou, fez questão de procurar o João Barbeirinho.

       – E aí, como foi na terra do papa?  – perguntou o baixinho, com ar irônico.

       E Arubinha:

       – Rapaz, você não sabe o que aconteceu! Eu estava lá na Praça do Vaticano, tentando ver o papa, no meio daquele mundão de gente…

       – Eu não falei?

       – … quando, de repente, ele surgiu na sacada do Palácio do Vaticano, acenou para a multidão e desceu. No que desceu, caminhou em minha direção…

      – Eu não acredito!

      – … e foi se aproximando cada vez mais. Quando chegou bem pertinho, falou no meu ouvido, só pra mim! Que emoção!

      – E o que foi que ele falou?

      Arubinha respirou fundo, estufou o peito e descontou:

      – Falou o seguinte: “Que cabelinho mal cortado, hein, meu filho?”

 

Apenas um pouco biritado!

      Manhã de uma segunda-feira, doutor Fernando Furtado voltava de um jantar de Ano Novo, na casa do Tony Vasconcelos (irmão do meu genro Edson), em Barra de Santo, acompanhado da esposa Gasparina. Ao passar pelo posto rodoviário, foi abordado por um guarda:  

      – Boa tarde, cidadão…

      – Boa tcharde! – respondeu ele, com voz pastosa.

       – A habilitação, por favor! – pediu o guarda.

       E o Furtado, cheio de onda, apontando para a mulher:

      – A minha ou a dela?

      – A sua, claro!

     – Esqueci, meu irmão! Posso mostrá-la na próxima vez que o senhor me parar?

     O PM manteve a calma. Olhou para a esposa do Furtado e indagou:

     – Seu marido é sempre engraçadinho assim, madame?

     E Gasparina, tentando remediar a situação:

     – Não, seu guarda. Geralmente ele é muito educado e respeitador…

     – Ah, bom…

     – … Mas ele fica assim, cheio de gracinhas, quando está embriagado!

     O casal teve de voltar pra casa de taxi, porque o automóvel do doutor Furtado foi recolhido ao depósito do Detran, e ele multado, por dirigir biritado. E ainda pagou barato, porque não foi recolhido à cadeia.

 

O sonho de cada bêbado

      Bons amigos, colegas de trabalho, Custódio Corvino, o Chicletes; Resínio Baunílio, vulgo Zino Babão e Euclípedes Betúcio, popularmente conhecido como Kid Matéria curtiam o final de semana, num barzinho escondido de Riacho Doce. Lá pelas tantas, os três, embriagadíssimos, eis que salta o Kid Matéria, encara Zino Babão e manda ver: 

       – Ô Baba, veja bem… Tu tá estiradão num caixão, mortinho, numa boa, e tua família e teus amigos, à sua volta, estão se lascando de chorar…

       – Vira essa boca pra lá, porra!

       – Peraí, mano! É só uma suposição, entende? Deixa eu terminar! Bom… tá todo mundo na maior choradeira, certo? O que é que tu gostaria de ouví-los dizer?

       Babão pensou um pouco e respondeu:

       – Eu gostaria que eles dissessem que eu fui um grande cara e um ótimo pai de família!

      – Falou!

      – Abriu-se uma brecha e aí entrou o Chicletes, no papo, sem pedir licença:

      – Pois eu gostaria que dissesse que eu fui um cabra macho, o rei de todas as mulheres gostosas do mundo! Todas!

      Kid Matéria, o puxador do papo, soltou um risinho maroto, cofiou o bigode, alisou a barriga adiposa e disse:

       – Eu gostaria de ouvir um negócio bacana, um pouco diferente…

       – O quê, por exemplo? – quis saber o Babão.

       – Bom, eu gostaria que dissessem: “Olha, ô Kid! Levanta daí que tu foi convocado pra seleção brasileira no lugar do Ronaldinho Gaucho, que tá mais morto do que tu!”