Ailton Villanova

14 de Março de 2017

Uma capa providencial

 Estupidamente gostosa, a louraça Vanicleusa, mulher daquele tal de Correínha, vinha tendo um caso amoroso com o guerreirão Lucindo Simões, primo do Leonardo Simões. Todos os dias, quando Correínha saía para trabalhar, Lucindo entrava na jogada, digo, na casa dele, e passava o dia todo numa boa, no maior sarro com a Vanicleusa.

       Certa tarde, aliás, tarde chuvosa e cheia de trovões e relâmpagos, Correía entendeu de voltar pra casa mais cedo. Na dita cuja, sua caríssima consorte e o Lucindo se amavam adoidado. De repente, madame deu uma parada no remelexo que administrava em cima dos lençóis e debaixo do amado, aguçou os ouvidos, arregalou os olhos e falou apreensiva para o sobredito:

         – Eita, Lu! É o Correínha! Tá ouvindo o barulho do carro dele entrando na garagem? O filho da puta chegou mais cedo!

         Lucindo olhou pela janela e respondeu:

        – Eu não posso sair pela janela, meu amor! Veja como chove!

        E a loura, apavorada:

        – Quer provocar um escândalo, quer? Pule a janela! Vá logo, que ele já está entrando…!

        – Tá bom. Eu vou pular!

        Então, o galã pegou a roupa e saltou na rua, pela janela – que ficava no primeiro andar da casa -, e só aí se deu conta de que estava no meio de uma corrida de pedestres. Era a corrida de São Pedro. Então, ele aproveitou a onda e disparou no meio dos atletas. Só que estava nu, carregando a roupa nas mãos. Um dos corredores reparou na presepada e perguntou:

         – Ô colega, você sempre corre nu?

         Lucindo respondeu, enquanto respirava, tentando disfarçar:

         – Ah, sim. A gente se sente mais livre recebendo o ar sobre toda a pele, enquanto está correndo. É científico!

         – E você sempre corre carregando a roupa?

        Lucindo respondeu sem pestanejar:

        – Claro! Assim eu posso vesti-la no fim da competição. Depois, pego o meu carro e me mando pra casa.

        Outro pedestrianista achou de entrar no papo:

        – Escuta, ô meu… Você sempre usa camisinha quando corre?

        O guerreirão foi rápido:

         – Só se estiver chovendo!

 

Poço ocupado!

      Além de autoritário e mandão, o cacique Ventania, da tribo Oiaeuaqui, era um sujeito comodista: só gostava de andar montado. Charrete era o seu transporte predileto.

       Um dia, tendo que se deslocar até a Capital, ele foi forçado a viajar de ônibus, acompanhado de um indiozinho, seu netinho. No meio da viagem, sentiu sede e falou pro garoto:

        – Cacique véio qué água!

        O indiozinho pegou uma caneca de barro no bisaco, foi até o toalete e voltou com o recipiente cheio.

         O cacique tomou tudo de uma só golada.

         – Cacique véio muita sede! Qué mais água!

         Novamente, o garoto foi ao banheiro do ônibus e logo voltou com outra caneca cheia. O chefe indígena bebeu tudo, sofregamente.

         – Cacique véio ainda cum sede!

         O pequeno silvícola desapareceu por mais alguns minutos, mas desta vez voltou com a caneca vazia.

          – Qué qui hai? A água cabô? – perguntou o cacique, irritado.

          O menino explicou:

          – Tem hôme branco sentado no poço!

 

A mesma, mas com outro nome!

      A bela Maria Rebeca arrumou um namorado muito educado. Por sinal, seu colega de faculdade. O prefalado, de nome Rogério Reynaldo, era sergipano, tinha pinta de galã e a cara de sonso. Certo dia, a garota o levou para conhecer a mãe, dona Bráulia, que morava num quilométrico sítio, localizado na periferia da capital.

       Encantada com a visita do rapaz, a velha quis mostrar ser boa anfitriã,  só para impressioná-lo, e o levou para um passeio a cavalo, juntamente com a filha.

        O trio cavalgava numa boa, quando, de repente, o animal montado por dona Bráulia assustou-se, deu uma empinada e jogou a velha no chão. Bráulia caiu de pernas abertas, deixando tudo à mostra, porque estava sem calcinha. Com incrível agilidade, ela deu um pinote e ficou em pé. Envergonhadíssima, e toda sem jeito, a filha quis consertar o estrago e perguntou ao namorado:

         – Você viu a pirueta da mamãe, meu amor?  

         E Rogério Reynaldo, bem sério:

         – Na minha terra a gente chama isso de xoxota!

 

O perfume irresistível

      No tempo em que era vivo, José Ariosto foi considerado o maior balconista de farmácia, aqui do pedaço. Em razão disso, vivia sendo disputado por tudo quanto era loja de remédios. Seu último emprego foi como gerente da farmácia do empresário Paulo Nascimento, situada na Jangadeiros Alagoanos, bairro da Pajuçara. Aqui vai um pequeno episódio da sua saga.

        Farmácia com pouco movimento, Zé Ariosto encontrava-se à vontade, escorado no balcão quando, de repente, entrou no recinto uma balzaquiana, que não lá era esses padrões de beleza. Falando a verdade, a sobredita deixava demais a desejar. Mas queria impressionar.

         O amigo leitor sabe que a grande maioria das mulheres feias é metida a besta. Essa do presente episódio não foge à regra. Pois bem, a balzaca entrou na farmácia pisando firme e foi logo mandando ver:

         – Quero um perfume bem provocante. Tem?

         Zé Ariosto não titubeou na resposta:

         – Ora, é claro que temos! É um pouco caro, mas a madame…

         – … senhorita, se me faz o favor!

         – … mas a senhorita – consertou Ariosto -, vai ver que nenhum homem conseguirá resistir. 

         – Quero ver! – rebateu a feiosa arrogante. – Se é tão provocante assim, vou experimentar um pouco agora mesmo!

         – Se eu fosse a senhorita, não faria isso. – dramatizou o balconista.

         – Ué, e por que não?

         – É muito perigoso. A última moça que experimentou, deixou os homens aqui presentes muito excitados. Tanto que pegaram ela e fizeram amor ali mesmo, atrás das prateleiras. Maior loucura! Tive que chamar a polícia!

          A balzaca levou uma dúzia do perfume.