Ailton Villanova

10 de março de 2017

Eita leão danado!

eita leao danado 600x300 c - Eita leão danado!

São Paulo sempre foi esperança para os nordestinos. Em assim sendo, não poderia ser diferente para o atalaiense Veneziano Belo, cuja vida no seu torrão natal andava um bocado difícil. Desempregado, barriga roncando de fome, ele pegou carona num caminhão e se mandou para São Paulo. Gastou seis dias e seis noites nessa viagem, porque o autocarga andou parando para pegar fretes em mais de cem cidades por aí afora. Finalmente, assentou o solado dos  pés na capital bandeirante. Perdido naquela selva de pedras, Veneziano aqui e ali, pedia emprego e nada de conseguir um. Mês e tanto, depois e caminhar léguas e léguas no asfalto sampaulino, estendendo a mão à caridade pública, ele esbarrou num enorme circo. Aí, não se fez de rogado: entrou lá, procurou o gerente e pediu emprego “de qualquer coisa”.

      – Só tem vaga pra leão! – explicou o gerente.

      – Infelizmente, eu sou gente, não é, meu patrão? – lamentou o infeliz.

      – Mas o gerente esclareceu:

      – O leão que estou precisando pode ser você mesmo!

      – Como, meu patrão?

      – É o seguinte… você veste a pele do animal e entra na jaula, onde o domador já estará lá, esperando, com um chicote na mão…

      – Vôte! Dá pra mim não, meu patrão!

      – Escute, rapaz. As chicotadas não vão doer em você, porque a pele do leão vai lhe proteger. Só tem uma coisa…

      – Uquié?

      – Você terá que convencer no berro. Tem que abrir o bocão e berrar forte, que nem um leão de verdade.

         Veneziano aceitou o emprego, porque a fome estava mesmo braba.

          Minutinhos antes do início do espetáculo, ele se meteu na pele do animal e entrou no corredor que levava até a jaula. Esta, já se encontrava instalada no centro do picadeiro. Lá no fundo, ele viu outro exemplar leonino, trepado numa espécie de barrica existente num canto da jaula. Gelou. As pernas começaram a tremer. “Ai, Jesus Cristo! E se aquele leão me estranhar?” – indagou para si próprio.

           Mas, já que estava lá, resolveu enfrentar o desafio e começou a dar tratos à bola sobre como se defender de um possível ataque do “colega”.

           – Já sei! Vou chegando lá dentro e já vou dando o meu berro! Mas tenho que caprichar pra ele se assustar e começar a me respeitar.

           E pinoteou dentro da jaula disposto ao ataque. Assim que se sentiu firme no chão, partiu resoluto pra cima do outro e abriu o bocão:

           – Grrrraaaaaauuuurrrraaaahhhh!

           Quase cagou-se do esforço que fez para dar autenticidade ao grito do leão. Foi acabar de dar o berro, escutou lá de dentro do outro “rei das selvas” uma voz sumida, apelar:

            – Valei-me meu Padrinho Cícero!

 

Morte mais que natural

      Durante um bom tempo, o saudoso repórter Ednelson Feitosa respondeu pela editoria de polícia da Gazeta de Alagoas e adotou o ritual de, todo final de tarde, ligar para o Instituto Médico Legal, “para ver se havia alguma novidade”. Numa dessas ocasiões, atendeu o necropsista José Maria, também conhecido como Labafero (não me perguntem a origem do apelido):

       – IML, boa tarde! Aqui fala o Zé Maria…

       E o gordinho:

       – Zé, aqui é o Ednelson Feitosa… Tudo bem?

        – Tudo jóia, chefia…

        – Alguma novidade por aí?

        – Tudo tranquilo. Só um morto, por enquanto…

        – Morte violenta, ou morte natural?

        – Natural. O cara foi metralhado pela polícia!

        – Ô Zé, se o cara morreu metralhado,  essa morte não pode ser natural!

        E o Zé Maria, peremptório:

        – Claro que é! Não é natural que ele morresse depois de levar mais de trinta tiros?

 

Camisinha: a solução!  

      Uma das coisas mais duras na vida de um médico é ser acordado no meio da madrugada, quando ele está no melhor do sono, depois de um plantão duríssimo no hospital.

       Pois o nosso incrível doutor Latércio Villanova encontrava-se em casa, nas circunstâncias descritas, isto é, puxando o maior ronco depois de haver passado 24 horas, ininterruptas, trabalhando que nem burro de carga no Hospital da  Restauração, Recife, quando o telefone tocou, na cabeceira da cama:

         – Ôlô! – ele atendeu com a língua engrolada.

         Do outro lado do fio, falou uma mulher aflita:

         – Doutor, o meu filho engoliu toda a minha cartela de pílulas anticoncepcionais! O que é que eu faço?

         Ainda sonolento, respondeu Latércio:

         – O jeito é mandar o seu marido usar camisinha!

         E bateu o telefone.

Uma dieta muito especial

      O médico Aílton Rosalvo era um cabra que não tinha papas na língua. Com ele não tinha esse negócio de floreio ou subterfúgio para dizer a um paciente que ele estava e irremediavelmente perdido, isto é, praticamente morto. Mas, um dia, agiu diferente ao detectar nos exames do cidadão Anflípio Rosa que ele estava sofrendo de uma doença brabíssima.

      Rosalvo chamou Anflípio num canto e disse:

      – Olha, meu santo, você vai ter que ficar numa unidade especial de tratamento, onde seguirá uma dieta à base de pizza e panquecas!

      – Puxa, doutor, e eu vou ficar bom comendo somente panquecas e pizzas?

       – Não… mas são as únicas coisas que dão para passar por debaixo da porta!

 

Apenas pra casar, e daí?

      O pontagrossense Juvêncio Pinto era um velho de cabelo na venta. Abusado, tinha sempre uma resposta pronta na ponta da língua, para qualquer ocasião. Um dia, ele enviuvou de dona Enedina e não esperou muito tempo para declarar-se à jovem Clorilda, balconista de sua loja, no Mercado Público:

       – Aprecio bastante a sua pessoa e, como estou necessitando de uma nova mulher, queria saber se você gostaria de casar comigo…

       – Quero, quero, quero! – apressou-se a jovem, aos pinotes.

       Uma semana depois, seu Juvencio anunciava o noivado com Clorilda, cuja fama era a de não ser mais virgem.

       Ao receber a notícia, o velho amigo Antebaldo Morais procurou Juvencio para advertí-lo:

       – Olha, Juvé, tá todo mundo falando aí que essa moça com quem você vai casar, é furada!

         O velho respondeu, cheio de bronca:

         – Quero ela assim mesmo! É pra casar e não pra carregar água!