Ailton Villanova

8 de Março de 2017

Melhor que ser traído por uma cenoura!

  Enfiada numa calça jeans arrochadissima, a curvilínea morena, muito jovem, ainda, entrou timidamente na Delegacia de Defesa da Mulher. Parou diante da agente da recepção e disse:

      – Eu gostaria de falar com a delegada… Ela está?

      A policial respondeu que naquele momento a doutora Maria Aparecida Araújo, então titular da especializada, encontrava-se tratando de um assunto muito sério e perguntou se a morena desejaria avistar-se com a chefe de expediente.

      – Não, não! – a boazuda retrucou meio nervosa. – É assunto muito delicado e íntimo, entende? Prefiro falar com a delegada mesmo!

      Não demorou muito, a enfermeira Magdanilze foi recebida pela delegada Aparecida:

      – O que está acontecendo com você, meu anjo?

      Magdanilze deu uma girada de 380 graus, exibiu as suas formas e respondeu:

      – A senhora me desculpe, doutora, não me leve a mal e nem entenda como falta de respeito o que vou lhe perguntar…

      – Fique à vontade, minha filha.

      – Mmmm… Repare bem pra mim e me diga se sou uma mulher de se jogar fora…

      E a delegada, muito séria:

      – Olha, não sou perita em certos tipos de avaliações, mas eu diria que você é aquilo que os homens costumam chamar de “boazuda” e “gostosa”.

      – Homens, vírgula, delegada! Meu marido nem está aí, pra mim… pode?

      – Não acredito! Quer dizer que ele não é chegado…?

      – À mim, não. No começo, tudo eram flores. Ultimamente, ele não tem me procurado, entende?

      – Pelamor…! Será que ele está… como direi…?

      – Broxa? Tá não. O negócio é que o Bráulio virou a cabeça pra outra mulher. Há seis meses ele não faz sexo comigo e eu não aguento mais! Estou necessitadíssima; estou que nem lagartixa…

      – … subindo pelas paredes!

      – Isso, doutora! Em casa, meu marido não dorme mais de pijama. Só dorme de calça jeans e, ainda por cima, virado para o canto da parede!

      – É, desse jeito tá na cara que ele não quer nada mesmo com você!

      – É, doutora. Não quer. Pior é que não tenho jeito de botar chifres nele.

      – Muito decente de sua parte! Parabéns!

      – Muito obrigada. Ontem à noite pedi mais uma vez pra fazer amor e ele me rejeitou! Então, sabe o que eu fiz? Peguei uma cenoura, vesti nela uma camisinha e encarei firme!

      – Mas por quê uma cenoura encamisada, mulher?

      – Desespero, doutora! A senhora não sabe o que uma mulher é capaz de fazer quando está desesperada.

      – Claro que eu sei!

      – Então, eu peguei a cenoura, abri as pernas e a introduzi na… perereca. Em seguida, falei: “Acorde, Bráulio, e me veja cometendo adultério!”

      – E ele?

      – Acordou e soltou a maior gargalhada na minha cara, quando reparou na presepada. Fique arrasada, doutora! Hoje cedo, assim que me levantei, resolvi vir aqui pedir a sua ajuda. Só a senhora pode me ajudar!

      A delegada Maria Aparecida ficou comovida com o drama da enfermeira. Quando ela saiu do seu gabinete, mandou chamar o marido e lhe fez veemente apelo. Foi no nervo. O cara saiu da delegacia prometendo voltar a cumprir com suas obrigações maritais.

      Uma semana depois, a enfermeira voltou ao gabinete da delegada, com nova queixa:

      – Gostaria que a senhora mandasse chamar novamente o Bráulio. Ele agora não quer parar de fazer sexo. Assim eu não aguento, doutora! Estou de um jeito que não posso nem fazer xixi!

 

Também pudera!

      Acompanhando o pai Joaquim, o português Francisco José de Carvalho Vaz desembarcou em Maceió nos idos de setembro de 1941. Em seguida, vieram a mãe, dona Cabrália e duas irmãs Dionísia e Geralda. Quando seu Joaquim morreu, no ano de 1967, Francisco José assumiu a liderança da família, mas não teve competência suficiente para administrar uma padaria e dois açougues, deixados pelo velho. A quebradeira foi geral. Sorte é que suas irmãs já estavam bem casadas e a mãe havia guardado um dinheirinho no finado Banco de Londres, que ficava na esquina da rua 2 de dezembro com a Praça da Catedral.

      Incompetente todo, Francisco José saiu pulando de emprego em emprego, até que entendeu de dar uma de motorista de ônibus. Procurou uma das mais famosas empresas do ramo e apresentou-se ao gerente:

       – O gajo está a precisaire de motorista?

       – O senhor tem experiência? – o gerente respondeu com outra pergunta.

       – Tãinho!

       – Então, pegue aquele ônibus ali e vamos ver se o senhor é bom mesmo na direção.

       – É num instante.

       O português montou no coletivo, ajeitou-se diante do volante e o gerente, do lado de fora, só esperando pelo resultado. Cinco, dez, quinze minutos depois e o coletivo continuava no mesmo lugar. Aí, o gerente perdeu a paciência e gritou pro lusitano:

        – Como é que é? Sai ou não sai?

        E o português:

        – Estou a esperaire o cobradoire!

        O gerente, então, esclareceu:

        – Esse ônibus é de um funcionário só. O motorista também cobra a passagem. Pode ir em frente!

        – Tá bãin!

        Francisco pisou fundo no acelerador e o ônibus saiu disparado da garagem. Meia hora depois, mais ou menos, o gerente recebeu a notícia de que ocorrera um acidente com um dos ônibus da empresa. Pegou o carro de socorro e se mandou pro local. Chegou lá, a primeira cara que viu foi a do português junto aos destroços do coletivo.

         – O que houve? – indagou, puto da vida.

         Francisco José encolheu os ombros:

         – Como posso sabeire? Na hora do acidente eu estava lá atrás, a cobraire as passagens!