Ailton Villanova

4 de Março de 2017

Coisa de louco

      Por estas bandas, existiu um psiquiatra chamado Arinaldo Lúcio, que, vez ou outra, não se limitava apenas ao exercício de sua especialidade médica. Quando cismava da parada, ele costumava dar uma de motorista de ônibus, quando não estava exercitando o seu lado excêntrico de vendedor de chapéus de palha no mercado público. Uma das suas últimas proezas foi a seguinte: trabalhar como coveiro, embora não fosse chegado a um defunto.

       A época em que se ligava somente no barato psiquiátrico, doutor Arinaldo ganhou a oportunidade de chefiar uma unidade de enfermos mentais mantida pelo governo. Revolucionou. Ou melhor, complicou o sistema, inventando métodos escalafobéticos de medidas terapêuticas, utilizando, por exemplo, o hitleriano modelo do choque elétrico como terapia auxiliar no tratamento de doenças mentais. Nos seus raros momentos de lucidez, permitia que os pacientes recebessem tratamento humano. Num desses lapsos, que coincidiu com a época natalina, ele resolveu testar alguns pacientes para ver quais poderiam passar as festas de fim de ano em casa. Chamou seus auxiliares e determinou que eles enfileirassem a turma no pátio do hospital. Isto feito, dirigiu-se ao primeiro interno:

       – Samuel, se você acertar na resposta da pergunta que vou lhe fazer, vai passar o Natal em casa, certo?

       – Certo, doutor!

       – Então, vamos lá… O que é uma coisa de couro que se usa nos pés, para caminhar?

       O louco pensou, pensou e perguntou:

       – Tem cadarço?

       – Tem.

       – Então, é sapato!

       – Muito bem. Acertou!

       O louco saiu e cochichou no ouvido do mais próximo:

       – O teste é fácil! Ele vai te fazer uma pergunta e tu pedes pra ele explicar se tem cadarço…   Se ele disser que tem, aí tu respondes que é sapato, entendeste?

       – Entendi.

       Doutor Arinaldo chamou o seguinte paciente e lascou lá:

       – O que é uma coisa de metal, com quatro rodas e um motor que a gente usa para andar?

       O paciente botou a cuca pra pensar e, ao cabo de uns três minutos, perguntou ao doutor:

       – Tem cadarço?

       – Tem não! – respondeu o psiquiatra.

       – Então, é chinelo!

 

Degenerescência a três

      Na alcovitice de um quarto de motel, Rosibauro pilotava a Maria Eucálida na maior competência. De repente, começou a ratear: “Cof… Arf… Cof…” Mas continuou insistindo. Até que, não aguentando mais, capotou, roncando e babando que nem touro velho.

      – O que é que você tem, meu amor? – apavorou-se Eucálida, a fogosa criatura com quem Rosibauro transava havia mais de meia hora, segundo ela própria avaliou.

     A verdade é que Rosibauro estava tendo um infarto violento. Enquanto Eucálida tentava reanimá-lo, ele revirava os olhos e apelava:

    – Eu… es… estou mor… morrendo! Me le… Me le…ve pro hospi… hospital…

    O socorro pro Rosibauro veio rápido e num tempo considerado recorde, ele estava sendo atendido na unidade coronariana de um grande hospital da cidade. Ao seu lado, Maria Eucália chorava que nem bezerro desmamado quando, subitamente, entrou na parada a “matriz”, isto é, a esposa do cara, dona Carótida. Ela fuzilou a amante do marido com os olhos e completou:

     – Matou o meu marido, não foi, sua criminosa?

     – Ele ainda não morreu não, sua burra! – rebateu a outra.

     – Mas vai morrer e a culpada será você!

     – Pelo menos morrerá feliz!

     Nesse ponto da discussão, o médico interferiu:

     – Silêncio! Isto aqui é um hospital! Bate-boca aqui dentro, não! Se quiserem discutir, vão discutir lá fora!

     Eucália defendeu-se:

     – Eu só estava dizendo a essa idiota que se o Rosinho morrer, ele morrerá feliz. A gente estava fazendo um amor legal, doutor, quando ele infartou…

     E Carótida, a esposa: 

     – Amor? Rá, rá…! Chama safadeza de amor, é?

     Eucália retrucoiu, firme:

     – Você diz isso porque não sabe o que é uma “tesoura”, um “aviãozinho”, um “alicate”, uma “chinesa voadora”, uma “chuca-chuca”…

     – Calem a boca! – ordenou o médico, já com água na boca.

     – Isso tudo?! Ah, meu Deus! – gemeu a esposa, sem importar-se com a bronca do médico. – Comigo, o canalha era só na base do “papai e mamãe”, ou no “feijão com arroz”!

     – Ah, minha filha, você não sabe o que está perdendo! Quem manda ser babaca? – alfinetou a amante.

     – Eu nunca aprendi fazer essas coisas imorais…

     – Quem não sabe aprende, sua incompetente!

     Mês e tanto depois, completamente refeito, Rosibauro e as duas mulheres inauguravam um relacionamento novo, a três, cuja palavra de ordem era a “carga toda”, ou “sexo sem limite”, ideia da própria dona Carótida, a esposa do safado.

 

O polêmico pau do Zizi!

      Não se pode dizer que o Alclindozir Cardoso, o Zizi, era mau sujeito. Meio displicente, no máximo. Um dia, ele bateu as botas e não teve, antes, a consideração de comunicar à dona Matilde Magnólia, sua caríssima esposa, e nem à amante que possuía, muito na moita, e que se chamava Floripes, tremenda mulheraça.

      Providenciamentos tomados para o sepultamento do infortunado, eis que ele se achava estirado no caixão fúnebre, em meio a um magote de gente no maior assoado de venta, quando, inopinadamente, embocou no velório a tal de Floripes, amante do finado, descabelando-se toda:

      – Buááá… Ai meu Zizi! Snif… snif! O que será de mim sem você, Zizi?

      E partiu firme pra cima do caixão. Feito isso, não teve a menor cerimônia: meteu a mão por dentro da braguilha do inditoso e segurou firme no pênis dele! Aquele escândalo!

      Dona Matilde, a viúva, quase teve um desmaio e a plateia não conseguiu segurar os “Oooohhhsss” de indignação.

      Cercada de familiares e afins, a viúva implorava:

       – Quem é essa mulher? Tirem essa doida daqui!

       Resoluta, Floripes continuava segurando o pênis do morto. Pelos cantos dos olhos do infeliz rolavam grossas lágrimas, ninguém soube dizer se de dor, ou de prazer…

       – Daqui não saio! – repetia a aloucada amante.

       Alguém sugeriu:

       – Chamem a polícia!

       – Não! A polícia, não! – reagiu a viúva.

       Tentaram retirar Floripes à força. Não deu. No primeiro arranque, o caixão ameaçou vir junto, com defunto e tudo. A morena não largava a “peça” do “de cujus”!

        – Esse pau maravilhoso é meu! – bradava. – Eu quero ele, já que não posso ter mais o meu Zizi!

        Meia hora se passou e a peleja continuava. Não havia como fazer a teimosa Floripes desistir do seu intento. A bronca engrossou quando a sogra do Zizi resolveu intervir:

        – Deixem essa infeliz levar essa porcaria de vez, minha gente! Não serve pra nada mesmo… Cortem o pau dele!

        – Nãããooo senhora! O pau vai com ele! – sentenciou a viúva.

        – O pau fica comigo! – contra-atacou a amante.

        A velhota pôs de pé, e ordenou cheia de autoridade:

        – Cortem esse pau! Agora quem vai ficar com ele, sou eeeuuu, e pronto!

        Prevaleceu a vontade da velhusca.