Ailton Villanova

3 de março de 2017

O jeito foi morrer!

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O Alderóido Botelho passou 35 anos (vejam bem: 35 anos) de sua vida ligadão na morenaça Maria Hepatina. Amor roxo. A paixão começou quando ele e a viu pela primeira vez, no grupo escolar. Hepatina era a garota mais bonita de todas. Falava pelos olhos, ria com os olhos. De modo que é perfeitamente compreensível que o garoto tenha se apaixonado perdidamente por ela.

      Problema era que a menina jamais lhe deu a menor bola. Negócio terrível esse de amar sem ser amado.

      Anos e anos se passaram e Alderóido com o pensamento só na Hepatina. O tempo se encarregou de mantê-los distante durante um tempão. A moça se casou, teve um casal de filhos e o apaixonado Alderóido firme na sua solteirice. “Outra mulher não entra na minha vida. É Hepatina ou nenhuma!” , radicalizava.

       Mas o destino sabe armar as suas jogadas.

      Completados 35 anos de paixão por Hepatina, o Alderóido continuava mantendo a velha forma de atleta e o pensamento firme na mulher amada. Falei no destino, não falei? Pois eis que numa bela tarde primaveril o sonhador trombou, por acaso, com Hepatina em pleno centro da cidade. Ela continuava linda, corpo firme, os olhos mais tentadores ainda. Alderóido sentiu aquele baque no coração. As pernas bambearam, mas ele conseguiu segurar-se em cima do solado dos pés.

        – Acho que conheço você! – era ela, falando pelos olhos. – Você não é aquele rapaz, o… Alderóido?

        Da boca do cara saíram sons feito grunhidos:

        – Mmmmmpf… Sss… s-sou!

        Aquilo só podia ser milagre!

          – Eu desconfiei que era você! – ela continuou. – Puxa! Como você está bonito! O que tem feito na vida?

          E ele, nervoso:

          – Sou engenheiro! Tenho uma construtora… E você?

          – Estou viúva!

          A princípio difícil pro Alderóido, a conversa prosseguiu truncada até o terceiro uísque. É isso. Os dois já se achavam jantando num restaurante do centro. Alderóido se desmanchava de felicidade e sua língua já dançava solta na boca:

           – Olha, Hepatina… posso lhe chamar de Tininha?

           – Pode.

           – Olhe, Tininha eu sempre tive a esperança de, um dia, você vir a ser  minha. Pode me achar pretensioso, mas vivi dessa esperança até o presente momento. Sem você é melhor morrer!

           – Ai, Alderóido, desse jeito você me deixa encabulada. Para com isso, vai!

          – Palavra!

          O cara estava louco de felicidade. A mulher dos seus sonhos estava bem ali, na sua frente, inteirinha, gostosa, dando a maior sopa. Deus é ótimo!

          Horas depois, os dois estavam instalados num motel.Hepatina nua, a pela morena, sedosa, cheirosa, aguardando ser possuída. E Alderóido, agoniado, andando no quarto de um lado para o outro.

          – Vem, meu querido. Deita aqui, chega. – ela pediu toda lânguida, bem melíflua.

          – Peraí, meu amor! Estou me concentrando!

          – Você se concentra aqui do meu lado. Vem!

          Duas horas depois nada acontecia. O instrumento do prazer sexual do cara não funcionava de jeito nenhum. Murchão, cabisbaixo. Aí, Alderóido entrou em pânico. Esperar 35 anos para ter a mulher dos seus sonhos e pifar na “hora agá”, era demais! Melhor morrer!

            Alderóido foi até o carro que se achava estacionado na garagem do apartamento que ocupavam no motel, retirou de lá um revólver carregado de balas e disparou um tiro na cabeça.

 

Comeu gato por lebre

      Sargento Agapito era um mulato dos seus dois metros e tanto de altura, bigode de sopa e barriga adiposa. Acumulava o posto militar com o cargo civil de delegado de polícia de Dois Riachos, cidade simpática encravada no sertão alagoano. Era chegado a uma boemia e também não desprezava um rabinho de saia. Bebia cachaça pra ninguém botar defeito. Seu tira-gosto predileto era coelho guisado, temperado com pimentão, coentro e cebola. Tinha como braço direito o cabo Virgulino, biriteiro inveterado e irresponsável até dizer basta.

         Determinada manhã, cabo Virgulino embocou na delegacia e deu de cara com o superior hierárquico mais branco do que cera de vela:

         – Quê qui hai, meu chefe? Tá passando mal? – indagou espantado.

         – Tô ressacado, Virgo! Veja se me arruma por aí um salzinho de frutas…

         – Sal de frutas, sargento?! Eita remedinho ruim da gota!

         – Que jeito? Pra ressaca só sal de fruta.

         – O senhor não quer que eu bote um tiquinho de açucar?

         – Açúcar, Virgo?! Teu juízo derreteu, foi? Quem já viu sal de fruta com açúcar, rapaz?

         – É pra melhorar o gosto, sargento. Além do mais, vai dar a impressão que é champanhe. O que é que o senhor acha?

         – Se é assim, vê se me arruma também umas bolachas. Sal de fruta com açúcar e sem bolacha, não dá!

         E o cabo, cheio de bajulação:

         – Tenho tira-gosto melhor, meu patrão.

         – O que é?

         – Coelhinho guisado!

         A boca do Agapito encheu-se de água:

         – Num tem melhor. Traz o coelho guisado. – ordenou.

         – É pra já, meu chefe!

         Não demorou meia hora, cabo Virgulino estava de volta ao gabinete do delegado, carregando um prato em cada mão. Num deles, cheirando a delícia, o tal do coelho. No outro, arroz encafifado. Depositou tudo sobre a mês e disse:

           – Agora, vou preparar o champanhe…

           – Champanhe, Virgo?!

           – Tá lembrado, não, do sal de fruta com açúcar?

           – Ah, bom!

           Sargento Agapito rangou o tal coelho num abrir e fechar de olhos. Acabou, bebeu a mistura sobejamente aqui referida, soltou três arrotos aloprados e preparou-se para escarafunchar os dentes com um palito de fósforos. Nesse momento, embocou no ambiente o barbeiro Orozimbo Pereira, bastante agitado:

             – Roubaram o meu gato de estimação, sargento!

             – E quem foi o fidapeste?

             – Conheço não! Só sei que foi um cabra baixinho, amarelinho, do bigode de rato. O coitadinho do gato estava trepado na janela, o cabra veio e passou-lhe a mão… snif…

              O sargento consolou o barbeiro:

              – Chore não. Pode ir sossegado que eu vou prender esse condenado!   

              O barbeiro deixou o gabinete da autoridade policial com a cara mais aliviada. Mas, dai a um minto voltou correndo à presença do sargento, com os olhos quase saltando das órbitas:

              – O ladrão está bem aqui, na porta da delegacia, sargento!

              Agapito pinoteou na calçada de revólver em punho:

              – Cadê o bandido?

              E o barbeiro:

              – Olha ele aí, bem na sua cara! O ladrão é esse!

              Nesse mesmo dia Virgulino perdeu a farda, e ainda foi preso. Fazer o superior hierárquico comer gato por lebre, é transgressão gravíssima.