Ailton Villanova

2 de Março de 2017

Sonhos e ilusões de dois mendigos

 Estavam lá, os dois mendigos, costas apoiadas no mármore da fachada do shopping. De repente, um deles, o intitulado Milton, levantou o queixo e avisou:

      – Aí vem a burguesa! A vez é tua, Antiógenes.

      A mulher foi passando pela dupla pisando firme, afundando o chão, na maior empáfia. Antiógenes estendeu a mão e implorou:

       – Uma esmolinha, doutora…

       Ela nem aí. Milton revoltou-se:

       – Burguesa filha da puta! Um dia essa pompa toda vai acabar!

       Concordou Antiógenes:

       – Ela não perde por esperar. Dona do mundo, hein? Xavê depois.

       – É isso aí!

       – Essa tá marcada!

       – Quando chegar o dia, hein, parêia…?

       – Nem te conto. Mando ver.

       – Olha só o passinho da petulante.

       – Tô manjando na sacana. Quando o dia dela chegar, num instante vai ficar humildezinha, vai ou não vai?

       – Ora se… Se ela sobrar pra mim, já viu… trepo nela.

       – Falou, meu irmão. Trepa mesmo. Rá!

       – Vamos ser reis, mano. Chego lá e mando: “Ajoelha aí, vaca!”

       – Eita diabo! Eu só quero ver.

       – A burguesa vai falar fininho: “Olhe, meu anjo, eu sempre votei no Lula”.

       – E tu, meu compadre, vai responder o quê?

       – Ora, o óbvio: “Te manca, burguesa!”

       – Pô, cara, o beicinho dela vai tremer.

       – Só o beicinho? Ela vai tremer toda!

       – Tu é demais, cara!

       – O dia tá chegando. Quando chegar, pego essa dona, arrumo-lhe um beijo na boca…

       – Na boca?

       – Na boca, no peito, na bunda…

       – Porra! Tu é tarado pela burguesa, né?

       – … Beijo os pés dela, beijo o pescoço… Vou fazer dessa pilantra minha rapariga!

       – Ela humilhou a gente, bicho! Tu já esqueceu?

       – Por isso mesmo! Eu quero dar o troco. Depois, ela vai ter que lamber  a minha bunda, o meu saco, os meus pés…

       – Mas com essa catinga toda?!   

       – O dia tá chegando, meu chapa!

       – Quando é que é mesmo?

       – Domingo, três de outubro.

       – Rá, rá! Lula presidente e tu na maior!

       – Espera só o Lulão mandando ver lá de cima, de Brasília, e eu aqui em baixo, segurando maneiro… Rá, rá!

       Vieram as eleições, Lula ganhou pra presidente, mais tarde foi reeleito, e a burguesia continuou tripudiando sobre os miseráveis.

 

Um caso irreprimivelmente patológico!

      Praseodélio Venesiano Neto, o Netinho, se deu conta que só lhe atraiam mulheres mais velhas quando completou 14 anos de idade. Apaixonara-se, então, por uma balzaquiana de 47, por sinal sua professora de Geografia. Primeira coisa que fez, foi pegar a distinta e levá-la pra conhecer seus pais, o que causou um grande constrangimento para os velhos.

       Durante a visita, quase ninguém falou. Quando a coroa foi embora, dona Artrísia, a mãe de Netinho, quís tirar a dúvida:

       – Diga que você está brincando, meu filho.

       E ele, muito convicto:

       – De maneira alguma, maínha. Eu estou apaixonado pela Nirinha (o nome dela era Niribalda)!

       – Você não está vendo que esse relacionamento não vai dar certo, meu filho? Ela é muuuiiito mais velha que você! – ponderou a mãe.

       – Tem problema não, mãe. A Nirinha tem espírito jovem! Inclusive, ela é virgem!

       E o pai, Praseodélio Júnior, entrando na conversa:

       – Acho bom você começar a aprender jogar futebol. Dá mais futuro! Ainda há tempo!

       Passou-se o tempo. Ao completar 18 anos, Praseodélio Neto levou Nirinha ao altar. Na noite de núpcias, ela veio a falecer, dizem que de emoção, para alegria dos pais do noivo. Aí, Netinho entrou na mais profunda das depressões. Os pais ficaram preocupados:

        – Temos que arrumar, urgentemente, uma namorada pro nosso filho! – sugeriu a mãe.

       E o pai:

       – Dessa vez tem que ser uma moça mais nova que ele. Só assim ele supera esse trauma!

       Três meses depois o rapaz continuava deprimido. Várias foram as , candidatas que se apresentaram para substituir Nirinha no seu coração. Nenhuma delas – cada uma mais gostosa e boasuda que a outra -, interessou ao garotão.

        Mas, um dia…

        Visitando um amigo, Netinho conheceu a mãe deste. A velha descambava dos 70. O coração do Netinho disparou. Interessou-se mais ainda pela senhora quando soube que ela era viúva.

         Não deu uma semana, estava casado com ela, para desespero do pai e da mãe.

         – O meu filho não tem jeito! – gemeu dona Artrísia.

         – Onde foi que nós erramos, mulher? – abateu-se o pai, seu Júnior.

         A segunda mulher de Netinho também era cardíaca e ele ficou viúvo novamente. Mas por pouco tempo porque o destino encarregou-se de arrumar-lhe uma terceira mulher. Justamente no dia em que fora visitar os túmulos das finadas esposas, conheceu uma anciã de 87 anos. Depois de uma noitada num motel, os dois foram morar juntos. Essa amigação, entretanto, durou pouquíssimo tempo, porque Netinho preferiu se render aos encantos de dona Bráulia, uma macróbia de 99 primaverinhas…