Ailton Villanova

26 de Fevereiro de 2017

O defunto vivo

       Melhor teria lhe assentado o apelido de “Morto-Vivo”. Entretanto, a galera preferiu cognominá-lo de “Defunto”. E, Defunto, o Erisbaldo ficou sendo chamado até hoje.

       A história do Erisbaldo Nemésio é inusitada.

       Numa manhã quentíssima de muito sol, ele passou mal em pleno centro da cidade e caiu estatelado no asfalto. Populares o pegaram e o levaram para o HPS. Ele já chegou lá com a cor da epiderme alterada pro roxo. Um dos médicos de plantão nem quis perder tempo:

        – Infarto agudo do miocárdio! Tá morto! Levem-no pro necrotério!

        Cobriram Erisbaldo com um lençol e o despacharam  para o depósito dos mortos do nosocômio. Lá, o patologista emitiria a respectiva declaração de óbito.

         Daí a pouco, Erisbaldo acordou. Quer dizer, acordou e não acordou, porque não abriu os olhos. Digamos que ele entrou em estado cataléptico. É. É isso. Aí, sentiu que estava debaixo de um cobertor. Tentou mexer-se, mão conseguiu. “Porra! Quê que aconteceu comigo?!” De repente ouviu o som de um porta se abrindo e vozes ingressando no recinto. Eram vozes de um homem e de uma mulher. Um deles retirou-lhe o lençol e um ventinho frio arejou o seu corpo. Erisbaldo tentou falar novamente de sua boca não saiu som nenhum. Seus olhos não abriram por mais esforço ele fizesse. Nesse momento , ouviu a voz masculina dizer em tom de gozação:  

          – Esse se fodeu cedo!

          – Vai precisar manda-lo pro IML? – indagou a voz feminina.

          – Tá na cara que ele morreu do coração. Morte clínica. Daqui, ele irá direto pro velório! – respondeu a mesma voz masculina.

          “Velório? Ôxi! E eu morri?!” – era o Erisbaldo falando pra dentro dele próprio.

          Novamente o “morto” escutou a voz masculina dizer:

          – Vem aqui perto, meu amor… Chega mais!

            E a voz feminina, cheia de dengo:

          – Que é isso, doutor? Vai que alguém abre essa porta e nos flagra…

          – Passei a chave por dentro. Vem!

          – E o morto aí? Respeite o morto, doutor!

          – Rá! O morto? – doutor desdenhou.- Esse daí não ouve, não fala e nem vê porra nenhuma!

          “Tô vivo, pô!” – Eribaldo já estava pra lá de desesperado.

             Até que, não resistindo ao assédio do médico, a enfermeira entregou-se a ele. Daí a instantes os dois estavam na maior sacanagem, dentro do necrotério.

             – Mmmmmpf… Ai, ai, ai… Aaaahhh, doutor… – era e enfermeira, excitadíssima.

             – “Doutor”, não! Me chame Betinho. – respondeu o safado do médico.

             – Betinho? 

             – Sim, Betinho.

             Mais gemidos. Agoniado, Erisbaldo fazia um esforço tremendo para gritar. “Se eu pudesse mexer pelo menos um dedo…!” Mas não mexia nada. “Olhem pra mim, seus safados!”.

              Pouco tempo depois médico e enfermeira estavam peladões.

              – Oooohhh… Ai, Betinho… Como você é gostosão…!

              – Sou? Você ainda não viu nada! Espere só pra ver o resto.

              De repente, a mulher parou de gemer, arregalou o olhão, apontou para o Erisbaldo e falou:

              – Betinho! Repare pro cadáver!

              O doutor reparou:

              – Mas que defunto safado! Ele está de pau duro!

              Nesse momento, Erisbaldo abriu os olhos e respondeu:

              – E não era para estar? Como era que você queria que eu reagisse testemunhando uma sacanagem dessa? Nem tô morto e nem sou de ferro!

              Quando, momentos mais tarde, familiares e amigos do “finado” chegaram ao hospital com o caixão, Erisbaldo os aguardava tomando cafezinho, na sala do médico.

 

Valeu o sacrifício

      Filho único, bastante mimado, o Valduir transformou-se no rei da chatice. Cheio de direitos. Quando seus pais – Valdemar e Lenir – quiseram coloca-lo nos eixos, era tarde demais!

       Toda vez que ele queria impor sua vontade aos pais, fincava o pé que nem jumento, ou rolava no chão que nem rodeira de charrete. E os genitores, coitados, baixavam a canga para ele montar.

        Uma noite, ele encarou a mãe:

        – Quero um trombone!

        Lenir pulou da cadeira, espantada:

        – Trombone?! Pra que diabo você quer um trombone?

        – Pra tocar, ora.

       – Você não sabe tocar trombone!

       – Eu aprendo!  Eu quero um trombone!

        – Mas meu filho…

        – Olha que eu tenho um ataque!

        Aí, o pai entrou na parada:

        – Ô meu filho, não seria melhor um instrumentozinho mais leve e menos barulhento?

        – Não, pai. Eu já disse que quero um trombone. Se não me der, eu pulo do elevado do Cepa!

        A mãe desesperou-se:

       – Ai, minha Nossa Senhora das Graças! Tá certo. A gente compra um trombone pra você. Agora, vá dormir!

        – Vou não! Eu quero o trombone, agora!        

        – Mas a esta hora, meu filho?! Onde é que eu vou encontrar um trombone, me diga? O comércio está fechado! – exasperou-se o pai.

        – Ah, é assim? Peraí que eu vou me jogar na frente de um ônibus.

        E a mãe, agoniada:

        – Fique calmo, meu filho, que seu pai já vai comprar o seu trombone.

        Ninguém sabe dizer como se deu o milagre. Às onze e meia da noite Valdemar voltou pra casa todo feliz com o trombone do filho, embrulhado em papel de presente.

         A partir daí, não foi apenas na residência de Valdemar e Lenir que a paz acabou. Na vizinhança inteira, também. Valduir se dedicara intensivamente ao infeliz do trombone. De manhã, de tarde, de noite e de madrugada, ele não parava de soprar no instrumento. Valduir não saía do quarto nem para comer. Uma tarde, bateram à porta do aposento, ele abriu e entrou uma morena espetacular equilibrando uma bandeja na palma da mão.

          – O que é isso? Quem é você? – perguntou, perturbado, Valduir.       

          – Vamos por etapas, meu amor. – respondeu a morena – Isto aqui é o seu lanche. A partir de hoje serei sua empregada.

          Valduir ficou paradão, de boca aberta, reparando naquele mulherão. Tratava-se de Zildinha, conhecidíssima na zona boêmia como a mais insaciável das quengas.

           – Toma o lanche! – ela ordenou. – Depois que você tiver bem alimentado eu vou lhe ensinar coisa melhor do que tocar trombone.

           O resto da tarde, a noite inteira, o dia seguinte, a semana e os meses subsequentes foram de tranquilidade absoluta. Zildinha não deixava Valduir ter tempo pra nada. Todos os finais de semana os vizinhos se cotizavam para pagar o seu salário. Valia a pena o sacrifício.