Ailton Villanova

24 de Fevereiro de 2017

“Ela te mata, filho!”

      Filho único de um cinéfilo, o distinto Franco Sumatra praticamente foi criado, como se diz na gíria, “no rabo da saia da mãe”, dona Jucundina. Vivia sufocado. Na primeira oportunidade que teve, se livrou do jugo materno. Pegou a namorada Silicônia, a sua “Silinha”, deu um grau seguro nela e, depois, os dois bolaram uma fuga. No fim, tiveram que casar.

       Dona Jucundina, também chamada Dona Juju, foi ao desespero. Perder o filho adorado para uma fedelha desconhecida, era demais! De modo que ameaçou ir junto com o casal, quando o marido e mulher empreendiam a tradicional viagem de núpcias.

        – A senhora não está vendo que não dá, mainha? Lua-de-mel é só para dois! – ponderou o filho.

        E dona Juju, angustiada:

        – Mas você me telefona de hora em hora, não telefona?

        – Ah, mãe! Dá um tempo, tá legal? No final de semana eu lhe mando um telegrama, tá certo?

        Franco Sumatra sabia que se pegasse no telefone para ligar à mãe, teria um trabalhão para livrar-se dela.

         No sábado seguinte, eis que o rapaz recebeu uma ligação da mãe:

         – Ingrato! – berrou Juju do outro lado da linha. – Você não me telefonou, não foi? Me abandonou! A culpa é dessa lambisgoia da sua mulher! Largue ela e volte já pra casa, menino!

          Durante os seis primeiros meses de casório, a vida de Franco Sumatra e de sua mulher virou um inferno. Juju azucrinava adoidado. Até que o cara tomou a iniciativa de transferir-se para Aracaju, a fim de evitar um problema familiar sério. Ele gostava muito da mãe, apesar de tudo. Belo dia, muito eufórico, telefonou pra ela:

              – Olha, mainha, a Silinha vai ter trigêmeos!

              E ela, muito fria e indiferente: 

              – Vai, é?

              – É, mainha! Imagine a senhora que coisa fantástica: segundo o médico, doutor Fernando Bittencourt, só uma relação em cinco mil pode dar trigêmeos!

               Dona Jucundina arregalou os olhos, estarrecida:

               – O quêêê? Cem mil, meu filho?

               – Exato, maínha!

               Aí, Juncundina não se conteve:

               – Tá vendo? Eu bem que falei! Larga essa mulher e vem pra casa, menino! Ela vaI acabar lhe matando! Cem mil relações!!! Coitadinho…

 

Vazio enorme demais!

      Boêmio, seresteiro e dançarino dos mais elogiados, o contabilista Neodélio Marçal sempre se gabou de ser um tremendo garanhão. Por outro lado, informações a seu respeito davam conta de que ele era um superdotado. Um dia, Neodélio cansou de viver pulando de galho em galho e resolveu fixar-se apenas numa mulher: a viuvaça Silvânia Gusmão.

        Num final de tarde de um dezembro como este, Neodélio Marçal casou-se com Silvânia  e partiu com ela para curtir a lua-de-mel na praia de Boa Viagem.

         Foi um fiasco!

         Na manhã seguinte, Silvânia foi bastante sincera com o marido:

         – Sinto muito, Neodélio, mas você não correspondeu às minhas expectativas.

         E ele, também muito sincero:

           – Eu sei, minha querida. Quando jurei que iria preencher o vazio da sua vida, nunca pensei que ele fosse enorme demais!

 

A sogra morreu! Viva!

      Faltava uma semana para o dia do aniversário do Aspargildo Lindelfo, o Lindo, quando ele começou a sentir dores estranhas nas costas, que refletiam no peito e subiam pelo pescoço. Não suportando mais o incômodo, ele correu para o consultório do doutor Deltódio que, depois de sumetê-lo a um verdadeiro interrogatório, requisitou um monte de exames clínicos.

       E Aspargildo, preocupadíssimo:

       – O que é que o senhor acha que eu tenho, doutor?

       – Pode ser uma besteira, mas também pode ser um caso sério. Por isto, estou lhe recomendando que faça esses exames com urgência!

        – Será que é alguma espécie de câncer, doutor?

        O médico respondeu com outra indagação:

        – Há algum histórico de câncer na sua família?

        Angustiado, ele respondeu:

        – Iiihhh, doutor, só tem! Meu pai morreu de câncer, minha mãe, também. Há coisa de um ano, mais ou menos, um irmão meu também morreu dessa doença infeliz. Eu só posso estar com câncer, doutor!

         E danou-se a chorar! Coração mole, o médico começou a chorar, também.  Enxugadas as lágrimas de ambos, o doutor resolveu dar uma força pro cara:

         – Esqueça a doença, rapaz! Vá viver a sua vida! Mande brasa!

         Então, os dois combinaram o seguinte, depois que o Aspargildo Lindelfo submeteu-se à bateria de exames, requisitados pelo esculápio: o resultado dos mesmos – que coincidentemente sairia no começo da noite do aniversário do Lindo -, seria transmitido através do telefone, caso fosse confirmada a suspeita de câncer. Se negativo, o doutor não faria a ligação e o Lindo poderia comemorar o aniversário numa boa.

          A casa do aniversariante Aspargildo Lindelfo estava entupida de convidados para a sua festa de aniversário. Todos estavam sabendo do seu drama. A medida que se aproximava a hora da possível revelação do resultado dos exames, a ânsia de todos crescia. Lindo tremia nas bases.

          Dezenove horas, nada. Dezenove e meia, telefone mudo. Quinze para as oito,  nada do telefone tocar. Oito em ponto… o telefone disparou.

          Mergulhado numa angústia danada, Lindo saiu arrastando os pés até o telefone. Tremendo que nem vara verde, tirou o aparelho do gancho e articulou:

          – A…alô? (pausa) É… sim, senhor! (pausa) O quê?! Não, não… não pode ser!

          Silêncio tumular no ambiente. Todos de olhos pregados no Lindelfo. Inclusive, já tinha gente de lenço na mão, se preparando para fungar.

          Lindelfo repôs o telefone no gancho, encarou os convidados, arreganhou os beiços, deu um pulo pro alto e berrou eufórico:

           – Graças a Deus, pessoal! O telefonema não era aquele que eu estava esperando. Era da casa da minha sogra! Ela morreu! A minha sogra acabou de morrer de infarto! Hiiipeee!

           E a turma toda, menos a esposa do aniversariante:

           – Huuurrraaa!

           O mal do Aspargildo Lindelfo ele ficou sabendo logo depois do enterro da sogra. Era hérnia de disco.