Ailton Villanova

23 de Fevereiro de 2017

Um cara de meter medo!

      Dos ditos populares, existem dois deles, usados e vezados, que exprimem irrefutavelmente uma certeza: a de que, muitas vezes, o contraditório pode exprimir o exemplo de que o desagradável à vista, isto é, o feio, pode representar a qualidade do bem ou do bom.

       “Quem vê cara não vê coração”. “Por causa de uma cara feia, se perde um bom coração”. Estes expressos, fluem como palpáveis exemplos dos “ditos populares” que iniciam o exórdio, ou mais precisamente a cabeça do presente texto.

        O distinto Orlando Moreno da Silva é a prova viva disso tudo. Dono de um coração boníssimo, ele nasceu feio e paupérrimo, numa casa modesta, na parte alta de Bebedouro. Pacato e trabalhador, o seu único problema na vida, tirante a pobreza, é a cara destituída do menor traço de boniteza. Mudá-la para melhor, só através de uma cirurgia plástica. E olhe lá!

          – É o meu destino, seu Aílton! – lamentou certa vez, na sua extrema simplicidade.

          Excelente caráter, Orlando Moreno é um sujeito eclético, em termos de atividade profissional. Desempenha com a mesma perfeição e competência os ofícios de motorista, marceneiro, eletricista, soldador, pedreiro, jardineiro, etc. Ultimamente por causa de sua cara feia, andaram utilizando sua pessoa como cobrador de dívidas impossíveis. Era só ele espiar pro devedor e pronto! O infeliz liquidava a dívida na hora. Teve um deles que até mijar nas calças, mijou, de tanto medo.

             No último pleito eleitoral, determinado político, chegado a uns tirinhos, requisitou os seus préstimos para assustar adversários. Quase deu cana pro coitado.

             O tal político chegou a sua cidade fazendo-se acompanhar do Orlando, fato que causou um certo reboliço.

              – Corre, minha gente! Truxéro pra cá um lubisome em pessoa! – berrou um matuto, no meio da praça.

              Uma velhinha teve um ataque do coração quando olhou pro Orlando. Uma madame, que estava em adiantado estado de gravidez, pariu um filho prematuramente. Só do susto.

               Dia desses ele chegou pra mim e desabafou:

               – Ô seu Aílton, o senhor que é também autoridade, veja se arruma uma maneira de me deixarem em paz, no meu cantinho. Já tô ficando invocado!

               – O que foi que houve dessa vez, Orlando?

               – Agora, estão querendo me contratar pra matar gente na base do tiro! Se fosse de susto eu ainda topava!

 

O nome é Teresa!

     Seu Fritz foi um alemão naturalizado brasileiro que viveu no bairro privilegiado de Boa Viagem, litoral recifense. Um dia, sentiu-se mal e foi levado ao médico pela esposa, que era pernambucana. O médico era o famoso doutor Joás Carneiro, que o examinou com muito cuidado e, ao final, indagou:

        – O senhor se alimenta bem, seu Fritz?

        – Iá. No almoço, eu come um salsicha, uma chucrute, uma iogurte e toma um chopinha. Depois, eu terepa no Terraça. Aí, sinto tontura!

        Do lado, a mulher só escutando o marido contar a história. De vez em quando fazia um sinalzinho de cabeça para o médico.

        – E na janta, o que o senhor come, seu Fritz?

        – Mesma coisa. Uma chucrutezinha, um salsicha e uma chopinha. Em seguida, terepa no Terraça e sinto tontura.

        Observando que a mulher chacoalhava a cabeça o tempo todo, doutor Joás resolveu chamá-la num canto:

         – A senhora está sempre fazendo sinal com a cabeça, por quê? O seu marido está mentindo por acaso?

         – Está, doutor. Ele é muito mentiroso. Quando fala um chopinho, na verdade tem tomado dez. Salsicha? É um salcichão deste tamanho, ó! Ele come dez, vinte, trinta salsichas. E tem mais, doutor. Meu nome não é Terraça. É Teresa!

 

O castigo do canalha

      O tal de Agadabias Vicente não é exatamente a pessoa a quem se deva chamar de decente. Muito pelo contrário. O sujeito é um vagabundo de marca maior.

       Casado até bem pouco com uma madame ricaça, muito distinta e bonitona, esse filho da mãe sempre fez pouco caso dela, embora vivesse às suas custas. Nem é preciso dizer que, além de vagabundo, Agadabias é um tremendo canalha. Mas não larga a mania de dar uma de bacana.       “Don Juan” de última categoria, o safado continua dando em cima das menininhas, mesmo estando na pior.

         Um dia, antes de cair na desgraça total de hoje em dia, ele se achava instalado numa mesa de bar, com uma loura ao lado. Os dois bebiam e comiam à vontade quando, a certa altura, ele sugeriu:

          – Que tal se a gente desse um “stop” aqui no barato e partisse pra curtir uma brisa esperta à beira-mar?

          – Superlegal! – concordou a garota.

          Dali a pouco, Agadabias estacionava o carro no escurinho do coqueiral de Cruz das Almas. Quando se preparava para os devidos agarramentos com a criatura, eis que tocou o celular. Rapidinho, ele conferiu o visor do aparelho e viu que o número que chamava era, justo, o de sua residência. Aí, comentou com desdém:

          – Só podia ser…

          – Quem é amor? – indagou a loura, cheia de curiosidade.

          Antes de responder à indagação, Agadabias tratou de cortar a ligação apertando a tecla que imaginou seria a respectiva. Errou.

          Certo que tinha desligado o celular, o safado dispôs-se matar a curiosidade da namorada:   

          – A ligação era lá de casa. Aquela mulher filha da puta não me deixa em paz!

          – Ah, não fala assim da sua esposa, meu filho! – censurou a loura.

          Face a que o celular continuou ligado, do outro lado da linha dona Cordália, a distinta esposa, não pôde deixar de escutar o papo que rolava entre o marido e a namorada:

           – Aquela mulher é uma tremenda mala sem alça. Não larga o meu pé! Dou pra ela tudo o que quer e está sempre pedindo mais. Assim vou terminar indo à falência.

           Dona Cordália segurava-se em cima do solado dos pés para não cair, mas continuava escutando a conversa, com o telefone colado no ouvido.

           E o canalha esnobando:

           – Olha, no dia que eu estiver puto, mando essa mulher pro inferno, com um chute na bunda!

          E a namorada, toda chateada :

          – Vamos mudar de assunto?

          – Vamos. Mas, antes, me dê um beijo daqueles…

          Dona Cordália só desligou o telefone quando não suportou mais ouvir os gemidos lascivos do casal.

             Cerca das quatro horas da manhã, quando o cachorrão voltou pra casa, encontrou a esposa e respectiva família à sua espera.

              – Ôba! Que surpresa legal! Grande recepção essa, pessoal! Alguma festa aqui pro papaizinho?

              A primeira porrada o atingiu no pau da venta. Quem aplicou foi, justo, dona Cordália. Cada cunhado, onze ao todo, tirou a sua casquinha. Dona Cotinha, a avó da esposa, aproveitou o ensejo e aplicou-lhe violento chute no saco. O pau foi seguro. O vagabundo foi expulso de casa sem direito a nada.