Ailton Villanova

9 de Fevereiro de 2017

A grande surpresa!

      A falecida Odália, mãe do distinto Abracáulio, era uma exímia cozinheira. Possuia uma restaurantezinho no bairro da Levada e elegeu como prato principal da casa uma tal de “Feijoada Sertaneja”, que era uma delícia. Então, o Abracáulio passou a ser o maior consumidor da iguaria. Para ele, mamãe sempre caprichava.

       Ocorre que a feijoada de dona Odália sempre causava um impertinente acúmulo de gases nos intestinos do filho, principalmente quando ele exagerava na dose. Mesmo assim, Abracáulio mandava ver na rangagem, sem dó e nem piedade. Acabava de comer, abria o fiofó e disparava: prorrróóót. Sempre, sempre, a liberação dos gases era acompanhada de um mau cheiro insuportável.

        Anos se passaram e Abracáulio firme, na feijoada. Quando completou 34 anos, contraiu núpcias com a jovem Teresa Cristina, que lhe impusera uma condição para viver com ele sob o mesmo teto: abrir mão da maldita feijoada. Apaixonado pela mulher, Abracáulio submeteu-se ao sacrifício. A partir daí, deixou de soltar “puns”.

        Certa tarde, decidiu sair mais cedo do trabalho porque pretendia comemorar o aniversário natalício da amada esposa. Ocorre que no caminho de volta ao lar, seu carro teve um problema mecânico, coincidentemente a poucos metros de um restaurante. E olhe o cheiro tentador de feijoada no ar! Como resistir a isso?

         Enquanto o mecânico, que Abracáulio chamara por telefone, consertava o carango, ele se deliciava com uma suculenta feijoada, tão saborosa quanto a que sua saudosa mãe lhe preparava.

         Comeu três pratos!

         Carro consertado, nosso amigo enfiou o pé no acelerador. Rapidinho chegou em casa. Ao pisar no primeiro batente de entrada, foi recebido com beijos e abraços pela amada consorte.

             – Tenho uma surpresa pra você, meu amor. – avisou a mulher. – Fique onde está, por favor.

             Ele ficou e Teresa Cristina vendou-lhe os olhos, recomendando que por hipótese alguma ele retirasse a venda. E o puxou pela mão até a cabeceira da mesa de jantar.

               – Fique quietinho aí, viu, meu lindo?

               – Pode deixar.

               Quando Teresa Cristina se dispunha retirar-lhe a vista, o telefone tocou e ela correu para atender. Aí, Abracáulio aproveitou a momentânea ausência da mulher, para aliviar as tripas. Levantou a perna, de leve, e mandou ver: prorrroóóóóttt. Depois, deu outra carga. Mais outra e, finalmente, o arremate, antes que a mulher voltasse: prrrrooorrroóóóóttt. O fedor que levantou nem mil urubus seriam capazes de enfrentar.

                Daí a pouco, madame deu por encerrado o telefonema e retornou à mesa:

                 – Pronto, meu amor! Vou retirar a venda!

                  Retirou. Naquilo que os olhos do Abracáulio ficaram livres e ele reparou em redor, quase caiu para trás. Sentados em volta da mesa, onze convidados, sufocados, todos com as mãos tapando as respectivas ventas. Os mais indignados, eram, justamente, doutor Anfrísio, o patrão, e sua digníssima esposa, dona Carótida.

 

Um advogado muito esperto

       No Recife dos anos 60 existiu um meliante chamado Carlêupo, que atendia pelo vulgo de “Raposão”. O cara era um perigo. Numa refrega com a polícia, em Jaboatão dos Guararapes, perdeu um braço, em consequência de um tiro de fuzil à “queima roupa”. Quando saiu do hospital, entrou noutra fria: foi preso em flagrande quando tentava arrombar a residência de um deputado federal, no bairro de Boa Viagem. Dado o grande prestígio desfrutado pela vítima, Raposão foi mandado, rapidinho, à presença do juiz Leterlino Abreu Leão, tido e havido como um magistrado “linha duríssima”. Bandido com ele não tinha vez. De modo que, para “encarar a fera”, Raposão contratou o advogado Hermínio Trajano, sagaz ao extremo.

        Na audiência de custódia, aí presente o magistrado, o causídico argumentava:

        – Meu cliente não pode ser sentenciado, meritíssimo, porque ele não penetrou na residência em questão…

        – Como não? – retrucou o juiz.

        E o advogado:

        – Merítíssimo, ele apenas colocou o seu braço direito pela janela e apanhou aquilo que estava ao seu alcance!

        – Ahááá! O senhor mesmo reconhece, hein?

        Inteligentemente, o advogado contra-argumentou:

        – Ora, meritíssimo, se um braço só do meu cliente não representa toda a sua pessoa física, como Vossa Excelência pode condená-lo por um delito cometido por apenas um dos seus membros?

         Diante do argumento do causídico, o magistrado pôs-se a pensar. Ao cabo de alguns minutos, concluiu:

         – Belíssimo raciocínio, doutor Trajano! O senhor está absolutamente certo. Em assim sendo, eu condeno o braço do seu constituinte a dois anos de prisão. Fica o réu livre para acompanhar, ou não, o braço em questão.

          Dito isto, o juiz soltou uma gargalhada, imaginando haver dado uma bela lição de inteligência e esperteza no advogado. Mas, logo, o magistrado deu uma brecada no começo da segunda risada ao reparar no que o réu tinha acabado de fazer.

           O ladrão despregou o braço postiço, colocou em cima da mesa do magistrado, deu uma meia-volta e saiu da sala dando adeusinho para todos os presentes à audiência.

 

Esperteza de matuto

      Sujeito gabola, metido a valentão, o tal de Bezerrão encontrava-se no Bar do Bode, periferia de Arapiraca, contando as suas vantagens para uma plateia tediosa. De repente, ingressa no recinto um matuto amarelinho de barbicha rala, puxando um jegue pela corda. No pescoço do animal uma placa pendurada, com o seguinte escritado: “Vende-se”. Aí, o dono do estabelecimento gritou por detrás do balcão:

        – Êêêpa! Que esculhambação é essa? Animal aqui dentro, não senhor! Bota esse jumento pra fora!

        – Discurpe, moço. – disse o matuto.

        Aí, Bezerrão, querendo exibir-se ainda mais, falou para a galera:

        – Vou comprar o jegue desse idiota pela metade do preço. Vocês vão ver só.

        O amarelinho amarrou o animal lá fora e voltou para dentro do bar. Bezerrão o chamou e perguntou:

        – Tá vendendo o jeguinho, meu?

        – Tô, sim sinhô,

        – Quanto é que vai querer por ele?

        – Míu cruzêro!

        – Tudo bem. Depois, a gente discute isso aí. Primeiro, vamos tomar uma cervejinha. Aceita?

        – Aceito, sim sinhô!

        Num instantinho esvaziaram uma garrafa de cerveja.

         – Mais uma? – perguntou Bezerrão ao matuto, querendo embriaga-lo.

         – Vâmo lá! – topou o dono do jegue.

         E assim beberam a segunda, a terceira, a quarta… até a décima. Àquelas alturas, o tal Bezerrão, que prometera comprar o jumento, virou-se para o amarelinho e perguntou:

         – Quanto é que você quer mesmo pelo jegue?

         O matuto lambeu os beiços e respondeu:

          – Quero vendê mais não.

          – Como não quer mais vender?

          – Ora, purque num careço mais.

          – Por que não precisa mais?

          – Pur caso de quê já tô sastifeito. Eu quiria vendê-lo pra tumá umas celveja. Num já tumei de graça? Entonce, num careço mais de vendê-lo ele!