6 de Fevereiro de 2017

A militância do ódio que surgiu do caça-níquel no ensino superior

            No final dos anos 90 do século passado, quase que no apagar das luzes do Governo Fernando Henrique Cardoso, o Ministério da Educação, por intermédio de portaria assinada pelo ministro Paulo Renato Soares transformava alguns estabelecimentos de educação privada em centros de excelência em ensino. Paulo Renato era um boa-praça com quem tive o prazer de atuar na composição da equipe de comunicação social por alguns meses, em Brasília e de quem guardo, até hoje, uma portaria de elogio por minha participação na coleta de dados e divulgação do Programa Toda Criança na Escola que resultou na criação do Fundef (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Fundamental) e que, mais tarde, o presidente Lula estendeu à educação básica ao criar o Fundeb. Discordava de algumas pautas defendidas por ele como, o privilégio ao modelo privatista de educação, mas na área de comunicação, o ministro foi muito prático e, em sua gestão, criamos o Sicom (Sistema de Comunicação) no âmbito do MEC e que hoje define as atividades da área em toda a estrutura do governo federal.

             O reconhecimento de estabelecimentos de ensino como centro de excelência educacional representou a proliferação de faculdades pelo país afora. Era comum, em 1998, por exemplo, encontrar uma faculdade a cada esquina, nem que existisse apenas só o letreiro na fachada. Também não era anormal se deparar com uma unidade de graduação acima de borracharia e em lojas de conveniências de postos de combustíveis. A medida visava dar suporte governamental as tradicionais faculdades privadas, principalmente, do eixo sudeste-sul. Mas no Nordeste e, especificamente em Alagoas, a decisão ministerial ganhou essa esquisita dimensão. Começava assim, a precarização do tradicional vestibular que passou a ser agendado pelo próprio candidato para estudar, inclusive a hora que melhor lhe conviesse. Eram o início das chamadas faculdades “caça-níqueis”, deste modo apelidadas por optarem pelo mercenarismo no lugar de um ensino de qualidade. Enquanto isso, a universidade pública era sucateada e tinha o orçamento reduzido.

Sem laboratórios, escassas em professores qualificados, sem bibliotecas, essas instituições de ensino privado não demoraram muito para desvendar seu verdadeiro perfil. Eram tão ruim que o então presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Roberto Busato esbravejou em 2005, que as faculdades de Direito no País, em sua maioria, estavam formando “analfabetos jurídicos”. Mesmo assim proliferam-se cursos superiores de Direito, Jornalismo, Letras, Fisioterapia e algumas delas se arriscaram a oferecer Medicina a preços alcançados somente pela elite dos grandes centros financeiros do país.

O conteúdo curricular de baixa qualidade, fez com que o governo federal criasse o Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) e algumas dessas “caça-níqueis” tiveram os cursos banidos. Poucas instituições privadas se transformaram, de fato, em centros de excelência e possuem uma estrutura superior as instituições públicas. Mas até chegar a esse patamar, já era tarde demais.

O período de estelionato no ensino superior brasileiro foi suficiente para jogar no mercado de trabalho, profissionais sem qualificação técnica e sem conduta moral e ética para exercer a profissão e, talvez esteja, exatamente neste aspecto, a postura adotada e recentemente reveladas nas redes sociais por médicos-monstros, juristas antiéticos e até colegas jornalistas que não sabem separar suas opiniões pessoais dos princípios de direitos civis da sociedade brasileira.

Surgiu então a militância do ódio um prêmio para a direita brasileira que vivia presa ao sepulcro desde o final da ditadura militar, mas que, espontaneamente, foi libertada por vários adeptos do terror. E  mais, com curso superior.