Ailton Villanova

3 de Fevereiro de 2017

O defunto que não morreu

      O contabilista Nigloberto Porciúncula nunca foi chegado a certos exageros biritais, mas no último dia 15 de novembro resolveu comemorar o Dia da Proclamação da República na orla lagunar de Marechal Deodoro, acompanhado de uns bons amigos, entre os quais o prefeito Christiano Matheus e o deputado Jeferson Morais. Dita comemoração, regada a muito uísque, teve como acompanhamento jacaré ao molho de sururu no coco e farofa com pimentão, cebola e alho. Ainda pintou na parada, um bagrezinho assado, com muito coentro e vinagre. Dia seguinte, Porciúncula foi trabalhar reclamando mais do que bode embarcado:

      – Eu não devia exagerado na bebida e na comida! Mas a culpa é do Christiano Mateus!

       De dez em dez minutos Nigloberto Porciúncula corria pro sanitário e mandava pra baixo aquele cocozão melado. E assim foi até quase o final do expediente, quando a Eletrobras resolveu sapecar um blecaute filho da mãe. Na repartição do Nigloberto o corre-corre era grande. Pra cima e pra baixo, a negrada andava às voltas com o processos e papeis corredor a fora, à procura de uma luzinha, mas o ambiente continuava escuro que nem breu.

        Trancado no sanitário, o Nigloberto apertava a barriga e gemia de tanta cólica. Enquanto isso, o chefe de pessoal Valdecy Pereira, distribuía velas de sala em sala. Em dado momento, o telefone tocou e alguém atendeu:

         – Alô? Ãn? O Nigloberto? Pois não. Um momentinho.

         A repartição mergulhada naquela escuridão (as velas distribuídas pelo pressuroso Valdecy não foram suficientes), eis que Nigloberto apareceu para atender a chamada telefônica:

         – Alô? Aqui é o… Ai! Uuui!

         Novo ataque de cólica. Nigloberto Porciúncula não conseguia se segurar, muito menos continuar falando ao telefone. Então, o  contínuo Sebastião vendo o cara naquela agonia, abriu o bocão:

         – Socooorrro! Corre aqui, gente! Tragam outra vela que seu Porciúncula piorou!

         Naquela hora, quem se achava tentando falar com o Porciúncula era o também contabilista Magnaldo Correia. Naquilo que escutou o contínuo pedindo uma vela pro Nigloberto, sob a alegação de que o dito cujo havia “piorado”, ele, Magnaldo, no outro lado da linha telefônica, imaginou coisa grave. E daí para considerar o amigo defunto, foi rápido.

         E o que fez, então, Magnaldo Correia? Cortou a ligação sem pedir explicações e, imediatamente, fez inúmeros outros telefonemas, repetindo o recado:

          – Olha, o nosso amigão Nigloberto Porciúncula acabou de morrer! Deve ter sido um infarto fulminante!

          A cidade inteira ficou sabendo do prematuro falecimento do Porciúncula. Um detalhe a mais contribuiu para dar a certeza do seu passamento desta para a melhor: o telefone de casa chamava, chamava e ninguém atendia. É que dona Floripes, a esposa, andava movimentando as canelas no shopping.

           Não deu dez minutos e olha a multidão na porta do “inditoso”! A fila de automóveis tomava o quarteirão inteiro. O que tinha de nego fungando não estava no gibi.

           Daí a pouco, surpresa geral: eis que surgiu no pedaço o “finado” dirigindo o seu carrão.

           – Quê que tá havendo aqui pessoal?! Por que essa choradeira toda? Quem morreu? – indagou espantado, ao descer do carro.

           Do meio da multidão, saltou o Magnaldo Correia, que respondeu:

          – Ora, quem  morreu foi você!

          – Eeeuuu? Que papo de agouro é esse, bicho? Olha a brincadeira,  hein?

          – Mas você não morreu agora de tarde?!

          – Vira essa boca pra lá. O que eu tive foi uma caganeira, só isso!

          Final da história: já que estava todo mundo ali, a turma, então, resolveu mudar o cenário. Foram todos até o bar da esquina e promoveram uma grandiosa farra, para festejar a “ressurreição” do Porciúncula.

 

Convite feito…

      Cheio de ideias renovadoras, o xará José Aílton Freire assumiu a gerência santanense do finado Produban e logo foi querendo alargar os horizontes de sua clientela. Pegou o adjunto Josival, outro cabra bom e disposto, e saiu com ele visitando sítios e fazendas. Até que baixaram numa área indígena meio desconhecida, a reserva Oiaeuaqui, instalada num vale.

        – Vamos bater um papinho com os índios, Josival? Eu sempre quis bater um papo com essa gente boa!

        O parceiro concordou com restrição:

         – Tá legal. Mas será que gente pode entrar aí, sem autorização da Funai?

         Enquanto Freire e Josival discutiam à sombra de uma frondosa árvore, aproximou-se deles um simpático e educado silvícula, que indagou cauteloso:

         – Uquié?

         E o Freire:

         – É que eu e o meu colega aqui estamos querendo conhecer a aldeia… Somos do banco Produban, agência de Santana do Ipanema…

         – Do banco? Ah, bom. Vamos!

         O índio foi acabando de convidar a dupla e logo se aboletando no automóvel do gerente. E foram em frente.

         Para descerem até a reserva, eles tinham que rodar pela borda do vale, fazendo uma longa curva.

         O carro saltitava na estradinha estreita e esburacada. Aqui e acolá uma ladeirinha, uma curva fechada. Até que pararam no centro da reserva, onde havia um monte de casinhas de sapé, todas bem limpinhas e organizadinhas. O cicerone, então, conduziu os visitantes à presença do cacique, um tal de Manuel, veterano do olhar apertadinho, como quem sofre de miopia.

          Foram muito bem recebidos.

          Adornados com penas, respectivas peles pintadas de vermelho e preto, adultos e crianças rodearam Zé Aílton e Josival. Trataram-nos igual presidente e ministro,

          Coincidentemente, aquele era dia de festa na tribo. De modo que os bancários participaram dos folguedos, numa boa. Jogaram até futebol com os atletas indígenas – Zé Aílton de zagueiro e Josival no ataque, em equipes adversárias, mas da mesma reserva.

           De noitinha, a despedida foi afetuosa. Num último alô, José Aílton quis ser amável e, talvez pela força do hábito, fez o convite: “Apareçam lá no banco para a gente tomar um cafezinho!”

           Dia seguinte, bem cedinho, com o cantar dos galos, a cidade de Santana acordou  espantada. É que em frente a agência do Produban tinha um monte de índios, todos bem comportados. Mais tarde, quando abriram as portas do banco, todos eles, enfileirados e silenciosos, foram entrando e se arrumando lá dentro.

            Minutos depois, chegava o gerente José Aílton Freire. Imediatamente, o cacique dirigiu-se a ele e foi dizendo sem meias palavras:

             – A gente viêmo tumá café!