Ailton Villanova

20 de Janeiro de 2017

O botão fatal

      O grande sonho da Jocasta, bicha muito da louca, era conhecer o  Japão. Conseguiu realiza-lo. Para tanto, gastou um tempão juntando grana e na hora de montar no avião com destino a terra nipônica, Nivalda, sua apaixonada companheira, fez aquela cena:

      – Buááá! Me leva com você, queridona! Me leva! Buááá…

      E Jocasta, constrangidíssima:

       – Larga de escândalo, Valdinha! Eu volto logo!

       – Volta depressa, meu amor, senão eu morro de saudaaade! Buááá…

       Vinte e quatro horas mais tarde o viadão desembarcava em Tóquio, bastante emocionado:

        – Ai, que lindo! O Japão é tão lindo!                                                                  

        Jocasta pegou um taxi e rumou ao hotel previamente contratado pela empresa que lhe vendera a passagem. Chegou lá, o queixo caiu:

         – Ui, que hotel lindééérrimo, meu Cristo!

         No tal hotel, tudo era controlado por computador. Mal se instalou, a bicha foi acometida de uma tremenda dor de barriga… de emoção. Aí, não teve outra alternativa senão a de correr para o toalete. Arriou o barro no vaso sanitário e, na hora de pegar o papel para limpar-se, cadê que tinha!

          – Que droga!  E agora, como é que eu vou limpar o meu foreba?

          Mal a boneca fechou a boca, uma voz metálica retrucou, através de um alto-falante embutido em algum canto do aposento:

          – Calma, queridinha! Aqui tudo é automático, controlado por computador!

          – Ui, que susto! E você fala a minha língua?!

          – Falo, sua burra! Não está ouvindo que falo? Pra você se limpar é fácil. Está vendo esse botão amarelinho aqui ao lado?

          – Tô!

          – Você aperta e sai um jato de água morna pra lavar o rabo. Este outro verde, controla a temperatura da tampa do vaso. Este vermelho, solta um ventinho quentinho pra secar. Ester rosa, faz espirrar um jato de talquinho perfumado…

           A bicha não pôde conter uma exclamação de espanto:

          – Cacete!

          E a voz:

          – É este último botão marrom aqui, ó!

          – Uuuuuuuaaaaiiiiiii…

 

Lixo de colher

      O cara bateu na porta do apartamento de dona Estrevaliana Abreu, ela atendeu:

      – O que é, moço?

      Então, o visitante explicou, em tom de animador de auditório:

       – Muiiito bom dia, linda senhora! Eu me chamo Leováldio e estou representando uma das maiores indústrias de eletromésticos do país. Estou aqui para fazer a demonstração de como utilizar a última palavra em aspirador de pó!

        E, sem pedir licença e nem nada, foi espalhando pela sala, grãos de café e outros tipos de sujeira que levava dentro de um saco. O lindo carpete da sala de dona Estrevaliana ficou em petições de miséria.

        – Oooohhh… – ela suspirou, contrariada.

        E o cara:

        – Não se preocupe, madame! Eu como tudo isso aí se o aspirador não funcionar! Palavra de honra!

        Aí, dona Estrevaliana levantou-se ligeiro e começou a dirigir-se para o corredor.

         – Onde a senhora vai? – perguntou o vendedor.

         – Vou lá dentro pegar uma colher pro senhor.

        – Pra que isso, madame?

        – É que estamos sem energia elétrica desde a madrugada, e a Eletrobras avisou que só vamos ter luz de volta daqui a umas 12 horas, no mínimo!

 

Idiota prevenido

      Desde criança, o Laucribaldo teve sede de notoriedade. Pouco ou quase nada inteligente, andou bolando umas ideias para ingressar nas paradas, mas nenhuma deu certo.

       – Um dia, eu serei famoso! – prometia sempre.

        Laucribaldo tinha um primo tão imbecil quanto ele e foi justamente esse cara quem lhe deu a dica:

        – Parta para a política, rapaz! Todo político é famoso!

         Não demorou muito, eis que Laucribaldo espalhou-se na cidade ostentando a pose de candidato à deputado. E mais: na condição de “defensor dos fracos e oprimidos”. Estimulado pelo tal parente, resolveu mostrar que não tinha preconceito contra pessoa alguma, muito menos contra soropositivos. Para demonstrar isso, saiu distribuindo santinhos, abraçando e tascando beijos em tudo quanto era aidético. Para provar mesmo que estava sendo sincero, ele radicalizou: acompanhado de um grupo de “eleitores”, foi até uma lixeira hospitalar, deu garra de uma seringa usada e, com ela, picou o braço.

          Atônito, um médico que se achava na enfermaria puxou-o pelo braço:

           – Você está louco, rapaz?! Agora está contaminado!

          Demonstrando uma frieza incomum, Laucribaldo respondeu:

          – Mas é claro que não estou contaminado.

          – Está, sim! – garantiu o doutor.

         – Pode ficar tranquilo, que eu não sou nenhum besta. Quando vim pra cá, com min há turma, botei uma camisinha! Rá, rá!

          Morreu antes das eleições.

 

Assombração domiciliar

      A patota de sempre biritava, tranquila, no Bar do Geraldão, no Jacintinho, quando alguém deu pela falta do Pêu Bolota:

      – Cadê o Bolota, minha gente?

      Ele próprio respondeu, adentrando ao ambiente:

      – Olha eu aqui, gente! Tô chegando atrasado por causa de problemas domiciliares…

       – Mas que tipo de problemas domiciliares, meu? Na verdade, você tá com uma cara de velório da peste! – observou um dos colegas.

       – Altas preocupações ! De uns tempos pra cá, deu pra aparecer lá em casa uma tal de assombração que tem me tirado do sério. Tô pensando até em me mudar!

       – Que tipo de assombração, meu?

       – É o seguinte… toda vez que eu chego da rua e abro a porta da frente, a porta de trás se fecha!

 

Um baiano de menos

      Num pensionato de quinta categoria do bairro da Luz, em São Paulo, quatro camaradas dividiam um quarto escuro e fedorento. Eram um carioca, um gaúcho, um paulista e o baiano Gilmar “Corumba”.Trabalhavam, todos, numa corretora de imóveis.

       Certa noite, patota reunida, o gaúcho pegou um saco de erva-mate que tinha embaixo da cama e o jogou pela janela. Diante do susto dos demais, ele explicou:

        – Lá na minha terra tem tanto disso, que se joga pela janela.

        Aí, o carioca pegou uma garrafa de chope que mantinha sobre a mesinha ao lado e também atirou fora:

         – É isso aí, cara! Lá no Rio sobra muito disso. Aí, a gente joga na rua!

         E o que fez o paulista, então? Pegou o baiano Gilmar e o sacudiu pela janela.