Ailton Villanova

17 de Janeiro de 2017

O capetinha do 2° Livro !

       Debaixo de um sol escaldante, temperatura extrapolando o limite dos 40 graus, o prestamista  Valdemar Izidoro havia deixado Delmiro Gouveia para rever sua freguesia em Água Branca  e arredores. Morto de fome e de sede, comendo poeira que nem um condenado, estava a ponto de desmaiar quando, de repente, avistou uma casinha lá longe, no meio de um sitio árido, poeirento.

       – Finalmente encontrei a salvação! – suspirou aliviado.

       E correu até a moradia, que era humildezinha, derrubadinha, e bateu na porta:

       – Ô de casa!

       Uma vozinha infantil respondeu de dentro:

       – Quem é?

       – É de paz!

       Prontamente, apareceu um garotinho sambudinho, olhos remelentos, o nariz escorrendo:

        – Uquié? – interpelou o menor.

        – Quéde a sua mãe, menino? – indagou o mascate.

        – Tá não!

        – E o seu pai? – insistiu Valdemar.

        – Tomém num tá!

        – E quem está com você? Está sozinho?

        – Tô. Uqui o sinhô qué?

        – Quero água. Estou morrendo de sede. Me arrume um caneco d’água, por favor.

        – Só tem um restinho no pote!  Agora, tem garapa de limão. Será qui sinhô vai querê?

        – Bom, se tem garapa, é melhor que água. Quero, sim!

        O sambudinho deu meia-volta, foi lá dentro e voltou com uma cuia de garapa, que deu pro viajante.

         Valdemar terminou de beber a limonada, estalou a língua no céu da boca, soltou um arroto, de leve, e comentou:

         – Maravilha!

         – Qué mais?

         – Quero!

         O prestamista mandou ver noutra “cuiada” de garapa.

          – Tem mais. O sinhô qué?

          – Menino, querer eu quero, mas sua mãe quando chegar não vai reclamar de você?

             – Vai não sinhô. Tinha um rato morto nessa cuia e ela mandô jogá a garapa fora!

           – Ah, fio duma égua! Vou quebrar essa cuia na sua cabeça!

           – Pelamordedeus, meu sinhô… num quebre a cuia da mamãe mijá, qui ela me mata!

 

Mijada escovada da babá

      Espichado na areia da praia, o distinto amigo Algamouriz Vasconcelos observava um casal de crianças brincando, enquanto suas respectivas mães papeavam descontraidamente, ao lado. De repente, o menino arriou a sunguinha e começou a fazer pipi. A garotinha reparou na pecinha do amiguinho e exclamou:

        – Eita! Você faz xixi por um canudinho!

        E o fedelho:

        – Faço. E você faz por onde?

        – Eu faço por um buraquinho. – respondeu a garotinha.

        O garoto foi mais além:

        – A minha babá, que é mais grande que você, faz xixi por uma escova!

 

O redondo do gerente

       Um agência de conceituado estabelecimento de crédito oficial instalada em área privilegiada  da urbe, foi invadida por um monte de meliantes que, de arma em punho, foram rendendo todo mundo:

        – Quietos! É um assalto! Mãos ao alto!

        Nisso, um dos bandidos bateu o olho na figura do gerente, um camarada baixinho, barrigudinho e de oclinhos de grau, que tinha no pulso um relójaço suíço. 

          – Ei, mano! Vá passando o redondo!

          O gerente gordinho não contou conversa: ali mesmo arriou as calças e virou a bunda pro marginal, que reagiu, na moral:

           – Quê que há, meu? O redondo que eu estou querendo é o relógio!

 

Deixa nascer primeiro!

        Como todo adolescente metido a macho, Heleninho, filho dileto do amigão Heleno Siqueira, andava doido para fazer a primeira barba. E haveria de ser num salão de barbeiros, com tudo a que tinha direito.

         Véspera de Natal, Heleninho montou na sua bicicleta e saiu disparado rua afora. Minutos depois, parou na porta do famoso “Salão do Guilherme”, respirou fundo e entrou. Todo cheio de pose, ajeitou-se na cadeira e mandou:

          – Barba!

          Mestre Guilherme não titubeou. Mandou ver um monte de espuma na cara do garoto. Acabou o serviço, guardou o pincel e foi até a porta da rua, onde ficou de papo furado com um conhecido.

           Cansado de esperar, o garotão reclamou:

           – Ô seu barbeiro, o senhor vem ou não vem fazer a minha barba?

           E o Guilherme, de gozação:

           – Vou. Primeiro, tenho que esperar ela crescer!

 

O outro buraco

      O ex-galego Álvaro Cleto (ex-galego, porque ele pintou o cabelo, as sobrancelhas e a barba de marrom) voltava de carro da Paraíba, onde fora  fazer o conserto de uma das máquinas de certo matutino de lá e, como já era meio tarde, ele resolveu parar o seu carrão num hotelzinho da cidade pernambucana de Igarassu, e pediu um quarto. O recepcionista foi logo avisando:

       – Sinto muito, doutor, mas estamos com problema no sistema hidráulico. Se não se importar, no final do corredor tem dois buracos, que o senhor pode usar pra quebrar o galho.

        E o Álvaro:

        – Tudo bem. É só por uma noite.

        Antes de agarrar no sono, o ex-galego resolveu dar uma evacuada esperta e aí foi ao recepcionista:

         – Ô guri, onde ficam os tais buracos que tu me falaste?

         – O senhor vai até o fim do corredor, primeira à direita, segunda à esquerda.

         Só que, cansadão e morto de sono como se achava, Álvaro Cleto trocou as bolas e esbarrou numa porta fechada. Por trás dela, um casal em lua-de-mel encontrava-se em pleno ato sexual. O antigo galego chamou a munheca na porta – pei, pei, pei…

           – Tá ocupado! – gritou o cara da lua-de-mel.

           E o Álvaro, desesperado:

           – Abre a porta e me deixa usar o outro buraco, porra!