Ailton Villanova

14 de Janeiro de 2017

A geladeira fatal

      – Ô Vanderval, faz mais de meia hora que você está sentado, imóvel, diante dessa geladeira! Qualé o problema, hein? Fala!

      – Problema nenhum!

      – E por que você está tão quieto, só olhando pra essa droga de geladeira? Não me diga que quer me dar uma nova!  

      – Não fala besteira, mulher!    

      – Vanderval…  

      – Cala essa boca, Cleonice!

      – Pirou! O homem pirou! Vôte!

      – Quem pirou foi a mãe!

      – Êpa! Respeite a minha velha, seu puto!

      Duas horas depois, Vanderval permanecia na mesmíssima posição, no mesmíssimo lugar. Muito preocupada, a esposa voltou à carga com outra estratégia:

       – O que está se passando com você, meu amor? – indagou Cleonice, cheia de sensualidade.

       E ele, reagindo bem:

       – Estou aqui pensando como é que a gente vai ficar sabendo se a luz dentro dessa geladeira está apagada, ou não.

       – É isso, Vanderval? É claro que ela está apagada, meu amor!

       – Você prova?

        – Não, mas imagino. Porta de geladeira é que nem porta de carro. Tem um botãozinho que liga e desliga, quando ela abre e fecha. Simples!

        – Belo argumento. Mas não me convence, Cleonice. Acho que só há uma maneira de se saber se a luzinha da geladeira apaga quando ela fecha…

        –  E qual é a maneira?

        – Entrando nela. A gente tira tudo de dentro e… entra!

        Essa foi demais para a Cleonice. Ela deu meia volta e foi pro quarto, dormir.

         Dia seguinte, de manhã cedinho, ao acordar, ela correu à cozinha, para ver se o marido estava lá, já que na cama ele não tinha dormido. Reparou em redor, e aí viu que tudo o que antes se achava no refrigerador,  estava espalhado pelo chão.

         Temendo o pior, Cleonice abriu a geladeira e quase caiu para trás, de espanto: o marido Vanderval estava lá dentro, todo encolhido, congeladão e… Morto!

 

Doente não é calculadora!

      Biriteiro afamado, José Expedito, o Peninha, contraiu uma gripe filha da mãe e passou um mês inteiro tossindo sem parar. Preocupada com sua saúde, dona Bituélvia, a mãe dele, aconselhou:

       – Você precisa ir ao médico, me filho. Se não for, vai terminar ficando tuberculoso!

       Diante de tão forte argumento, Peninha se mandou pro SUS. Chegou lá, pediu para ver um pneumologista. Levado à presença do sobredito, este colocou o estetoscópio nas suas costas e ordenou:

        – Fala três vezes 33!

        E o Peninha calado.       

        – Fala três vezes 33!

        Fazendo um esforço enorme, Peninha respondeu:

        – É 99 porra! O senhor tá pensando que eu sou calculadora?

 

   Sapatos novos

         Final de ano, distinto intitulado Ivanovaldo Simões pegou adiantado um pedacinho de grana das férias que gozaria em dezembro e investiu num par de pisantes de couro de crocodilo. Coisa muito fina.

         Simões chegou em casa calçando os recém-adquiridos sapatos e chamou a mulher para lhe mostrar a novidade:

          – Geraldina, olha pra  mim e vê se nota alguma diferença na minha nobre pessoa…

          De má vontade, a mulher inspecionou o cara de cima a baixo e não disse nada.

          – O que você está achando? – insistiu Ivanovaldo Simões.

          – Achando o quê? 

          – Você não está notando nadinha de novo em mim?

          – E o que eu notaria de novo em você?

          Então, Ivanivaldo resolveu radicalizar: tirou toda a roupa e ficou só de sapatos.

          – E agora?

          – Nada. O pinto continua pendurado de cabeça pra baixo, como sempre!

          – E você não sabe por que o pinto está de cabeça pra baixo?

          – Não! Por quê?

          – Porque ele está admirando os meus lindos sapatos!

          – Ah, é? Você devia era ter comprado um chapéu novo!

 

A parede encantada

      Homem da terra, apenasmente ligado  à agricultura, Severino Ferreira, conhecido como Seu “Biu”, era pai de uma prole numerosa: dezenove filhos, todos homens. O mais novinho, Sidrônio, não saía do seu lado. Por sua vez, dona Maria Cícera, a velha companheira de muitas lutas, sempre soube cuidar bem da rapaziada. Um dia, ela adoeceu e necessitou de um médico com urgência. Então, o zeloso marido resolveu trazê-la à capital.  Em assim sendo, seu Biu alugou um carro na cidade de Delmiro Gouveia e viajaram à Maceió, ele e a mulher, trazendo de contrapeso o garoto Sidrônio.

       O médico indicado para dona Maria Cícera tinha consultório instalado no Edifício Brêda. Quando o trio de matutos bateu lá, ficou impressionado com o que estava vendo. Verdade é que seu Biu, a mulher e o filho, jamais estiveram em Maceió, e estavam completamente por fora das modernidades que o tempo havia imposto aos metropolitas. Quando eles entraram naquele mundão de prédio, Sidrônio apontou, espantado, para o elevador:

         – Paínho! Uquié aquilo lá?

         –  Arre égua, meu fio! Eu nunca ví um diabo desse!

         Diante da porta do elevador, o trio ficou embasbacado, de olho pregado naquela parede que se abria em duas bandas, chiava e engolia as pessoas.

         – Só pode sê armada do cão, meu véio! – opinou dona Maria, afastando-se para longe.

         Em dado momento, surgiu uma velhinha caminhando com dificuldade, bem dizer se arrastando, que se aproximou daquela porta estranha. Aí, aconteceu: a parede se abriu, ela entrou e, em seguida, a dita se fechou. Ato contínuo, pai e filho repararam que o pequeno semicírculo de luzes acima da parede se acendeu. E ficaram espiando uns numerozinhos piscando. Daí a pouco, a parede de abriu novamente e eis que surgiu de dentro uma garota sensacional, que caminhou rebolativa e faceira até a porta de saída do prédio. Seu Biu, então, não se conteve e gritou para o filho:

          – Corre, Sidrônho! Vai alí buscá a veínha sua mãe!