Ailton Villanova

29 de dezembro de 2016

Troca de cabeças, a solução!

     Dentro de suas possibilidades, o serralheiro Orídio Permínio viveu bem a vida. Boêmio, farreou por tudo quanto foi biboca de Maceió. Anos depois, cansadão dessa vida, resolveu ingressar na igreja evangélica. A estas alturas, o fígado velho de guerra já tinha dado pro mundo.

      Mais tarde, começou a sentir as canelas cansadas e um gosto amargo na boca. Preocupado, procurou um médico amigo e este foi bastante sincero:

       – Sinto muito lhe dizer, seu Permínio, mas sua situação não é nada boa. O senhor tem uma cirrose no último grau. Brabíssima!

       Algum tempo depois desse encontro com o esculápio, Permínio caiu de cama e não se levantou mais. Quando sentiu que estava prestes em embarcar pro beleléu, ele chamou a esposa e apelou:

       – Mariínha, me faça um último favor…

       – O que você quiser, meu velho.

       – Quero ser enterrado de terno azul!

       – Tá certo. Pode deixar…

       Dias depois desse apelo, Permínio assentava o cabelo. Lá mesmo no hospital onde se dera o óbito, foram adotados os primeiros providenciamentos para o enterro. Dona Mariínha, a chorosa viúva, só se lembrou do último pedido do finado quando viu o agente funerário enfiando o dito cujo num terno mais preto do que asa de graúna.

       – Epa! Espere aí, meu senhor! Permínio me pediu para ser enterrado de terno azul!

       – De preto seria mais tradicional, entendeu madame? – respondeu o cara da funerária.

       – Mas o Permínio queria um terno azul Então, tem que ser terno azul! –  definiu a madame.

       Antes da saída do féretro para o velório no cemitério, dona Mariínha deixou um cheque com o agente funerário a fim de que ele providenciasse a compra do pleiteado uniforme azul. Horas mais tarde, ao chegar à capela do cemitério, a viúva reparou que o seu defunto estava elegantemente vestido com um terno azul-marinho, fato que lhe emprestava um ar bem distinto. Então, ela foi ao cara da funerária para agradecer-lhe e perguntar quanto ele havia gastado na aquisição da roupa.

         – Na realidade, madame, não custou nada! – respondeu o agente.

         – Como não custou nada? – admirou-se a viúva.

         – É o seguinte: assim que a senhora saiu de lá do hospital, chegou um novo defunto para a gente administrar o seu enterro. Coincidentemente, ele vestia esse terno azul. Como os dois finados eram do mesmo tamanho, perguntei à outra viúva se ele não se importaria que o seu marido fosse enterrado com um terno preto. Como ela concordou, foi fácil. Eu só fiz trocar as cabeças!

 

A grande verdade do Babá

      Eu já falei, aqui mesmo nesta coluna, mas não custa nada repetir: no rádio alagoano pontificou um excelente profissional, hoje em dia recolhido a uma tumba no Cemitério de São José, bairro do Prado. Dele, hoje em dia, só resta a saudade.

      Estou me referindo ao excelente caráter e finado José Bartolomeu, o querido Babá. O Babá das Cabrochas.

      Babá perdera a faculdade de falar, depois de submetido a uma melindrosa intervenção cirúrgica, na garganta, em São Paulo. Extraviara a voz, mas não a lucidez, e nem o bom humor. Nele, até a morte, permanecera pulsando outro recurso que lhe permitiu continuar atuando no rádio: a habilidade das mãos, no manejo do computador. Babá foi um exímio redator de notícias. Fui seu chefe no jornalismo e sempre soube reconhecer o seu valor, como tal, e do seu excepcional caráter.

      José Bartolomeu soube viver a vida. Foi boêmio e amante apaixonado de suas cabrochas, que foram inúmeras. Quando tentou parar com a boemia, o fez através do colega Marcos Alves Costa, outro notívago que gostava de enfrentar desafios. Um desses, foi carregar o seu parceiro de noitadas na zona do meretrício e nos bares periféricos, para a igreja evangélica, onde ele passara a exercitar a atividade de presbítero. Não sabia Marcos que estava cutucando o cão com vara curta. Afinal, a intenção do colega não deu certo. Babá não conseguira abandonar a vida airada e, muito menos, as suas cabrochas.

       Mal retornou à vida boêmia, começou a sentir problemas de saúde e procurou o médico amigo José Dias, ex-locutor de rádio e gente finíssima, que o examinou detidamente. Acabou, advertiu:

       – Escute aqui, Bartolomeu, se você não parar de beber, vai morrer! Pelo que estou observando, o seu fígado já era!

       – Como “já era”, Zé Dias? Você está querendo me assustar? – reagiu o Babá.

       – Assustar coisa nenhuma! Estou falando sério! O seu fígado está pedindo socorro! Ou você para de beber ou morre! O álcool encurta a vida, rapaz!

       E ele, levando na gozação:

       – Isso é verdade, Zé Dias. Concordo com você. Quando estou num bar, o tempo passa muito mais depressa!

 

O “ventilador” atrapalhou o vôo!

      Quando completou 22 aninhos de idade, a lourinha (e filha única) Deuzimar concluiu o curso primário. Foi uma luta, mas mereceu uma grande festa, patrocinada pelo pai, doutor Florimaldo Coutinho, que quase morreu de felicidade.  

       – O que você quer ganhar de presente, por ter realizado essa proeza, meu anjo? – perguntou o pai.

       – Um helicóptero! – respondeu a moça. – Adoro helicóptero, painho!

       Dia seguinte, a garota ganhou um helicóptero de presente do paizão milionário, inclusive, com instrutor importado de São Paulo. Para fazê-la aprender as lições teóricas o comandante quase enlouqueceu.

       Passados seis meses, Deuzimar conseguiu convencer o instrutor de que já estava apta para voar solo.

       – Olha, menina, isto não é brincadeira! – advertiu o instrutor.       

       – Pode confiar, comandante.

       O instrutor, então, concordou com a pretensão da aluna. Entregou-lhe as chaves do aparelho e, por precaução, resolveu ficar de fora, preferindo ficar na torre de controle para acompanhar o vôo solo da pupila. Ela sentou diante do painel de comando, acionou a ignição e decolou. Ao atingir os 400 metros, ela esnobou, através do rádio:

       – Iúú-úuu! Quem foi que disse que loura não sabe pilotar? Isso aqui é demais! Tô adorando! A vista é linda!

       A 800 metros, ele novamente no rádio:

       – É muito fácil! Nunca pensei que pudesse aprender tão rápido! Vou   subir a 1.200 metros!

       Daí a pouco o instrutor estranhou não ouvir mais a voz da aluna. Consultou o radar, nem sinal do aparelho. Aí, ele pegou outro helicóptero e saiu em busca da garota. Não muito longe, viu fumaça num canavial e desceu lá. A lourinha estava viva, mas sua aeronave não prestava mais pra nada.

        – O que foi que aconteceu? – perguntou o instrutor.

        E ela, gemendo de dor: 

        – Sei direito não, comandante! Tudo estava indo bem. Só que, quanto mais eu subia, mais ia ficando frio. Então, resolvi desligar esse ventiladorzão aí de fora!