Ailton Villanova

28 de dezembro de 2016

Curtição atrapalhada

      Por trás do muro de uma mansão bacanérrima, o casal de viciados Blegucildo, vulgo Béo Loucão, e Neozaldina, mais conhecida como Nazinha Bico de Bule, dava um barrufo seguro na “manga rosa”, quer dizer, num baseado de maconha. Bastante lombrados, apreciavam mil estrelinhas celestiais. Ainda na visão perturbada deles, dezenas de elefantes bailando de saieta e crocodilos voando, de sapato alto. Aí, salta Béo Loucão e articula:

       – E aí, gatinha… diz que tô na mó legal…

       – Me liguei manêro no barato. Super legal, gato! Hiper-super, falei?  

       – Ihhhh, gata… mandei outro tapa na mór, deu pra perceber? Caracóis adoidado!

       – Tô voando, também! Olha, eu quero ver se dá pra sentar naquela nuvem do primeiro andar celestial, vê se saca!

       – Saquei. Fiquei por dentro. Vai lá! Escuta, tu tá sentindo que tá escurecendo o ambiente?

         –  Tô sentindo. É que vai cair mó temporal!

       – Mil chuviscos, gatinha!

       – Já manjou na água escorrendo, gato? É finíssima!

       – Pô! Que esperteza!

       A mulher deu novo barrufo no baseado e prosseguiu:

       – Chiii, mozão! Agora me deu vontade de fazer mó xixizão.

       – Que barato! Manda ver!

       Então, Nazinha Bico de Bule abaixou a calcinha e começou a urinar    na frente do namorado. Milhares de espumas no chão. Maior profundidade no terreno arenoso.

        Béo Loucão não se conteve:

        – Ô mozão, tô a fim de sacar uma paranóia!

        –  Saca aí, ó! Qualé?

        – Olha, eu tô tão lombradão que me bateu na cachola a ideia de aparar o teu xixi com a mão, falei?

        – Falou.

        Então, o malandro enfiou a mão por entre as pernas da parceira e se “deparou” com um negócio cilíndrico, escorregando na maior moleza.

        – Qualé, gata? Por acaso tu mudou de sexo? Tu virou macho e num me avisou?

        E ela:

        – Nada disso, mô. Apenas achei que devia também mandar ver um cocozão esperto! 

 

O cadáver estava morto?

      Perito legista, o saudoso Aílton Rosalvo tinha acabado de necropsiar um cadáver no IML de Arapiraca, onde era diretor, quando deu de cara, no corredor, com um sujeito engravatado, que carregava uma pasta pesada. Identificando-se como advogado, o indigitado, todo posudo, perguntou ao doutor:

      – Então, era senhor quem estava fazendo a autópsia?

      – Era, sim.  Por quê? – retrucou o legista.

      – E o senhor tem certeza de que quando fez a autópsia a vítima já estava morta?

      – Meu amigo, necropsias só se praticam em cadáveres. – explicou o perito.

      – Mas como pode ter a certeza de que a vítima estava realmente morta?

      – Porque quando foi atropelada, teve sua cabeça esmagada e o cérebro danificado. Eu o tive nas minhas mãos!

      O boçal coçou a barba, pensou um pouco e voltou à carga:

      – Mas, repare bem, doutor… seria possível que a vítima, mesmo sem cérebro, não estivesse morta?

      O legista, que nunca teve papas na língua, respondeu bem sarcástico:

      – Perfeitamente. Mas só se fosse um advogado inteligente assim como o senhor!

 

Lerdo demais!

      O distinto Adalardo Godoy é tão devagar que a turma o apelidou e Tartaruga. Uma tarde, ele se encontrava farreando com uns amigos, no Bar do Padre, localizado no Alto da Conceição e, aí, faltou tira-gosto e todo mundo com preguiça de sair para comprar mais. Então, alguém resolveu apelar para os préstimos do Tartaruga:

      – Bicho, dá um pulinho alí na esquina e compra um quilo de linguiça!

     Adalardo Tartaruga concordou e os caras voltaram suas atenções aos seus respectivos copos. Quatro horas depois, todos estavam cansados de esperar.

       – Eita diabo! O tartaruga tá ficando cada vez mais lerdo! – reclamou um dos farristas.

       Nisso, escutaram uma voz dizer da calçada:

       – Se continuarem falando mal de mim, eu não vou!

 

 Gaguinho esperto

      A comunidade católica está bem lembrada: o ano de 1950 foi considerado o Ano Santo. No mundo inteiro foram realizadas grandiosas manifestações e campanhas memoráveis a respeito. E num cantinho deste planeta Terra, mais precisamente no Sertão cearense, um sacerdote chamado Odilon Castello Branco se desdobrava para dar à parte que lhe coube, o maior atestado de eficiência cristã. Entre as variantes da programação idealizada pela sua paróquia, merecia destaque a disseminação da Bíblia, que era vendida a preços simbólicos. Importava era que todos tivessem acesso ao livro sagrado.

       Quanto mais voluntários vendendo exemplares da Bíblia, tanto melhor. O dinheirinho arrecadado serviria para a reforma física da igreja e para incrementar suas obras sociais.

        Bela manhã, apareceu na paróquia um molecote bastante conhecido  no pedaço. Era o gaguinho Severino Damião, que foi oferecer os seus serviços ao reverendo:

        – Pa… pa… padre, eu ga-gostaria de aja-aja-aja… ajudar na va-va-venda das Bi… bíblias!

        Comovido com o gesto do rapazinho, padre Odilon deu-lhe um lote de Bíblias para vender, imaginando que nessa tarefa ele gastaria, no mínimo, uns dois meses.

         – Não se apresse, Severino. Vá devagar, mesmo. – recomendou o reverendo.

         – Pa-pode fa-ficar sa-sossegado, pa-padre…

         No final da tarde, durante o acerto de contas com os colaboradores, o sacerdote ia perguntando a cada um:

          – Quantas vendeu, José Francisco?

          – Vendi duas!

          – E você, Benedito?

          – Vendi uma…

          E por aí. Até então, nenhum dos voluntários havia vendido mais que dois livros.

          Aí, chegou a vez do gaguinho.

          – E você, Severino? – quis saber o sacerdote. 

          – Eu va-vendi ta.. tu-do!

          Padre Odilon espantou-se:

          – Tudo???!!! Mas como?

          – Sa-simples: eu cha-chegava pra pe-pessoa e pa-perguntava: o sa-senhor va-vai com… com… comprar a Bí-Bíblia, ou que-quer que eu le-leia?