Ailton Villanova

27 de dezembro de 2016

EM NOME DO AMOR VALE TUDO!

 Fazendeiro analfabetão, entretanto milionário, “coronel” Ascendino Romão Pereira não gostava de negros. Brancão, olhos azuis, bigode grosso e caído sobre o queixo fino, o velho botou no mundo um magote filhos, incluindo a gatíssima  Maria de Fátima, a caçulinha dos seus rebentos. Meses depois de ter concluído o segundo grau num colégio bacana de um dos maiores municípios da Zona da Mata, Fátima transferiu-se para Maceió, a fim de se preparar para o vestibular de medicina. Daí, então, por ironia do destino, ela se apaixonou pelo negrão José Francisco dos Santos, o Chicão, dois metros de tamanho e muita grana no bolso e no banco, adquirida por intermédio de um sorteio milionário da Supersena. Com aquela linda criatura à disposição, Chicão, antigo vendedor ambulante de milho verde, cuscuz e arroz doce na praia de Pajuçara, e conhecido como piadista e gozador ao extremo, apressou-se em pedi-la em casamento.

 

        A moça tentou desencorajar o amado:

 

        – Olha, amor, o painho é terrível! Ele odeia negro!

 

        E o Chicão, todo cheio de confiança:

 

        – Deixa o velho comigo.

 

        De modo que o negão pegou a menina, botou no seu carrão, e se mandou com ela à presença do coronel, que o recebeu entronchando a cara e cuspindo de lado, dando a entender que estava com nojo.

 

         – Num tô gostando dessa história de nego querê entrá pra minha famia! – avisou o latifundiário, assim que Chicão assentou os solados do pés na sala de visita da luxuosíssima residência da garota, que se antecipou à resposta do pretendente:

 

          – Mas eu amo o Francisco, painho!

          – Óia qui tu pode tê um monte de tiçãozinho, menina!

 

          E ela, bem decidida:

 

          – Eu os amarei do mesmo jeito. Serão meus filhos!

 

          Então, para dificultar o casamento, o velho resolveu impor uma série de exigências ao Chicão:

 

          – Iscute aqui, seu gurila, eu sempre dei do bom e do milhó pra essa minina. Intonce, pra mode vosmicê se casá cum ela, vai tê de comprá uma casa pra ela, lá na Capitá, cum vista pru má!

          – Já tá comprada, coronel. Aliás, não é uma casa, é um palacete! – esnobou o negão.

 

          O velho resolveu complicar um pouco mais:

 

          – Marido da minha fia tem de sê letrado! Vosmicê sabe fala ingrêis e francêis?

          – A propósito coronel, estou negociando a compra três faculdades. De modo que para aprender inglês e francês vai ser fácil pra mim. Também vou estudar alemão, japonês, chinês italiano e outras línguas. Mandarei buscar os melhores professores nesses países que citei. O que mais o senhor quer?   

 

           Aí, o velho fazendeiro apelou: 

 

           O marido da minha fia tem qui tê uma bilunga de trinta centímetros, no mínimo…!

 

           Chicão rebateu, de peito estufado:

 

           – Só isso? Não tem problema. Amanhã mesmo mandarei procurar o maior cirurgião dos Estados Unidos e o contratarei para diminuir, em dois terços, o meu membro reprodutor…

 

 

Pagamento dobrado

 

      Depois de um dia bastante agitado, Coriolano Pinto voltou pra casa morto de cansado e encontrou um monte de amigos à sua espera, entre esses o Clemildo, que não segurou a emoção do momento, e discursou na ponta dos pés:

       – Graaande Coriolano! Você é um herói, cara!

       – Que herói que nada, rapaz! – retrucou ele, cheio de modéstia.

       – Todos nós aqui, seus amigos, viemos à sua casa para lhe dar um apoio, nessa hora tão difícil. Estamos sabendo que você perseguiu os bandidos que sequestraram sua mulher! Que coragem!

        E o Coriolano, no ouvido do empolgado amigo:

        – Não foi perseguição, cara. Tive medo que eles se arrependessem e a trouxesse de volta.

        – Bem… e o resgate?

        – Se pedirem, pagarei o dobro para eles ficarem com ela!

 

 

Ele foi apenas avisar!

 

      José Benedito da Luz, o Biuzão, era um negrão espirituoso e bastante chegado a uma birita. Nasceu e se criou no bairro maceioense Vergel do Lago. Morreu aos 56 anos, depois de ter rangado uma caprichada buchada de bode e, em seguida, deitado na cama com a generosíssima Danda Bonfim. Na metade da transa, ele estirou meio metro de língua pra fora e bateu as botas. Seu enterro ocorreu no dia seguinte com avultado acompanhamento. Biuzão era muito querido.

       O finado era sempre visto fazendo biscates no mercado público da Levada. Sujeito trabalhador, ele não enjeitava parada. Só um serviço ele não topava fazer: o de motorista.

        – Esse selviço é muito compricado pra eu! – repetia sempre que alguém lhe sugeria aprender a dirigir veículos automotores.

       Certa ocasião, uma firma que acabara de se instalar no bairro da Levada e que operava no ramo de secos e molhados, abriu inscrição para a seleção de profissionais com vistas ao preenchimento de vagas para motorista. Então, formou-se, na porta da empresa, uma fila enorme de pretendentes ao emprego. Surpreendentemente entre esses, encontrava-se o Biuzão, ele que tinha o maior pavor de dirigir um pé de borracha.

        Ao chegar a sua vez de ser entrevistado, Biuzão pôs-se diante do encarregado da seleção, que perguntou:

        – Quanto tempo o senhor tem de carteira?

        E o Biuzão:

        – Tenho carteira não, senhor.

        – Mas o senhor sabe dirigir, não sabe?

        – Sei não senhor.

        – Não sabe? Tudo bem. Mas entende do serviço de entregas de mercadorias transportadas por caminhão, não entende?

        – Também não entendo não.

        – Pô! Mas o senhor não sabe fazer nada! Então que diabo veio ver aqui?

        – Eu apenas vim avisar pra não contarem cum eu pra nada!