Ailton Villanova

25 de dezembro de 2016

O NASCIMENTO DO MENINO JESUS

     Sol causticando. O esquelético jumento é puxado por um homem de caminhar vacilante, trôpego. O homem para, olha adiante. Só vê estrada acidentada e poeirenta. Vira-se e fala para a mulher que está montada no animal:

     – Tá doendo muito, Maria?

     Ela gemeu e apertou a enorme barriga:

     – Doendo demais, Zé! Acho que não vou aguentar…

     – Vai! Com a fé de Deus, vai!

     Curvado pelo cansaço, José tinha a cara e o corpo lavados de suor. A temperatura no Sertão é impiedosa, massacrante. José e Maria haviam saído de Palestina, situada no limite de Pão de Açucar com Monteirópolis, intencionando chegar naquele mesmo dia à Belém, que fica pra cá um pouco de Palmeira dos Indios. A caminhada era longa e difícil. Com o bucho pela boca, Maria estava em vias de dar à luz. Ela e o marido tinham arribado de Palestina para verem o filho nascer na terra natal de ambos.

     Havia seis meses o casal se transferira para a zona rural de Palestina, onde José teria trabalho, casa e comida. A princípio, teve. Mas, ao cabo de dois meses atuando como vaqueiro, ele foi despedido pelo patrão, um fazendeiro chamado César Augusto, quando este descobriu que Maria, a mulher do seu empregado José, estava grávida.

     Os dias que se seguiram foram tormentosos para o casal. Todavia, esperançoso de nova oportunidade, José fez a cabeça da mulher e ambos permaneceram arranchados ao pé de um morro encravado numa extensa área onde, outrora, a plantação e até mesmo o mato foram abundantes.

     Agora, a terra esturricada pelo sol inclemente maltratava, feria. O calor sufocante consumia as carnes de José e Maria, cujo ventre guardava o primeiro fruto da união dos dois. Sobreviviam do que José conseguiam amealhar à custa de muito sacrifício. Naqueles dias, ele não era nem a sombra do homem robusto e disposto de antes. A fome é terrível!

     – Num aguento mais não, Zé! – gemeu outra vez, Maria.

     – Aguenta, mulher. Seja forte!

     – A dor é grande, Zé! Ai, meu Deus! Eu queria morrer!

     – Deixa de ser agourenta, Maria!

     – Pare esse jumento, Zé!

     – O que foi?

     José parou o animal ao pé de uma árvore seca, que sequer dava sombra, plantada à beira da estrada, e ajudou a companheira descer do lombo do animal.

     – Ai! Ai… Zé! Dói!

     – Calma aí!

     O casal sentou-se no chão poeirento e acidentado, sem dizer palavra alguma. Capim nenhum para o jegue comer. Faminto, o quadrúpede mastigava torrões de barro. O sol continuava ardendo. Nem um sopro de brisa. Tempo parado. Deserto do cão!

     – Tô com fome, Zé!

     O homem meteu a mão no bisaco, puxou de dentro um pedaço de rapadura e o pôs na mão de Maria, juntamente com um punhado de farinha:

     – Come!

     Ela comeu tudo. Depois, bebeu água de uma cabaça que José carregava pendurada na cintura. Soltou novo gemido e reclamou:

     – Diacho! Acho que o menino vai nascer antes da gente chegar à Belém…

     – Vamos ter que chegar lá.

     – Que dia é hoje, Zé?

     – Parece que é véspera de Natal.

     – Virgem Santa!

     – Amém!

     O sol morria na linha do horizonte e, exaustos, maltratados, José, Maria e o animal, seguiam caminhando. José calculou que faltava légua e meia para chegarem a Belém. As dores atormentavam Maria, que vertia compridas lágrimas – estrago irremediável das escassas gotas d'água que retinha no corpo esquálido, deformado pela gravidez.

     – Zé…

     – Num fala, mulher. Aguenta aí!

     – Mas, Zé…

     – 'Tamos já chegando, Maria. Pense em Deus que é melhor. Pede forças à Ele!

     – Tô fraquejando, Zé!

     O animal manquitolava pela estrada. Quase não mais suportava o peso de Maria e do fruto do seu ventre. Mas, seguia em frente, estimulado por José:

     – Êia, êia, burrinho!

     A noite caiu rápido e o céu ficou escuro que nem breu. Na caminhada, José e Maria haviam subido 150 metros acima do nível do mar. O esforço tinha sido enorme.

     Final da noite. Eis que surgem as primeiras luzes de Belém.

     Soaram como cânticos de anjos as palavras brotadas da boca de José:

     – Chegamos, mulher! Estamos em Belém!

     Maria chorou e teve um espasmo. Em seguida, um grito de dor explodiu na sua garganta:

    – Ai, meu Deus! Vai ser agora, Zé! Me acuda mãe de Cristo!

    Nesse momento começaram a cair grossos pingos de chuva. A natureza chorava com Maria. Solidarizava-se com Maria. Congratulava-se com Maria.

    O casal estava próximo à porteira de uma fazenda e não tinha mais como prosseguir. José gritou pedindo socorro, quando a mulher desmaiou.

    Ao seu apelo, acudiram três cavaleiros. Eram empregados da fazenda.

    – O que está havendo, rapaz? – indagou o que parecia ser o líder deles.

    E José, aflito:

    – A minha mulher… Ela tá querendo parir…

    A casa da fazenda estava fechada, porque o patrão daqueles homens havia viajado com a família para a Capital. O jeito foi acomodar o casal na estrebaria.

    Meia-noite de Natal!

    Tendo como testemunhas os animais da estrebaria, nascia o filho de Maria e José.

    A parturiente abriu os olhos e chamou baixinho:

    – Zé…

    – Tô aqui!

    – Como é que a gente vai chamar o bichinho?

    E José, rindo de felicidade:

    – A gente vai chamar ele de… Jesus!

    – Jesus?! Pois, então, que seja!

    O recém-nascido choramingou, chupando o bico do peito macilento da mãe.