Ailton Villanova

23 de dezembro de 2016

O velho sábio

      No Sertão inteiro seu João Leopoldino, mais conhecido como Joca Bozó, era respeitado como o mais sábio de todos os macróbios da região. As pessoas faziam fila na sua porta para aconselhar-se com ele. Até padre Genildo, o pároco. Apesar de sábio, seu Joca Bozó era um velho ranzinza.

      Bela manhã, encontrava-se ele e sua esposa, dona Raimunda, tomando uma fresquinha no alpendre de casa quando, de repente, surgiu um      “caboco” montado num alazão, com a maior cara de preocupação:

      – Boa dia, véio Bozó! Tô caricendo da sua ajuda!

      – Possa apeiar-se. – autorizou o ancião. – Quarquié o pobrêma?

      O caboco aproximou-se e falou:

      – O pobrêma é cum a minha mulé, seu Bozó!

      – Quié qui tem ela, meu fio?

      – Tá me chifrando!  

      – Cuma?

      – A minha mulé anda sortando o “frosquete” pro Mané Baubêro!

      O velho coçou a barbicha e falou de olhos cerrados:

      – Vô lhe conta um causo… Um dia, eu tava nas Arapiraca ispiando o meu Asa jogá, quando, dirrepente, me deu uma dô de barriga da bobônica. Corri pra privada e… puf!, só saiu vento! Vortei pru meu lugá e, dinôvo, bateu ôtra dô de barriga. Curri de vorta pra privada e… puf! Mais um peido! Quando já tinha vortado pras quibancada pela tercêra vêis, óia a dizinfiliz da barriga roncando travêis! Entonce, imaginei: “Deve de sê mais um porrote!” Óia, fio, errei na valiação e me caguei todo, no meio do povo!

       Invocado com o ancião, o caboco retrucou:

       – Mas véio Bozó, eu tô falando da Dasdôre, minha mulé. Uqui essa sua históra tem a vê cum ela?

       – Meu fio, se eu não consigo controlá nem o meu rabo, cuma vosmicê vai querê qui eu controle o cu da sua mulé?

 

E antes dessa lei…?              

       Assessor técnico da Secretaria de Planejamento, o economista João Carlos Gayoso Mendes encontrava-se no interior do estado participando de um seminário sobre gestão pública quando, em dado momento, aproximou-se dele um prefeito da região sertaneja, que falou:

        – O senhor me dá uma licencinha, doutor?

        – Toda. – respondeu Gayoso.

        – Eu queria que o senhor me matasse uma curiosidade… É verdade que essa tal de Lei da Gravidade é que segura as pessoas no chão?

        Gayoso assumiu ar professoral e respondeu:

         – Claro que é verdade. Se não fosse a Lei da Gravidade todo mundo estaria flutuando no espaço!

          O prefeito coçou o cucuruto e atacou de novo:

           – Agora me explique outra coisa, doutor: como é que todo mundo fazia antes dessa tal de lei ser aprovada?

 

Tigre já era!

       Seu Benedito Santino, mais conhecido como Biu Bremó, era um operoso tecelão da finada Fábrica Alexandria, no Bom Parto, e caçador nas horas vagas. Como tal, loroteiro.

       Quando ele não estava manipulando teares na saudosa indústria têxtil, ou caçando pacas, cutias e tatus na Mata do Rolo, em Rio Largo, era visto proseando com os amigos nas esquinas bompartenses.

        Certa noite, no Bar do Pedro, encontrava-se rodeado de amigos, proseando a valer:

         – Vocês precisavam ver… Eu estava caçando no Mato Grosso, quando me apareceu um tigre da bubônica de grande…

         – Tigre, Bremó???!!! – estranhou seu Pedro.

         – Sim, um tigre! Aí, eu peguei a minha espingarda e chamei o dedo no gatilho… E não é que a infeliz negou fogo! E o bicho chegando mais perto. Aí, joguei a espingarda pro lado e me abufelei com o danado!       

          E seu Pedro, novamente: !

          – Espere aí, Bremó. Essa é demais! No Brasil não tem tigre. Só na Ásia.

          – Pois é. Sem outra alternativa, sapequei-lhe um tabefe no pé da orelha e berrei: “Fora daqui, seu safado! Lugar de tigre é na Ásia!” E mandei o bicho pro lugar dele.

 

Acrobata acidental

      Vida danada de sofrida é a vida de sertanejo e para o vaqueiro Cícero Romão Ferreira não podia ser diferente. A região do Carié, onde morava, andava mais seca do que língua de papagaio. No solo esturricado, nem um fio de grama. Por isso, o gado morria de fome. E de sede, também, porque os açudes. Viraram imensas depressões cheias de pedras e pó. 

         Não suportando o sofrimento naquele pedaço de chão encardido, Romão arribou de lá com a família e veio bater na capital. Ele, mulher e filhos se arrumaram de qualquer jeito debaixo de uma marquise, no bairro do Jaraguá, e ficaram esmolando, enquanto não surgia uma opção de trabalho.

          À cata de emprego, havia um mês, Romão deparou-se com uma movimentação incomum de homens, máquinas e animais num trecho da Avenida da Paz. Aproximou-se curioso e viu que era um circo que estava sendo armado. Chegou mais pra perto e cutucou no ombro de um camarada que parecia ser o dono e perguntou:

          – Pur favô, moço, me arrume um imprego, qui tenho oito fio pra mode criá…

          O cidadão reparou pra ele e indagou:

           – O que o senhor sabe fazer?

           – Carqué selviço…

           Bom, pegue aquela escada alí e suba lá em cima do mastro, que acabaram de instalar. Arrume aí um martelo e algumas tachas e pregue aquelas ripas que estão se soltando, certo?

            Feliz da vida, Cícero Romão obedeceu. Pegou o martelo, as tachas, subiu na escada e mandou ver – pôu, pôu, pôu… 

            De repente, o matuto deu um salto mortal a dez metros de altura, fez uma pirueta no ar e caiu em pé, no picadeiro. E danou-se a pular num pé só, com a mão entre as pernas.

             Reparando naquilo, o dono do circo aplaudiu:

             – Sensacional! Que beleza! Ô rapaz, por que você não disse logo que era acrobata? Diga logo quanto quer ganhar, que eu vou contratar o seu número!

             E Cícero Romão, ainda segurando o saco:

             – Tô doido o quê, seu moço! Nem por um milhão de cruzêro eu arripito outra martelada dessa nos meu quiba!