Ailton Villanova

22 de dezembro de 2016

Presente de cão

      Madame Betuélvia Carposo, ou por outra, professora Bezinha, era adoradíssima pelo alunado do Colégio Cristo Redentor. Os meninos só viam terra onde ela pisava.

      Bela manhã de novembro, minutos antes do ingresso da ilustre mestra na sala de aula, seus alunos do 4° ano primário estavam ansiosos. É que aquele dia era consagrado ao seu aniversário natalício e a petizada havia preparado uma bela surpresa para ela.

      Assim que Bezinha assentou o primeiro pezinho dentro da sala, todos se levantaram e começaram a cantar o tradicional “Parabéns pra Você”. Acabaram, mandaram ver uma estrepitosa salva de palmas.

      – Não precisava isso, meus queridos! – disse ela entre lágrimas de emoção.

      A seguir, veio a segunda parte da homenagem.

      Uma garotinha lourinha saiu do seu cantinho e entregou a nataliciante uma caixinha colorida, toda enfeitada de fitinhas. Bezinha sacolejou a caixa e indagou:

      – Chocolates?

      – Acertou, professora!

      Depois, levantou-se um menino do olhinho vivinho que passou à aniversariante um pacotinho retangular.

       – É pesadinho! Será um livro? – ela tentou adivinhar.

       – É, professora!

       Um terceiro aluno, o gordinho Jorginho, aproximou-se da homenageada com uma caixa que tinha dois furinhos de cada lado.           Bezinha notou um pequeno vazamento na embalagem. Aí, passou o dedo, aparou uma gota, experimentou, fez uma careta e arriscou:

       – É vinho?

       – Não, professora!

       Ela chupou outra gotinha:

       – Já sei! É um uísque!

       – Também não.

       Depois da quinta experimentada Bezinha deu um “stop”.

       – Desisto! Que presente você acaba de me dar?

       E o Jorginho:

       – Um cachorrinho!

 

Depois da cabeça… o resto!

      Tensão nervosa é problemão pra qualquer cristão.

      No dia do seu casório, Neuzinha reclamou o dia inteiro de uma forte dor de cabeça. Dona Marinalva, a cuidadosa e extremosa mãe, fez chazinho, deu comprimidozinho pra ela, e a dor persistindo.

       Neuzinha foi à igreja segurando a barra. Depois da cerimônia Neuzinha grudou no noivo Geribaldo e não o largou mais.

       Veio a festança e a noiva reclamando de dor. Quando ela se recolheu ao quarto com o amado, a mãe, preocupada, se ligou nela. Lá pelas tantas, ao escutar a garota gemendo, dona Marinalva bateu na porta:

        – A cabeça ainda não passou, minha filha?

        Quem respondeu foi o noivo:

        – Fique tranquila, minha sogra! Não só a cabeça, mas todo o resto passaram numa boa!

 

Grande esposa!

      Lascadão em cima de uma cama, Nirolândio Batista chamou a esposa mais pra perto dele e, num fio de voz, perguntou:

      – Marly, sei que estou morrendo e nada mais me importa, agora… Mas, só por curiosidade, você já me traiu alguma vez?

      Madame pensou um pouco, e acabou confessando:

      – Traí. Mas foi apenas duas vezes, e pra lhe ajudar…

      – Como foi a primeira?

      – Está lembrado daquela vez que você pediu um empréstimo ao banco pra trocar de caminhão e nada do dinheiro sair?

      – Claro. E, de repente, o dinheiro foi liberado, não foi?

      – Foi.

      – Aaahhh… foi por uma boa causa. Naquela época eu já estava pensando em me suicidar. E a outra vez?

      – Você se lembra quando se candidatou à presidência do sindicato e precisava de 350 votos para se eleger?

 

Fumante de mentirinha

      Preocupada com a saúde do marido Rolibaldo, dona Siterlêndia o advertiu:

       – Você precisa se cuidar, Roli! Sua cara não está nada boa!

       E ele, desdenhando:

       – A cara pode não estar nada boa, mas o resto…

       – … vai de mal a pior! – completou a mulher.

       De fato. Antes, forte e bem disposto, o Rolibaldo dos dias presentes estava um caco! Suas canelas afinaram e a barriga cresceu uma enormidade. Para completar sua desgraça, acometeu-lhe uma persistente dor na banda direita da pança, que incomodava horrores.

        – Você tem de ir ao médico, Roli! Olha que eu vou marcar a consulta, hein? – insistiu dona Siterlândia.

        – Nem marque que eu não vou!

        Mas foi. Uma semana desse papo, ele estava ingressando no consultório do médico Nilton Jorge Melo, acompanhado da zelosa esposa. A verdade é que ele só acatou a ideia da cara-metade porque começou a sentir na boca, um gosto danado de cocô.

        – O que tem incomodado o amigo? – perguntou o médico.

        – De princípio, náuseas!

        – Só?

        – Bem, tem uma dorzinha aqui do lado, que se estende até o pé do pente… Ah, moleza nos pés, também!

       – O senhor fuma?

       – Cinco maços de cigarros por dia!

       Doutor Nilton assustou-se:

       – Pelo amor de Deus! Aí está o seu problema, meu amigo! Pare de fumar imediatamente e voltará a ter saúde de ferro!

       Rolibaldo saiu do consultório exibindo um sorriso que ia de orelha a orelha. E a esposa, indignada:

       – Que história é essa de fumar cinco maços de cigarros por dia, seu mentiroso? Você nunca botou um cigarro na boca!

       E ele:

      – Eu sei, minha filha. Acontece que se eu dissesse que não fumava, ele ia me perguntar se eu bebia e, certamente, me mandaria parar de beber!