Ailton Villanova

20 de dezembro de 2016

Adeus e… nunca maaaiiisss…

  Dona Rosa, minha avó materna, não cansava de repetir:

      – “Com mulher de bigode nem o diabo pode!”

      A baixinha era sábia.

      Maior exemplo de sua filosofia é dona Percilina, esposa do infeliz Eduardo Fajardo de Oliveira – que Deus o tenha num bom lugar. Percilina cultivava um bigode aloprado e dele até se orgulhava. Ela falava meio grosso e era braba virada no cão. Todos os dias aplicava, no mínimo, duas surras no infeliz do marido e ele sequer reagia. Por causa disso, a vizinhança do prédio onde morava, o tinha na conta de “um corno muito do covarde”. O cara era frouxo mesmo.

      Um dia, cansado de apanhar da mulher, Eduardo procurou aconselhar-se com o amigo Agajoel e este o encaminhou a um psicólogo meio invocado, que definiu:

       – Ora, meu amigo, esse seu probleminha é fácil de ser resolvido!

       – É meeesssmo, doutor? – animou-se o coitado.

       – Claro que é! Você vai fazer o seguinte… toda vez que estiver apanhando de sua mulher, é só você abrir a boca e gritar: “Tome! Tome! Tome, sua desgraçada!” E todos os vizinhos irão associar o barulho das porradas à sua voz, e acharão que é você quem está batendo nela, entendeu?  

        – Maravilha, doutor! Entendi direitinho! Pode deixar que eu vou fazer igualzinho o senhor está mandando…

         Eduardo voltou pra casa num pé e noutro. Chegou à porta do apartamento, meteu o pé e entrou. No que entrou, recebeu a primeira porrada da bigoduda. Aí, reagiu, conforme ensinou o psicólogo:

         – Tome, sua vagabunda!

         Ah, pra quê! Ao escutar o marido chama-la de vagabunda, Percilina chamou a mão pra frente – plaft, plaft, plef, plef… Quanto mais ela batia, mais Eduardo gritava a plenos pulmões:

          – Tome, cachorra! Tome, sem-vergonha! Tome, bandida!

          Plaft! Cataplaft! Vabei! Era o pau comendo solto.

          Até que chegou a hora em que a mulher cansou de bater no infeliz. Como último esforço, pegou-o pelo fundilho e atirou pela janela do oitavo andar. Antes de estatelar-se no chão, Eduardo Fajardo ainda gritou para o prédio todo ouvir:

           – E agora, sua cretina, eu estou indo embora! E nunca mais me procuuuuuureee…

 

A esperteza do baixinho Dulcídio

      Dulcídio era um bom mecânico de automotores. O que tinha de competente, tinha de baixinho. Por isso, a galera estava sempre pegando no seu pé:

       – Tudo bem aí embaixo, ô escada de tirar maxixe?

       – Quê que há, puleiro de pato?

       E por aí.

       Um dia, de saco cheio de ser sacaneado pelos mais altos, ele desabafou com o amigo Zezito Aleluia, durante uma farra num boteco do terminal rodoviário:

        – Esse caras, porque são maiores que eu, acham que são mais malandros. Mas eu sou mais!

        – É mesmo, Dudu?

        – É claro que eu sou! Imagine que eu tô comendo a mulher do Tonhão “Lavanca” e ele não faz a menor ideia! Já ele está comendo a minha e eu estou careca de saber, rá, rá!

 

Ah, agora, sim! 

      O cara entrou no consultório do dentista Albano Jacintho e perguntou ao próprio quanto custava a extração de um dente.

      – Cento e sessenta reais! – respondeu o odontólogo.

      – Mas é muito caro, doutor! Um absurdo! Não tem uma maneira mais barata de arrancar dente?

      – Bem, se eu não usar anestésico posso fazer por 120!

      – Dá não!

      – Ok! Se eu economizar a anestesia e conseguir arrancar o dente em dois movimentos, em cobro só 50 reais.

       – Ainda é muito, doutor!       

       E o dentista, já puto com o cara:

       – Olha, se eu deixar um dos meus alunos do primeiro ano fazer isso como aprendizagem, eu cobro 10 reais.

       – Ah, agora, sim! Pode marcar pra minha mulher na sexta à tarde?

 

Chifrudo por conveniência

      Dia desses, o galego Álvaro Cleto exercitou, mais uma vez, a sua esperteza. Foi, justo, na sua terra natal, Curitiba, ao lançar-se à aventura de viajar de retorno à Maceió, depois de merecidas férias entre parentes e amigos de infância.

      Quando ele se preparava para ir ao aeroporto, chegou um dos seus primos e disse:

       – Álvaro, tenho um presente pra ti!

       – Ora, mas não precisa, rapaz!

       – Faço questão!

       – Tá bom. Já que tu insistes, pode ir buscar o presente.

       O primo foi e voltou arrastando um bode que não tinha mais tamanho. Além do mais, fedorento. O galego assustou-se:

        – Porra! Mas como é que eu vou levar este animal, ô guri?

        – Ora, primo, tu não vais viajar de avião? Não me faças essa desfeita, rejeitando o meu presente.

        Tanto o parente insistiu que o galego pegou o bodão e o levou pro aeroporto. Na hora do embarque, o cara da alfândega bronqueou:

        – Bode não pode!

        – Como não pode, meu amigo? – reagiu o Álvaro. – Eu vejo todo mundo viajar com tudo quanto é animal… é cachorro, é gato… é papagaio…

       – Cachorro, gato e papagaio são diferentes. São animais domésticos… são animais de estimação. Bode, não!

       Putão nas calças, Álvaro Cleto desistiu de viajar e voltou à casa do primo que o presenteara com o bode. Este não aceitou a devolução do animal:

        – Dei, tá dado! Não aceito o bode de volta! Ele é seu! Leve!

        Dia seguinte o galego estava novamente no aeroporto, tentando embarcar com o infeliz do bode. Só que desta vez havia bolado uma ideia singularmente espantosa: disfarçou o bicho, raspando-lhe a barriga e adicionando-lhe uns pompons no rabo e nas pernas. Em seguida, deu-lhe uma pintura amarelo-cinza, com listras azuladas. O cara do aeroporto ficou embasbacado quando reparou na presepada:

         – Que diabo de animal é esse?!

         – É um poodle africano.

         – Poodle afreicano?! E esses chifres na testa?

         – É problema dele! Se botaram uns cornos no coitado, eu não tenho nada a ver com isso!