Ailton Villanova

2 de dezembro de 2016

Aprovado com mérito

     Antigamente, o serviço militar obrigatório assustava a rapaziada. Hoje, nem tanto, o negócio está mais ameno. Naqueles tempos, o recruta era tratado como bicho pela milicada graduada. Por conta disso, a turma corria do verde-oliva como o diabo corre da cruz. Para não vestir a farda do exército, inventava mil desculpas, armava mil artimanhas.

      Às vésperas de ser convocado, o distinto Afrânio Dirceu tremia nas bases. Até que, finalmente, recebeu um memorando convocatório, expedido pelo antigo 20° Batalhão de Caçadores (20° BC), atual 59° Batalhão de Infantaria Motorizado (59°  BIMTz). Aí, começou a lastimar-se:

      – E agora, meu Deus? Não tenho estrutura para ser soldado!     

      Mas tinha. Era forte que nem um touro.

      Ao escutar as lamúrias do colega, o Adilson Farias tentou encorajá-lo:

      – Se aperreando com besteira, rapaz?

      – Pimenta nos olhos dos outros é refresco, Farias! – defendeu-se Dirceu.

      – Olha, se você quiser sair ligeirinho dessa obrigação é só inventar   uma história, ou fazer um drama. Foi o que eu fiz!

      Os olhos do Dirceu brilharam:

      – Não diga! E o que é que tenho que fazer?

      – Você vai fazer o seguinte: quando chegar lá, fale que sofre de bronquite crônica e de falta de ar profunda e constante. É tiro e queda, rapaz! É dispensa na hora! Vá por mim!

      Dias depois, Afrânio Dirceu apresentou-se no quartel do 20° BC para a inspeção de saúde e foi levado à presença do então major-médico Nabuco Lopes, mais tarde reitor da Ufal e, finamente, general. Pois bem, assim que se viu diante do oficial, ele fez cara de choro e disse:

       – Eu sou um homem doente, doutor. Sofro de bronquite e de falta de ar!

        Homem experiente, muito sábio e discreto, professor Nabuco Lopes    

reparou bem na saudável figura do apresentado e sentenciou:

        – Aprovado!

        – Aprovado, doutor?!

        E doutor Nabuco, sem perder a tranquilidade?

        – Perfeitamente! Nada melhor do que trabalhar de sentinela noturna para curar a falta de ar!

        E Afrânio Dirceu gostou tanto do exército que, anos mais tarde, aposentou-se como coronel.

 

Era um manequim!

      O hilário episódio que vai abaixo narrado, ocorreu em Maceió, no carnaval do ano 2000. É verdadeiro, como, aliás, são reais os fatos narrados nas aberturas desta coluna.

       Final de tarde da segunda-feira de Momo, a folia rolava solta nas ruas de Maceió. Não mais que de repente, eis que surge na parada o sempre atento coronel PM Ronaldo dos Santos, então comandante-geral da briosa Polícia Militar. Muito ancho, ele descia o morro do Farol a bordo de um carrão oficial, pilotado por um militar da corporação. De repente, passou por eles um automóvel em alta velocidade, em direção à ladeira da antiga rodoviária. Ligeirinho, o arguto oficial se ligou num detalhe muito estranho: do porta-malas do tal automóvel exsurgia uma mão humana. Tinha toda pinta de mão de finado. Dava adeusinho pro coronel.

         – Soldado! Siga aquele carro! – ordenou o comandante. – Estão levando uma pessoa no porta-malas! Tudo indica que é um cadáver!

         Atendendo à ordem superior, o obediente e exímio motorista afundou o pé no acelerador e abriu a sirena da viatura – uó, uó, uóuóóoo… uóuóuóóo…

          Quanto mais a sirena gemia, mais o sujeito que guiava o veículo suspeito e fiava o pé no acelerador. Estabeleceu-se, então, pelas estreitas e sinuosas ruas do bairro do Poço, uma perseguição cinematográfica.

            Através do rádio de sua viatura, coronel Ronaldo transmitia ordens:

            – Atenção todos os carros! Aqui fala o comandante-geral, câmbio! Veículo suspeito carregando um corpo na mala, câmbio! Mobilizem-se para abordá-lo! Cerquem toda a área do Poço, câmbio!

            E deu as coordenadas indispensáveis ao êxito da operação.

            Tudo quanto foi viatura policial se avexou para entrar em ação. De um ponto da zona norte da cidade, responderam de um determinado veículo militar:

             –   Estamos a postos, comandante! Favor informar posição do suspeito!

            E o coronel:

            – Suspeito agora trafegando em direção ao shopping…

            O que se viu, a partir daí, foi uma confusão danada. De todas as bibocas da zona norte da cidade dispararam viaturas da PM. Em questão de segundos a região do shopping transformou-se numa autêntica praça de guerra. Mais de cem carros de patrulhamento, e camburões, entupidos de militares fortemente armados, com suas respectivas sirenas abertas criaram um tremendo ambiente de combate.

              Finalmente, o veículo suspeito foi localizado no estacionamento do shopping, ainda com a mãozinha dando adeuzinho. Do meio da multidão emergiu, altaneiro, o coronel Ronaldo, empunhando sua possante automática .45.

               – Mãos para cima, cabra! – ordenou ao motorista do carro suspeito.

               E este, mais branco do que cera do Santíssimo:

               – Pelo amor de Deus, não me matem! Deve estar havendo algum engano. Eu não sou bandido, minha gente!

               E Ronaldo, cheio de autoridade e de moral:

               – Aaahhhááá! Não é bandido, hein? E esse cadáver aí na mala do seu carro? Pra onde você está levando ele?

               – Não é cadáver não, seu coronel. É um manequim, pode reparar!

              Realmente, era um manequim. O abordado era gerente de uma badaladíssima loja do shopping e o boneco flagrado na mala do seu carro estava sendo levado para exposição…

 

Morto muito educado

       Gildo Almeida era um repórter apressadinho que atuava na Rádio Gazeta, quando eu dirigia o jornalismo da emissora. Ele cobria as atividades do Pronto Socorro e o Instituto Médico Legal. Certa manhã, Edécio Lopes pilotando o seu tradicionalíssimo “Manhãs Brasileiras”, eis que Gildo ligou do IML para o estúdio. O sonoténico Jurival Carneiro atendeu e ele lascou lá:

         – Me bota aí no ar, que eu tenho um furo de reportagem!      

         Jurival pediu permissão ao Edécio, cortou o som do seu microfone e passou a bola pro Gildo, que sapecou:

          – E atenção ouvintes! Há poucos instantes foi atropelado por um trem, nas proximidades do mercado público da Levada, o popular João da Silva. Seu cadáver encontra-se aqui no IML, aguardando pacientemente a necropsia.

          Piadista e irreverente, Edécio Lopes não perdoou:

           – Hummm… Esse defunto é bem educado, não é Gildo? Sabe esperar pacientemente! Parabéns pra ele!