Ailton Villanova

1 de dezembro de 2016

Ordem é ordem!

      Dezembro de 1968. O AI-5 tinha acabado de ser decretado. Iniciava-se, então, a fase mais braba da repressão. A milicada verde-oliva deitava e rolava. O ar no País era irrespirável. A polícia entrou no embalo da repressão e pintou as canecas. Turva noite, numa ronda pela orla marítima da Pajuçara, agentes civis motorizados flagraram um coroa bebaço mandando ver numa mijada de mil espumas, no meio do passeio.

       – Ei! Que negócio é esse aí? Que falta de vergonha é essa, seu coroa safado? – berrou um dos tiras.

       O mijão não deu a menor bola pro policial. Continuou agarrado na manguaça, despejando xixi pra todo lado. Aí, o tira engrossou:

        – Tô falando com você, porra!

        E o cara, tranquilão, firme, na mangueira.

        – Se continuar urinando, serei obrigado a lhe prender. – ameaçou o agente da lei.

        O mijão, então, deu uma balançada final e guardou a peça no lugar apropriado. Em seguida, virou-se pro agente e abusou:

         – Quer saber de uma coisa? Vá tomar banho!

         O tira pediu a ajuda dos companheiros de equipe e algemou o sujeito. Ato contínuo, jogou-o na caçapa do camburão e o levou à Delegacia de Plantão. Lá, entregou-o ao delegado:

          – Esse elemento estava urinando em plena praia de Pajuçara, doutor. Eu o adverti e ele me mandou tomar banho. Pode?

          O delegado achou que o sujeito havia passado dos limites.

          – Muito bem. O que você tem a dizer, seu imoral? – indagou.   

          E o cara:

          – Ah, vá tomar nesse teu cu!

          Injuriado, o delegado chamou os policiais que haviam conduzido o

 imoral à sua presença:

          – Bota esse safado no pau-de-arara, pra ele aprender a respeitar as autoridades!  

           A rapaziada arrastou o insolente até os fundos da delegacia. No momento em que o pegaram para pendurá-lo, caiu do seu bolso uma carteirinha. Ele era general da reserva do Exército Brasileiro.

            Desesperado, o chefe da equipe correu pro gabinete do delegado:

            – Doutor! Doutor! O homem é general!

            – Putaquipariu! E agora, o que a gente faz?

            O policial saltou de banda:

            – Bom, eu vou fazer o que ele me mandou: tomar o meu banho!

 

Folgado à pulso

       No colégio, ele foi o mais educado e o bem mais comportado que todos os alunos, durante os anos de ginásio e científico. Na faculdade, ganhou medalhas. Verdadeiro gentleman, o amigão Pedro Orégano Batista só tem bronca de uma coisa nesta vida: andar de avião.

        Depois de formado em economia, o ilustre Orégano foi trabalhar na Petrobras e aí começou o seu suplício por que, volta e meia, era obrigado a montar numa aeronave e sair por aí, pelos ares brasileiros, a serviço da famosa estatal.

          Um dia, numa turbulenta viagem à Porto Alegre, ele teve de apelar para um expediente a que esporadicamente recorria: todo cheio de gentileza, pediu um uísque à comissária de bordo, mas esta fez questão de ignorá-lo solenemente. Ele insistiu no pedido e novamente ela… nem aí! Orégano já estava ficando apavorado quando o passageiro ao seu lado, comentou:

          – Você está sendo fino demais com essa aeromoça, meu amigo. Mulher gosta de ser maltratada. Quer ver só?

         E assim que a comissária foi passando pelo corredor, o tal sujeito gritou pra ela:

         – Ô sua vagabunda! Me traga um copo de uísque com bastante gelo. E traga logo, ouviu?

         Um minuto depois o cara foi atendido.

         – Viu como funciona?

        Orégano tornou a fazer o seu pedido educadamente e, nada! Em seguida, o tal passageiro mandou ver, novamente:

         – Vem cá, piranha filha da puta! Você não tá vendo que o meu copo tá vazio? Me traga outra dose dessa porra de uísque!

         Em segundos o copo do sujeito estava esborrando.

         Aí, o Orégano resolveu seguir o exemplo do camarada do lado. Levantou-se e disparou:

          – Escute aqui, sua vaca! Traga pra mim, também, um copo de uísque, senão vai entrar na porrada!

          A comissária voltou no minuto seguinte com dois parrudos colegas, que pegaram o infeliz e meteram-lhe um par de algemas.

          Quando ele descia, preso, no aeroporto de Porto Alegre, escutou o sujeito que o estimulara a agredir a aeromoça, dizer:

          – Olha, companheiros, desçam o pau nesse abusado, pra ele aprender a respeitar as nossas colegas aeromoças!

 

Apenas um pequeno detalhe!

           O cara chegou à guarita do pessoal da segurança aqui do jornal, e falou pro porteiro:

           – Quero falar com chefe dos jornaleiros.

           Imediatamente, o funcionário ligou para o setor competente e, daí a instantes, ele estava ingressando nas nossas instalações. Levado à presença do José Paulo Gabriel, à época diretor administrativo e financeiro (hoje ele é o presidente), este o recepcionou com a educação e gentileza de sempre:

            – Às suas ordens, meu amigo. Em que lhe posso ser útil?

            – Eu vim procurar um emprego de jornaleiro… Adoro ser jornaleiro!

            – Tem experiência no serviço? – quis saber o Gabriel.

            – Não senhor, doutor. Ninguém nasce sabendo, não é mesmo?

            – É verdade. Mas, me diga… você conhece bem a cidade?

            – De cabo a rabo!

            – Sabe ler e escrever?

            – Sei não.

            – Não é possível! Você não sabe ler e nem escrever?!

            Aí, o cara retrucou, cheio de sabedoria:

            – Ora, doutor, todo homem nasce analfabeto. Aprender a ler é um detalhe. Por que criticar os analfabetos?