Ailton Villanova

30 de novembro de 2016

O degenerado dos ovos

      Final dos anos 90. Doutor Ednaldo Holanda, gente finíssima, era subsecretário estadual de Saúde e se achava atarefadíssimo em seu gabinete de trabalho, despachando um monte de processos, quando alguém bateu na madeira:

       – Posso entrar, para dar uma palavrinha com o senhor, doutor?

       Era dona Maria Atuérpia, encarregada de servir cafezinho e manter limpa e cheirosa a sala do ilustre esculápio.

        Holanda suspendeu o que estava fazendo e respondeu:

        – Pois não, dona Maria. Aproxime-se. Tudo bem com a senhora?

        E ela, com ar bastante preocupado:

        – Comigo tá tudo bem, graças a Deus, doutor. Acredito que não esteja nada bem é pros homens do Benedito Bentes.

        – Por que, dona Maria?

        – Eles devem estar morrendo de medo, por causa de um louco que anda assassinando tudo quanto é macho, só pra tirar os “possuídos” deles!

        – “Os possuídos”?

        – Sim, doutor. Os quibas, com licença da má palavra…

        – Entendi.

        – O senhor tem escutado a Ronda Policial, do Gonça Gonçalves (*), não tem, doutor Ednaldo?

        – Muito pouco, dona Maria. Falta de tempo, entende? O que tem dito a Ronda Policial do Gonça, sobre esse degenerado?

       – Diz que o maldito mata os homens e arranca os ovos dos coitados, pela cêpa! Pra quê, não me pergunte, que não sei dizer!

       – Mas que coisa estúpida, hein?

       – Pois é, doutor Ednaldo. Todo dia é um, dois… Basta o senhor ligar o rádio e lá está o Gonça Gonçalves dizendo: “Desovaram mais dois indivíduos na canavial do Benedito Bentes!”

 

____________________________________________________________Gonça Gonçalves, policial civil e radialista manteve, durante anos, com grande audiência, na Rádio Gazeta, um programa “mundo cão”, que deixou de ir ao ar, assim que ele faleceu por complicações diabéticas. Deixou saudades.

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Culpados no trânsito     

      Eu até achava que o infeliz havia morrido… Mas, eis que, de repente, ele bateu um fio pra mim:

      – Magnânimo mestre! Advinha quem está falando!

      – Putaquipariu, cara! E eu pensando que havia me livrado de você! Quê que você quer, Fedúlcio?

      – Quero lhe comunicar que acabo de concluir, com êxito, uma grande pesquisa!

      – Sobre o quê, Fedúlcio?

      – Sobre trânsito.

      – Melhor você falar com o Pinto de Luna, da SMTT! Liga pra ele! Pesquisa de trânsito é com ele mesmo!

      – Estou falando sério, grande mestre. Essa minha pesquisa revela quais são os grandes responsáveis pelos acidentes de trânsito no mundo. Quer saber quais são eles?

      – Diga lá!

      – Pois fique sabendo que são os motoristas e os carros!

 

Orelhas também aquecem!

      Nesses últimos dias de chuva e frio intenso, o religiosíssimo Policarpo Poliedro e sua namorada, a linda e comportada evangélica Vandercleide, acharam de passear de carro pela orla marítima, depois de um culto noturno longo e demorado. Lá pelas bandas de Jatiúca arriou um pneu do carro e o Poli desceu para trocá-lo. Terminado o serviço, ele voltou ao volante  tremendo de frio e com as mãos mais geladas do que mãos de defunto em geladeira do IML. Penalizada, a garota ofereceu-se para esquentá-las e colocou-as entre suas belas, roliças e quentíssimas coxas, por baixo do vestido.

        Depois de algum tempo, exitadíssima, ela sussurrou:

        – Amor, suas orelhas não estão geladas também?

        Estavam.

 

Gastadeira sem grana

      Cleóphilo Bezerra topou com o amigo Ederaldo Belo na praia de Pajuçara e foram pro abraço. Quando se separaram, o primeiro perguntou:

       – E aí, meu? Tudo joia?

       – Que nada, rapaz! Tô lascadão! Desempregado e ainda por cima minha mulher me enchendo o saco!

       – Não diga!

       – Todos os dias a filha da puta me pede dinheiro emprestado. Um dia me pede 20 reais, outro dia pede 50… Tem dias, até que me pede 100, bicho!

       – Aí é lasca, né? Além de desempregado, gastando uma grana preta! Que diabo tua mulher faz com tanto dinheiro?

       – Sei lá! Eu nunca dei um centavo!

 

Que coisa, mãe!

      Generino Guedes, guerreirão laureado, bateu as botas depois de uma noite de boemia com um monte de putas no Jaraguá. Seu coração não suportou a orgia e pifou. No seu velório, dona Verlúcia, a cara esposa, que era míope do último grau, chorava copiosamente. Em dado momento, tirou da cara o óculos fundo de garrafa e debruçou-se sobe o finado, estirado no caixão:

       – Ai, meu Genepa! Você está indo embora e me deixando sozinha neste mundo… snif… buááá… Que dor! Vou ficar aqui, alisando os seus cabelos até fecharem o caixão…

       Meio sem jeito, o filho mais velho se aproximou da viúva e sussurrou:

       – Para com isso, mãe! Tira a mão do saco do pai!