Ailton Villanova

19 de novembro de 2016

O veredito do Dioclécio

     Doutor Atahualpa Malcrísio foi um juiz cuja fama de atrabiliário atravessou os sertões nordestinos e foi esbarrar nas lonjuras sulinas. Alto, encurvado, nariz adunco e olhos encovados, ele lembrava a figura de um abutre. Dizem que ele tinha um bafo de boca capaz de provocar ânsias de  vômito até em urubu. Suas sentenças, na maioria das vezes, eram ditadas na base do absurdo e ai do infeliz que tivesse a ousadia de contestá-las. Ele botava mesmo pra arrombar!

     Atahualpa andava arrastando os pés, feito tartaruga, e nunca tirava do cós da calça um pau-de-fogo que não tinha mais tamanho. Gabava-se de ser muito inteligente e destemido e, por isso mesmo, imbatível.

     – Está pra nascer aquele que irá me superar! – repetia sempre.

     Mas, houve, sim, quem o superasse e o passasse para trás. Foi um certo Dioclécio Tenório, amarelinho nanico e bastante vivo, que morava a poucos metros do fórum. Dioclécio era o cão chupando manga. Segundo as más línguas, dava nó em pingo d’água e beliscão em parede de azulejo calçado de luva de boxe. Dioclécio vivia de trambiques e numa de suas mancadas, teve de encarar o temido magistrado que, quando o viu na sua frente, esfregou as mãos de contentamento:

     – Arráá! Caiu, hein, safado? Vou lhe comer o rabo e ainda vou lhe deixar apodrecer na cadeia!

     O baixinho Diclécio não falou nada. Só fez baixar a cabeça e soltar um risinho matreiro, quando foi recolhido à carceragem da cadeia pública.

      Passaram-se os dias e chegou aquele destinado a audiência. O réu foi colocado na frente do juiz, sentado numa cadeira balança-mas-não-cai. A seu lado, o advogado de ofício chamado Benedito Nascimento, um pretinho muito religioso, que rezava em voz baixa. Atahualpa deu por aberta a audiência e, no introito, encarando o baixinho, disse, cheio de hipocrisia:

      – Sou um homem justo e de profunda religiosidade.  Por isso, vou deixar a sorte do réu aqui presente, nas mãos de Deus. Vou escrever a palavra INOCENTE em um pedaço de papel e a palavra CULPADO em outro pedaço de papel. O réu sorteará um dos papéis e aquele com o que ele ficar, será o veredito.

      Sem que as pessoas ali presentes percebessem, o juiz escreveu a palavra CULPADO nos dois pedaços de papel, de modo a não oferecer nenhuma possibilidade de escapatória pro Dioclécio.

      O juiz depositou os papéis dobradinhos sobre a mesa e, em seguida, determinou ao réu, em tom seco:

      – Tire um!

      Rápido como um tigre, Dioclácio pegou um dos papelotes e enfiou na boca, engolindo-o sem mastigar. Os presentes ao julgamento reagiram surpresos.

      – O que você fez? E agora? Como vamos saber o veredito? – invocou-se o magistrado.

     E Dioclécio, muito tranquilo:

     – É simples, excelência. Basta olhar o papel que sobrou e saberemos que acabei engolindo o seu contrário!

     O vivaldino saiu do fórum às gargalhadas.

 

Doença papal

     Nascido no Crato, estado do Ceará, o sacerdote católico Júlio Queiroz ordenou-se em Salvador em 1910, juntamente com o padre Onildo Tenório Villanova (padre Nildo), que era pernambucano de Águas Belas. Tradicionalistas, os dois religiosos se davam muito bem. Eram amigões.  Tanto que, quando tiravam férias – sempre na mesma época -, Júlio se mandava do interior do Ceará, onde administrava uma paróquia, para encontrar-se com o colega no Agreste pernambucano. De lá, se viajavam mundo afora.

      Numa dessas suas viagens à Pernambuco, montado num ônibus que sacolejava mais que turíbulo de igreja, padre Júlio tinha como companheiros dois marinheiros, que ocupavam a poltrona ao lado. Enquanto o coletivo rodava por estradas poeirentas e esburacadas, os marujos tagarelavam e padre Júlio lia o Breviário. Lá pelas tantas, papo pra lá de chato, um dos marinheiros falou:

       – Não vejo a hora de chegar a Caruaru!

       – Por que essa ansiedade toda, rapaz? – indagou o colega.

       – Porque quero beber cerveja até cair!

       – Pois comigo vai ser diferente… Vou sair com todas as mulheres que puder! 

       Apesar dos olhos pregados no Breviário, o sacerdote estava ligado no monte de besteiras conversadas pelos marinheiros. De repente, um deles perguntou ao outro:

        – Você sabe o que é Lumbago?

        – Lumbago? Lumbago… Lumbago… Não faço a menor ideia.

        O que havia feito a indagação, então sugeriu:

        – Pergunte aí pro padre.

        Já de saco cheio dos caras, e com a pretensão de dar-lhes uma lição, padre Júlio antecipou-se à indagação que fatalmente lhe seria feita pelo marujo:

          – Lumbago, meus filhos, é uma doença que ataca principalmente os homens que bebem muita cerveja e saem por aí com mulheres da vida fácil. Por que a pergunta?

          E o marujo:

          – É que diz aqui o jornal, que a viagem do Papa aos Estados Unidos, foi adiada porque ele está com lumbago!

 

Serviço (in)completo

      Muito cedo dona Alzira botou o filho Álvaro Cleto para trabalhar, porque não queria vê-lo perturbando nas ruas de Curitiba. Menino Álvaro era bastante treloso e tinha que ter todos os seus espaços ocupados. A batida era esta: casa-escola-trabalho-casa.

       A primeira tentativa de emprego pro galego foi na oficina de uma indústria alimentícia. Assim que ele se apresentou para começar no serviço, o patrão o chamou diante de uma máquina cheia de botões, alavancas, chaves, o escambáu:

       – Presta bem atenção, guri…

       E o Álvaro:

       – Estou prestando.

       – Operar com esta máquina é muito simples…

       – É?

       – Claro que é. Veja bem. Com as mãos, tu puxas e empurras estas duas alavancas, estás vendo?

       – Tô.

       – Pois bem. Com os pés, tu movimentas estes dois pedais…

       – Hum… hum…

        – O ajuste da operação tu fazes apertando este botão com o cotovelo e a partida da máquina tu dás comprimindo este outro botão com a cabeça. Viu como é fácil?

       Álvaro Cleto, que apesar de muito novo já era piadista e irreverente, respondeu:

       – Muito simples. O senhor também tem uma vassoura pra eu enfiar no  rabo e sair varrendo a oficina?

 

A prova incriminadora  

     O camarada estava mandando ver numa bicha, detrás de uma jangada, numa de nossas praias. De repente, encostou uma dupla de parrudos PMs, e um deles berrou:

      – Êêêpa! Que viadagem essa aqui?

      Ao escutar a voz do militar, o pirobo saiu na maior disparada, praia afora, e o ativo logo recebeu voz de prisão, por atentado ao pudor. Aí, tentou sair-se numa boa:

       – Que onda é essa, seu praça? Eu apenas estava fazendo uma precisão…

       – Que precisão, que nada, porra? Você tava comendo o viado!

       – Prove!

       – E estas duas orelhas que você está segurando, hein?