Ailton Villanova

18 de novembro de 2016

Apenas para tirar a dúvida

     O distinto cidadão intitulado Rodinaldo Messias foi dono de um açougue no Tabuleiro do Martins, que funcionava de segunda a sábado, o dia todo. A freguesia era fidelíssima. De vez em quando, pintava gente nova na relação dos frequentadores do açougue, que vendia até picolé, fabricado por dona Epifânia, mulher do Rodinaldo. Numa certa ocasião, baixou por lá um sujeito da orelha de lebre, todo cheio de direito:

     – Me vê aí uma galinha caipira, por favor!

     Rodinaldo foi lá dentro e voltou com a penosa solicitada. O freguês virou-a de cabeça pra baixo, cheirou o traseiro dela e disse:

     – Epa! Essa não é de capoeira! É de granja! Eu pedi foi uma galinha caipira!

     Pacientemente, Rodinaldo voltou ao interior do açougue e, rapidinho, ressurgiu com novo exemplar galináceo:

     – Veja esta!

     O cara repetiu o ritual: botou a galinha de ponta cabeça e sapecou o maior cheiro no furico da dita cuja: 

      – Qualé, meu? Tá querendo me enganar? Essa também não é caipira de jeito nenhum! Olha que eu vou procurar o Procon!

     – Paciência, meu amigo! Paciência! – pediu o açougueiro.

     – Mais paciência do que estou tendo? Deixe de enrolada e me traga logo essa galinha caipira!

     Pela terceira vez Rodinaldo correu ao fundo do açougue. Desesperado, pegou uma galinha zambeta e estrábica:

     – Vai ser esta e seja o que Deus quiser!

      Assim que o abusado freguês botou o olhão na ave, soltou um suspiro de alívio. Mesmo assim, cheirou o furico dela, por via das dúvidas. Ao retirar a venta da bunda da penosa, anunciou satisfeito:

     – Aaahhh! Esta, sim! Esta é de granja!

     Na saída, o chato freguês esbarrou no pinguço conhecido por “Bigode”, que tinha acompanhado toda a cena. Bigode virou-lhe as costas, abaixou as calças e apelou:

     – Ô amizade, o drama é o seguinte… Na farra que eu fiz ontem, comi um tira-gosto de galinha, mas tô cismado que num era galinha, tá me compreendendo? Desconfio que era galo! Por acaso você se incomodaria de dar uma cheirada no meu cu, pra ver se o tira-gosto era mesmo de galinha?

 

O filho culpado

     Cearense nascido no Crato,  Severiano Amadeu, mais conhecido como “Biu Batoré”, não se cansava de proclamar, cheio de orgulho, que era alagoano de coração. Ele aqui chegou, bem dizer, “puxando a cachorrinha”, conforme se diz na gíria. Aposentou-se, anos mais tarde, na condição de alto empresário do ramo da construção civil, com um monte de grana sobrando no banco, e nos bolsos.

     Certa ocasião, retornando de uma viagem de recreio à sua terra natal, ele parou o carrão num restaurante à margem da rodovia e, juntamente com a esposa, dona Otelina, e o filho único Cícero Romão, ocuparam uma mesa, ocasião em que o garçom, cheio de mesuras, apresentou-se, cheio de mesuras:

      – Às suas ordens, doutor…

     E Severiano, sem mais delongas:

     – Traga o melhor prato da casa pra mim, pra minha mulher e pro filho.

     Dito isto, enfincou o maior tabefe na cabeça do garoto, que é um tanto graúda, bastante parecida com uma abóbora. O garçom assustou-se com aquela agressão ao menino.

      A família comeu em silêncio e, quando terminou de rangar, Severiano solicitou a presença do garçom:

      – Me veja aí um docinho de jaca pra mim, pra minha mulher e pro meu filho…

      Cataplaft! Outro tabefe no garoto.

      Dessa vez, não só o garçom, mas toda a freguesia do restaurante olhou revoltada. Um psicólogo presente, era o mais revoltado:

      – Se esse cara fizer isso novamente, vou dar um esbregue nele! Tamanha violência pode causar sérios distúrbios psíquicos no menino!

      Passado algum tempo, novamente Biu Batoré chamou o garçom:

      – Traga um café pra mim, outro pra minha mulher e outro pro meu filho.

      Cataplaft! Dessa vez o tabefe na cabeça do infeliz do garoto ressoou nos quatro cantos do restaurante. Aí, o psicólogo partiu firme pra cima do pai desalmado:

      – Mas o que é isso?! Por que o senhor agride tanto o seu filho? Fique sabendo que essa violência pode trazer consequências negativas pra ele!

      O cearense olhou pro psicólogo e disse:

      – Como hoje eu estou com ótimo humor, eu vou falar… Meu amigo, você tem dinheiro?

      – Eu tenho algumas economias! – respondeu o psicólogo.

      – Pois eu tenho dinheiro pra comprar duzentos restaurantes deste. Você tem carro?

      – Bem… eu tenho um seminovo…        

      – Seminovo, hein? Pois eu tenho cinco Mercedes e cinco Mitsubishi zeradas. Você tem casa própria?

      – Tenho um apartamento.

      – E eu tenho uma mansão de matar de inveja qualquer milionário deste país. Pra finalizar, você tem uma mulher apertadinha?

      – Ah, isso eu tenho!

      – Pois eu não tenho! E a culpa é desse cabeçudo aqui!

 

Enrabou-se no Kama Sutra

 

     Por indicação de um colega de trabalho, o Constantino  Polionídio adquiriu na livraria de um dos nossos shoppings um exemplar do Kama

Sutra. Chegou em casa todo feliz, com o livro debaixo do braço, pensando em fazer com a mulher tudo o que ali estava escrito e ilustrado. Pegou a Eunábia pelo braço e a puxou para a cama:

     – Hoje nós vamos curtir o maior barato, meu amor!

     – Que barato é esse? – perguntou a madame, intrigada.

     – Você vai adorar!

     Dito isto, Constantino tirou toda a roupa e pediu a mulher que fizesse o mesmo. Ele foi na onda e caiu na cama com o marido.

     E ele, todo animado:

     – Agora, meu amor, vamos à primeira posição…

     – Tá.

     – Muito bem. Passe o braço por aqui, por baixo… Ótimo! Peraí, deixa eu olhar no livro… Ah, sim! Agora, vou passar a minha perna para o outro lado… Aaahhh… Ufa! Vamos, coloque o seu cotovelo um pouco mais para trás… Isso! Deixa ver… Hummm… Ui! Levante a coxa e passe por baixo de mim… Ôôô… é a minha vez de dobrar a barriga. Eita! Vira pra lá! Vira pra lá! Vira, vira, viraaa Eutanábia! Ui! Para! Para!

     – O que foi, Constantino?

     – Enrabei-me!