Ailton Villanova

15 de novembro de 2016

Bacalhau cantador

     O mundo está cheio de histórias de loucos, muitas delas tristes, melancólicas. O universo do alienado mental, se tantas vezes é doloroso, irreal, é alindado pelo tom hilário que norteia a absoluta maioria das suas narrativas. O lunático, além do nosso profundo respeito, há que merecer, também, a nossa melhor atenção, porque em lapsos frequentes consegue superar em inteligência, sagacidade, aquele que se arvora em dono da razão. Aqui, um pequeno exemplo do que acabo de afirmar:

     Doutor Lusitânio, diretor de determinado hospital psiquiátrico passeava pelos jardins do referido, entre internos que tomavam sol. Chamado por um deles, atendeu solicito:

     – Tudo bem Antiógenes?

     – Tudo, diretor.

     – O que é que você manda, meu caro?

     E o doido:

     – Eu gostaria que o senhor me respondesse uma perguntinha…

     – Se eu souber responde-la… Vá, pergunte!

     – O que é que fica em cima das árvores, é verde e canta como um passarinho?

     – Hummmmm… Seria um papagaio cantador?

     – Eu sabia que o senhor ia errar. É bacalhau! 

     – Bacalhau???!!! Desde quando bacalhau fica em cima de árvores, é verde e canta?

     E Antiógenes, desdenhando:

     – Ora, ora… Tem cada idiota neste hospital! Eu pintei um bacalhau de verde e coloquei em cima daquela árvore alí, ó!

     O diretor reparou na presepada e retrucou:

     – Em parte você tem razão. Mas… onde se encaixa o detalhe de que “ele canta como um passarinho”?

     E o louco:

     – É pra facilitar a pergunta!

 

Carteira fatal

     Sujeito bom, batalhador, o taxista Mirandolino Pinto voltava pra casa à noite, depois de um dia fraquíssimo de trabalho quando, no meio do caminho, avistou um sujeito, lhe fazendo sinal para ele parar o taxi. Mirandolino parou, o sujeito entrou no veículo e ele, Mirandolino, reparou bem na cara do passageiro. Era uma cara feia, estranha, cara de marginal mesmo. Aí, ele ficou cabreiro, mas foi em frente.

     Bem adiante, num pedaço melhor iluminado, Mirandolino lembrou-se de ver se sua carteira estava no bolso. Não estava. A carteira havia sumido. Então, ele parou o carro e gritou pro passageiro, no desespero:

     – A carteira! Passe logo carteira!

     Apavorado, o passageiro suspeito entregou-lhe a carteira, pulou do taxi e disparou rua afora.

     Ao chegar em casa, todo satisfeito, Mirandolino procurou a esposa para contar à ela o ato de coragem que acabara de praticar:

     – Judite, você saber o que quase aconteceu com a minha carteira?

     E a esposa:

     – Sei. Você a esqueceu em casa hoje de manhã, quando saiu pra trabalhar!

 

Louro muito abusado

     O distinto Floribaldo Bezerra possuía uma papagaia havia um tempão, e nada de ela aprender a falar. Comentando o fato com um amigo, este, então, ofereceu a solução para o problema:

     – Ela só vai começar a falar depois da primeira transa!

     Floribaldo rodou a cidade inteira e o máximo que conseguiu foi um louro capeguinha, que pertencia a um marinheiro aposentado. Na falta de coisa melhor, ele pegou o aleijadinho e levou pra casa, mediante empréstimo.

      Mal Floribaldo chegou em casa, sua mulher, dona Estrigonina, logo reparou no defeito do penoso e não se furtou em tecer sua crítica a respeito:

      – Ô meu amor, você não tinha um louro melhorzinho para arrumar? Esse é aleijado! Parece uma mula-manca!

     Ao escutar o comentário depreciativo a seu respeito, o papagaio arretou-se:

     – Olha, dona… em primeiro lugar, mula-manca é a puta que pariu! E em segundo lugar, eu tô aqui pra trepar e não pra jogar futebol!

 

Penosas muito dignas!

     Irmãs velhuscas e solteironas, dona Zerilda dona Zeralda, asseguravam que eram virgens. Da varanda de casa, elas observavam a criação de galinhas da vizinha quando, de repente, surgiu no cenário um galo tarado e começou a perseguir as penosas. Cacarejando e batendo as asas, pelo menos três delas pularam a cerca e, na hora em que atravessavam a rua, foram atropeladas por um carro que passava em alta velocidade. Dona Zerilda indignou-se e comentou com a irmã:

      – Viu só, Aldinha? As pobrezinhas preferiram morrer a dar a bunda para aquele galo safado!

      E a irmã:

      – Isto é que é dignidade!

 

O detalhe da barba reveladora

     O distinto Euberlúcio cultivou uma vistosa e bem cuidada barba durante mais de 20 anos, mas por causa de uma amante, casada, por sinal, teve de raspá-la. Por conta disso, chegou à triste descoberta que também era corno.

     O babado é o seguinte: noite de sexta-feira, Euberlúcio pegou a tal amante e levou pro motel. Cheia de frescura, ela voltou a implicar com a barba do cara:

     – Puxa, mas que coisa chata é essa sua barba! Arranha pra caramba! Raspe-a, por favor!

     E ele:

     – Se dependesse apenas de mim, pode ficar certa que eu a tiraria agorinha mesmo. Minha mulher adora esta barba! Se eu a raspar, ela me mata!

     – Ah, meu amor… faz isso por mim, faz!

    Tanto a amante insistiu que o Euberlúcio, apaixonadão, acabou concordando. Alí mesmo, passou a lâmina na pelagem, deixando a cara mais lisa do que bunda de santo. Depois disso, a noitada foi sensacional.

     O guerreirão chegou em casa lá pelas três da madrugada. Rapidinho, deitou-se na cama, sem fazer barulho. A esposa, meio acordada, meio dormindo, passou a mão no seu rosto e disparou:

     – Ô Marcão, o que você ainda está fazendo aqui?! O meu marido Euberlúcio pode chegar a qualquer momento!

 

Sabugo utilitário

     Famoso no interior do estado, tanto pela sua bondade, quanto pela sua competência profissional, o médico Aroaldo Coristeu foi acordado, alta madrugada, para atender a uma paciente na zona rural de Palmeira dos Indios. Mais que depressa, pegou os seus apetrechos, mandou-se para o local, cumpriu a sua missão e, quando se preparava para voltar, bateu-lhe uma vontade danada de fazer cocô.

     – Por favor, onde fica o sanitário? – perguntou ao dono da humilde casa.

     – Ali no fundo do quintá, dotô! – ensinou o indagado.

     – Lá tem papel?

     – Aqui nóis num usa papé, dotô. Nóis usa sabugo de mío.

     – Sabugo de milho?! Mas sabugo é grosso, áspero, parece um ralador!

     – Mas tem a sua utilidade, né, dotô? Ao mermo tempo qui limpa, coça e penteia os cabelinho do cu!